OPINIÃO
13/06/2014 09:40 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Copa do Mundo do Brasil: o que acontece é indecente

O problema é o caderno de cobranças da Fifa, que impõe o gasto de tanto dinheiro público. Deveria absolutamente haver compromissos do setor privado, pois são eles que tiram as castanhas do fogo. O que o público tira? Um novo bonde?

Alguns anos atrás, fiquei feliz com a designação do Brasil como país-sede. Desde então a realidade se impôs a todos nós.

O que acontece é indecente, e igualmente o pedido de Michel Platini de que se faça uma pausa nas manifestações durante o Mundial. O negócio do esporte é um espelho da sociedade. Voltamos a séculos anteriores; na hora da internet, da representação individual permanente, voltamos a sentir odores detestáveis. Uma sociedade intolerante, que limita a liberdade de pensamento. Não se pode mais nem fazer piada do que quer que seja! Vejo aí uma ligação direta com o esporte, pois ele pode agregar todos os tipos de classes sociais. Mas o poder do dinheiro domina o ritmo de tudo. É um perigo, mas ninguém mais quer fazer algo para mudar isso. Todo mundo baixou os braços. E isso não é desmentido pela Copa do Mundo 2018 na Rússia e a atribuição da Copa ao Catar em 2022. Sem falar no anúncio dos últimos dias de que Sepp Blatter vai se candidatar mais uma vez...

De maneira geral, as atribuições da Copa do Mundo são orientadas pela geopolítica. A Fifa passa o tempo fazendo política. Há um paradoxo em todos os níveis, e até os esportistas percebem isso. Eles são gordamente remunerados, e de certa maneira se compra seu silêncio, mas não, não somos obrigados a seguir isso. Uma minoria de pessoas tenta lutar contra essa situação, mas é difícil, pois nesse meio todo mundo tem o rabo preso: se você quer continuar trabalhando, não deve atacar o sistema. Há tantas coisas a mudar no funcionamento da Fifa e da Uefa... São verdadeiros Estados dentro de Estados. Esse poder financeiro me dá medo! O esporte muitas vezes foi utilizado com fins de propaganda, não esqueçamos...

Mas as pessoas não são mais ingênuas, não estão mais desinformadas. A internet, as redes sociais: elas conhecem tudo, e é o terror dos políticos que não podem mais fazer essa propaganda. Eu compreendo totalmente os brasileiros que veem que há bilhões de euros em despesas, enquanto não se sabe o que vai acontecer depois da Copa...

No entanto, a escolha do Brasil como país-sede continua uma boa opção. O problema é o caderno de cobranças da Fifa, que impõe o gasto de tanto dinheiro público. Deveria absolutamente haver compromissos do setor privado, pois são eles que tiram as castanhas do fogo. O que o público tira? Um novo bonde? Enquanto isso, as empresas privadas que constroem os novos estádios, as novas infraestruturas, se enchem de dinheiro. "Vocês querem enriquecer? Está bem, mas cabe a vocês fazer as infraestruturas", eis o que eu diria no lugar da Fifa.

Desejamos, de qualquer modo, que seja uma bela competição no Brasil: eles são cinco vezes campeões do mundo, e servem de exemplo. Nós, franceses, somos um pouco sua besta negra. Eu não poderei estar lá durante a competição, mas viver uma Copa do Mundo no Brasil é extraordinário! Eu quase estive no país quando jogava no Barcelona, com Rivaldo. Ele me convidou para ir à casa de sua família, mas finalmente mudou de ideia e me disse: "Faz apenas um ano e meio que você marcou o gol do 3-0 na final, talvez não seja uma boa ideia ir agora".

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