OPINIÃO
31/03/2014 13:53 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:16 -02

Sobre os livros que você não leu

Semana passada tive um almoço superdivertido com um grande amigo meu, o Gabriel. E, qualquer encontro com o Gabriel, por mais corrido que seja, como foi o caso, é ensejo para grandes conversas (acontece que, embora hoje sejamos também colegas de métier, nossa amizade é coisa de longa data: fizemos catequese (!) na infância, na adolescência nos reencontramos estudando teatro, cursamos a mesma faculdade e sempre compartilhamos os mesmos gostos musicais).

Entre garfadas de carne seca, um pitaco no sistema de Antonio Candido, mais garfadas de purê de abóbora, fofocas sobre os boys magia, a revista do IMS, etc e tal, eis que o Gabriel me pergunta:

- Você gosta da Verônica Stigger?

Baixei o olhar. Nunca tinha lido Verônica Stigger. Trata-se de uma escritora bastante famosa e, embora oriunda de uma leva relativamente jovem da produção literária brasileira, já é até estudada no âmbito acadêmico. Naquele momento fui acometida por um sentimento de vergonha, um constrangimento mesmo.

Lembrei-me então do livro Como falar dos livros que não lemos, de Pierre Bayard. Por sorte, esse título caiu em minhas mãos logo em seu lançamento aqui no Brasil, pouco tempo depois de eu entrar no mercado editorial. Eu achava que, por adentrar a área, teria a obrigação moral de ler todos os clássicos da literatura universal, também os marginais, além de, evidentemente, estar atualizada com os títulos recém-publicados e sempre ter uma rotatividade em minha cabeceira dos meus autores preferidos. Tudo junto. Tudo ao mesmo tempo. Tudo naquele ano. O livro de Bayard surgiu na hora certa para tranquilizar uma aflição existencial.

Diferente do que o título pode sugerir e do que muitas pessoas possam acreditar, Bayard não defende a morte da leitura literária nem sugere o fim do leitor erudito. Muito pelo contrário: professor de Literatura da Sorbonne, o autor mensura como é humanamente impossível, em uma vida, uma pessoa ter acesso à leitura de todos os clássicos, e como essa obrigatoriedade - comum em escolas, universidades e círculos intelectuais - muitas vezes cria "traumas culturais" que causam o efeito oposto do que aquele a que literatura deveria se propor: eliminam o prazer da leitura e afastam potenciais leitores. Bayard, que confessa não ter lido uma porção de títulos ditos imprescindíveis (dentre os quais Ulisses, de James Joyce), também discorre sobre outros fatores importantes na vida de um sujeito, como a sua formação cultural, que muito influenciará no conhecimento geral sobre os livros que ele não leu - daí o título. Mesmo não tendo lido Ulisses, uma sólida formação em cultura ocidental e sobre Homero permitem que o professor converse com segurança sobre o livro ou até mesmo escreva sobre ele.

A perspectiva de Bayard é um verdadeiro alento para aqueles que são apaixonados por literatura e carregam consigo a angústia de saber que nunca lerão todos os livros desejados. E, mais do que isso, é uma lição para aqueles cujo sentimento de superioridade intelectual é imbuído em uma ingenuidade que os faz acreditar que, sim, há quem consiga. Não, não há. Nós temos uma fila de títulos a ler que cresce em uma proporção muito maior do que a dos já lidos e, evidentemente, nessa fila - que é nossa, somente nossa - permitimos também certos furos de vez em quando. C'est-à-dire...

Portanto, se você faz parte de um desses times (seja o dos que se afligem, seja o daqueles que julgam o lapso alheio), não se afobe, não. Nada é pra já.

Mas, por via das dúvidas, já pedi pro Gabriel o livro da Verônica Stigger emprestado.