OPINIÃO
13/10/2015 18:29 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

As perguntas que os adolescentes NÃO querem ouvir

A gente quer falar a sério, dialogar, sobre as coisas que temos de decidir, queremos responder de verdade, sem aquelas respostas de elevador - que parece que é justamente o que alguns adultos querem ouvir.

Por Lucas França, 17, do Méier, Rio de Janeiro

Eu vou contextualizar essa foto, mas, em resumo, este texto é um recado para todos os pais, mães, familiares - e também pra toda galerinha nova: conversem!

Nós, os jovens, imaginamos que a vida depois da escola é difícil, que trabalhar não é a coisa mais fácil do mundo. Só que, preciso informa-los, a gente tem noção disso. E, mais: por incrível que pareça, quando dito da forma certa, damos atenção ao que vocês falam.

Forma certa? É, vou chegar lá.

Esse recorte do Whatsapp é parte de uma conversa com minha amiga Fernanda. Ela me contava sobre seu dia e um jantar ao qual tinha ido. "As perguntas de sempre, França", respondeu ela, e me contou o que reproduzi acima.

Brincamos sobre a conversa, falamos de outras coisas, mas esse diálogo nunca saiu da minha mente. Resolvi escrever sobre isso.

A galera da minha idade e da Fernanda, de 16 e 17 anos, sofre uma baita pressão nessa fase da vida, e conversas sobre as escolhas que estamos prestes a fazer podem ajudar muito. Só que com perguntas em tom de cobrança isso não vai rolar.

Isso tira possibilidade de diálogo e até desmotiva o jovem, que é o principal interessado na conversa.

A gente quer falar a sério, dialogar, sobre as coisas que temos de decidir, queremos responder de verdade, sem aquelas respostas de elevador - que parece que é justamente o que alguns adultos querem ouvir.

"O que você quer ser quando crescer?"

Me sinto confortável para responder essa pergunta com outra. Por que escolher tão cedo?

Essa pergunta existe desde que a criança começa a falar. Não adianta fugir. Às vezes, a pergunta vem disfarçada de afirmação como: "esse tem pinta de engenheiro!". No fim, dá no mesmo.

Só eu já respondi com astronauta, veterinário, historiador, engenheiro químico, jogador de futebol, ator, designer de games e, se pudesse, iria ter um desses empregos em cada momento do dia.

Hoje, quero ser jornalista, mas não tenho certeza.

A gente entende que os adultos morrem de curiosidade, mas é preciso pegar leve com a pressão. Nos sentimos cobrados a saber o que se quer fazer da vida o tempo todo.

No meu caso, eu sinto que tenho que me apressar porque estou na reta para o vestibular. Tenho 17 anos e, no fim do ano, vou escolher meu curso.

Sei que isso é importante, mas, vamos falar sério, não podemos dizer que tem de ser a escolha de uma vida. Eu quero escolher bem, só que posso sim mudar.

"E a namorada?"

Eu sempre respondo: "qual das 10?". Devolvo a pergunta pra questionar se isso é realmente relevante pra quem pergunta, não por agressividade.

E, sim, a gente é jovem mas também tem vida privada e tem de ser respeitada.

Essa pergunta, geralmente, vem com o ar de "não tá namorando? então, tem problema aí". Não tem problema.

É que, se por um lado ter alguém para compartilhar ideias, abraços e conversas pode ser bom, ficar sozinho também pode. É uma escolha.

"Como tá a escola?"

Essa é a pergunta mais suave, mas talvez não devesse ser. É uma pergunta muito séria, já que precisamos muito falar sobre as escolas.

Se a gente volta na origem da palavra, vê que o significado tem a ver com lazer, discussão. Sentimos falta justamente de ter um lugar pra troca de conhecimento e aprendizado mais amplo, não só pras aulas da grade curricular.

Então fica combinado: se rolar essa pergunta e a gente responder "retrógrada, desatualizada e sem espaço pra conversa", não pode encerrar o papo.

(P.S.: eu sei que existem escolas diferentes)

"Por que você não faz engenharia?"

A engenharia aqui é só um exemplo, tem sempre aquela profissão vista como tradicional que é sugerida sistematicamente.

A família diz que é cuidado com o futuro do adolescente, só que é preciso ficar atento. Quando a gente quer que os outros façam o que nós achamos que é melhor, estamos levando em conta os nossos valores e não os da pessoa que a gente quer orientar.

Sacaram a diferença?

Comigo rolou isso. Faço curso técnico de roteiro para mídias digitais, mas podia ter escolhido multímidia ou programação. Quando eu decidi, metade do chão lá de casa desabou.

"Vai trabalhar com o quê? Se sustentar como? Tem gente que contrata esse tipo de profissional?". Ouvi, ou melhor, ouço, essa pergunta até hoje a três meses do fim do curso.

É importante ouvir o que alguém mais velho acha do caminho que a gente escolhe, as dificuldades que ele enxerga, mas a escolha é de quem faz. No fim, a pressão traz desconfiança de si mesmo e gera uma bola de neve de irritações.

Enfim, eu gosto muito da maneira como a Fernanda terminou a conversa: "essas coisas". É, são essas coisas que nos geram dúvida e atrapalham nossa caminhada.

Se eles perguntarem a sério, porque querem ouvir e saber, e a gente também responder com seriedade, o diálogo pode rolar. Aí, sim, as coisas viram outras coisas, a gente se conhece melhor e aprende um com o outro.

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