OPINIÃO
04/09/2014 21:10 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Patrícia Moreira, o macaco, eu e você

DI MARCO/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO

Sem dúvida, o assunto que mais repercutiu na última semana foi o episódio ocorrido na Arena, em Porto Alegre, protagonizado pela jovem torcedora do Grêmio, Patrícia Moreira. Flagrada por uma câmera da ESPN, a menina, com sangue nos olhos, articulava perfeitamente a palavra "macaco", dirigindo-se a Aranha, goleiro do Santos. Poucos minutos depois, discussões acaloradas sobre o racismo se iniciavam nas redes sociais e na mídia.

Por ter frequentado e vivido em cidades de diferentes colonizações (inclusive a Porto Alegre do episódio), tive a oportunidade de ver - de perto, de longe, direta e indiretamente, comigo e com os outros - o racismo em suas diversas facetas. Quando no Brasil se fala em racismo e suas manifestações, as primeiras evidências que surgem em nosso imaginário são atos explícitos: vocábulos como macaco, crioulo, alusões a primatas, expressões como cabelo ruim, coisa de preto, negros sendo destratados em público, etc. Não cessam também medidas inibitórias a tais expressões, que visam a minimizar o racismo. A mais comum, creio, seja a adoção da palavra afrodescendente em preferência à negro, cuja carga pejorativa possui origem secular.

Naturalmente, devido à manifestação óbvia de Patrícia Moreira, ela foi afastada do trabalho, e não tardaram as solicitações pela prisão da garota. Afinal, racismo é crime, e o que vimos na televisão foi um ato racista evidente. Havia outros torcedores cometendo práticas semelhantes, o que não invalida a gravidade do crime praticado. Também não tardaram, no entanto, incitações de ódio contra Patrícia: injúrias de piranha, puta, e sentenças sem jurisdição declarando que ela deveria ser estuprada... Por um negro. Quando, ao rechaçar atos deploráveis como o de Patrícia e reagimos com incitações ao ódio tais como essas, me pergunto: a quem cabe a responsabilidade de, ao massificar a repulsão ao racismo, suscitar junto debates mais aprofundados que levem à reflexão sobre violência e outras práticas de preconceito? Até que ponto sabemos lidar com a capacidade de julgar lançando mão da imparcialidade e do bom senso?

Patrícia Moreira e o grito macaco representam a forma mais simplória e, talvez, de mais fácil "combate" ao racismo. Imaginem que bom seria se, assim como Emmanuel Goldstein, suprimíssemos as palavras macaco e banana, e assim todo o racismo acabasse. Macaco é um primata cuja ancestralidade é comum ao ser humano. Chamar uma pessoa de macaco se configuraria uma ofensa ao se aludir o negro à África, criando uma relação direta com o primitivismo: a inferioridade. Mas viemos todos de uma grande Pangeia, de uma única origem. Não existe, assim, insulto em macaco. Mas, se acabássemos a palavra, permaneceria o conceito, que está subsistente no coletivo. Um conceito ignorante, aliás.

Infelizmente o que há de pior e o que acontece de mais cruel quando se trata de racismo são as práticas veladas, o que faz grande parte da população acreditar que tal preconceito não existe mais no Brasil. Ele subsiste quando dizem, de forma quase complacente, que "você nem é tão negra assim", implicitando o discurso "não se subestime"; quando sugerem "nem alisar", mas "domar" os cachos; ele subiste quando a negra tem uma beleza exótica. Ele subsiste quando, em um estado com mais de 76% de sua população negra, como é o caso da Bahia, não há nenhum negro na foto da turma de graduandos em Medicina, mas isso é "fruto da força de vontade". Ele subsiste quando, ao ser assaltada na rua, uma senhora de bem - que até tem amigos negros e nunca destratou nenhum deles - é apresentada a suspeitos na delegacia e elege "por intuição" qual deles será o punido.

Essas práticas não são identificadas, não são cometidas nem combatidas diretamente. Tampouco de maneira consciente. Vivemos uma história de mais 500 anos e somos herdeiros da cultura de uma sociedade ocidental milenar que também lida com problemas semelhantes. Nosso racismo é atávico, intrínseco. E quando digo "nosso", me incluo, pois sou tão brasileira e tão ocidental quanto você, sou herdeira da mesma história, e nossos critérios são subjetivos, latentes. Me eximir da tarefa de lutar contra um racismo invisível - como quem o sofre e como quem o pratica - seria não apenas uma hipocrisia mas uma irresponsabilidade.

Patrícia Moreira cometeu um crime, sim. Mas se tornou também o símbolo efêmero e erroneamente generalizado de um grupo (no caso, a torcida do Grêmio), o bode expiatório de uma prática comum nacional e o alvo de uma catarse coletiva de manifestações de ódio. Que tal partirmos de uma análise crítica individual, antes de centralizarmos em apenas uma figura os problemas que também nos competem?

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