OPINIÃO
10/06/2014 10:29 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Pedro, o alfabetizado político contra a Copa

MARCELLO DIAS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Toda essa discussão em torno da Copa do Mundo no Brasil e a problemática sociopolítica que ela envolve me faz lembrar de um sujeito que conheci há algum tempo, o Pedro. O Pedro era funcionário de um banco federal e, para complementar a renda, prestava serviço de frila como revisor. De vez em quando aparecia para entregar ou pegar uma encomenda e aproveitava para almoçar com o pessoal do editorial, estendendo a tarde para bater papo e tomar café.

Já passando dos 50 anos, era um desses camaradas que adorava conversar sobre política e tinha certa inclinação a ser do contra. Mas com razão: além de sua erudição, havia assistido, acompanhado e participado de uma porção de acontecimentos no país, fatores que lhe conferiam bastante poder de crítica.

Foi em um dos almoços, em uma tarde muito quente, que Pedro brevemente realizou uma análise do atual panorama político do Brasil. E chegou a duas conclusões básicas: o país não vai chegar a lugar nenhum. Por quê? Porque brasileiro é burro. Primeiro, porque brasileiro se ilude facilmente com pão e circo, ou, nas palavras do próprio revisor, cerveja e futebol. Se o brasileiro deixasse de assistir à novela e fosse um pouco letrado, constataria que, em todo o mundo, nenhuma nação desenvolvida sucumbe a elementos alienantes como cerveja e futebol. Nenhuma. E é essa alienação, indissociável à burrice, que origina a memória curta. O brasileiro, desinformado, não tem capacidade de se recordar de simples fatos históricos, até mesmo os mais recentes. Consequentemente não tem capacidade de senso crítico a respeito de sua própria realidade. Em segundo lugar, dizia Pedro, porque brasileiro não é sério. O brasileiro prefere, por exemplo, dedicar cinco dias consecutivos do seu ano ao carnaval, enquanto durante cinco meses consecutivos o governo lhe usurpa impostos. E, mais uma vez, a burrice atrelada à inércia política.

A Pedro não faltavam itens a elencar acerca do nosso contexto contemporâneo. A inflação, o desemprego, a qualidade na educação e na saúde pública, a violência que vemos todos os dias nos jornais, as greves que acontecem em todas as esferas, todos os cidadãos que se aproveitam do dinheiro público indiscriminadamente e a péssima memória do brasileiro apontam para um singular momento de nunca antes na história desse país. O brasileiro nunca foi tão sofrido, nunca teve tanto medo, nunca viveu uma economia tão abalada, e ainda tem coragem de ter prazer?

Foi neste mesmo almoço que Pedro citou o Bertold Bretch, orgulhoso de gostar de política e ser um alfabetizado político com autocondescendência o suficiente para cumprir seu efetivo papel social diariamente: ele sabia o que estava acontecendo.

Por coincidência, esse final de semana topei com Pedro no balcão de um bar na Lapa. Estava tomando vinho e escutando jazz. Só pra chatear, perguntei:

- E aí, Pedro, animado pra Copa?

E ele respondeu:

- Essa palhaçada vai acontecer mesmo. Esse país não vai pra frente. Os hospitais em péssimas condições e as pessoas estão aí tomando cerveja e escutando samba, ficam aí sem fazer nada. Brasileiro é tudo burro.

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