OPINIÃO
15/06/2018 16:02 -03 | Atualizado 15/06/2018 16:02 -03

Se você cruzasse com Hitler, o que você faria?

Uma reflexão sobre Stephen King e o atual momento político internacional.

KONTROLAB via Getty Images
Obra do artista Paolo Leonardo remete a Hitler e está em exibição permanente dentro de Castiglia em Saluzzo, perto de Turin.

A zona mortafoi o quinto romance de Stephen King, lançado em 1979. Já consagrado pelas obras precedentes (Carrie, a estranha, A dança da morte, A hora do vampiro e O Iluminado), o autor teve uma excelente recepção crítica. Considerado até hoje como um dos seus melhores romances, o título foi recomendado, em The Essential Stephen King, como melhor livro para se iniciar na leitura da bibliografia de King. Isso devido à alta qualidade do suspense, à complexidade dos personagens e à narrativa, que se distancia do terror das ficções anteriores sem no entanto perder o ritmo instigador.

A história discorre basicamente sobre John Smith, um professor de literatura de uma cidadezinha no estado do Maine, nos Estados Unidos. Após sofrer um grave acidente de carro, Johnny passa quase 5 anos em coma absoluto. Quando ele enfim acorda, desperta a curiosidade de neurocientistas de todo o país, pois, ao ter algum contato físico com qualquer pessoa, visualiza coisas: esbarra na mão da enfermeira e percebe que o filho da moça está em perigo; ao ser tocado pelo médico, descobre o paradeiro da mãe, dada como morta na guerra, e por aí vai.

Passado certo tempo, como se ávido por recuperar o tempo perdido no coma, Johnny passa a ter uma forte inclinação por política e resolve acompanhar comícios de candidatos a deputados. Um dos que mais despertam sua curiosidade é Greg Stillson.

Aos 43 anos, o improvável Stillson traz em seu passado um sem-número de torturas, corrupção, casos censurados por meio de chantagens, e vive um crescimento meteórico: apresenta uma campanha repleta de fanfarras – como a promessa de não ter partido –, com direito a performances caricatas usando capacete de operário, discursos em nome da moral e dos bons costumes do povo de bem e o slogan que funciona como uma catarse coletiva: "Fora, vagabundos!".

Seus seguranças são os Camisas Negras, motociclistas famosos pelo envolvimento com crimes violentos, que fazem a guarda do candidato munidos de tacos de beisebol. E Johnny, conforme conversa com as pessoas, nota um vívido e entretido interesse dos outros pelo candidato, apenas "para ver no que vai dar".

Em um dos comícios, Johnny cumprimenta Greg Stillson com um aperto de mão e visualiza o destino naquele homem: em um futuro não muito distante, ele se tornará o presidente dos Estados Unidos e causará grandes catástrofes. E, assim, o protagonista se depara com um grande dilema: como convencer os outros do grande mal que aquele político representa? Em dado momento, ele se pergunta: "vamos supor que você pudesse entrar numa máquina do tempo e voltar ao ano de 1932. À Alemanha. E suponha que cruzasse com Hitler. O que você faria?".

O quinto romance de Stephen King veio parar em minhas mãos poucos meses após as eleições de Donald Trump, quando houve um grande número de pessoas comparando a ficção com a realidade que o país então viveria. Impossível, neste caso, também não encontrar semelhanças evidentes entre nosso cenário político e o candidato fanfarrão com sérias inclinações fascistas do livro.

Assim como lá, ao Norte, um dos maiores perigos que percebo para o nosso país não é, talvez, a ação direta de um candidato em questão, mas o poder de representatividade e a consequente amplificação de sua voz, na grande relação de poder que a linguagem exerce.

Assim como a representatividade tem um fortíssimo papel de empoderamento para os oprimidos, ela também acaba tendo grande relevância e fornecendo uma poderosa "carta de permissão" aos opressores: seus discursos ganham força e respaldo ao serem reflexo do discurso de seu mandatário.

E é assim que nos últimos meses o movimento pró-nazismo vem crescendo de maneira exponencial, bem como o genocídio ao povo negro, ao povo indígena e à comunidade LGBTQ, os estupros, os feminicídios, a censura à arte e à educação, e a violência de modo geral em nome da moral e dos bons costumes do cidadão de bem, que agora, mais do que nunca, encontra endosso e identificação para suas palavras e seus atos.

No romance, Johnny Smith vivencia o conflito entre o poder de antever o futuro versus a possibilidade de modificá-lo a tempo – no entanto, há o conflito adicional, que são as consequências acarretadas por tal possibilidade. Se o personagem teve ou não essa coragem, fica a dica de leitura. Na vida real, porém, não é preciso ser dotado de nenhum poder sobrenatural para sabermos o destino que nos aguarda caso algo não seja feito.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.