OPINIÃO
17/10/2014 13:06 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

Coxinhas e a velha polarização da velha política

Não lembro exatamente quando nem como, mas as coisas aconteceram de maneira tão rápida nas redes sociais que, quando me dei conta, o vocábulo "coxinha" já estava sendo massivamente empregado sob um novo significado.

Paul Brighton via Getty Images

Não lembro exatamente quando nem como, mas as coisas aconteceram de maneira tão rápida nas redes sociais que, quando me dei conta, o vocábulo "coxinha" já estava sendo massivamente empregado sob um novo significado. A palavra que ao longo de anos em minha vida esteve vinculada à imagem de um dos meus salgados preferidos - ou seja, tão logo fosse enunciada, transmitia uma sensação de deleite, ainda que imaginário - passou a carregar consigo um estigma. Passou também a representar um grupo autodeclarado diferenciado, que não hesita em defender a manutenção de seus privilégios e atacar aqueles que porventura também queiram ter algum direito.

E, por falar na coxinha em sua nova atribuição polissêmica, parafraseando Marina Silva, os coxinhas acabam por constituir um lado da velha polarização da velha política. Ainda que no Brasil existam mais de 30 partidos com formações, influências, planos e projetos distintos, ora mais, ora menos próximos entre si, o fato é que, na hora de debater o futuro do país, todos os indivíduos serão hoje inevitável e necessariamente categorizados entre: 1) coxinhas ou 2) PTralhas, corruPTos e qualquer outro trocadilho criado por algum tio que também faz piadas com pavê e pacumê. Se antes a imagem que me ocorria de era do catupiry derretendo no frango desfiado, recheando uma massa macia e temperada, hoje, quando ouço a palavra, não tardo em me arrepiar e temer uma briga repleta de ofensas criadas a partir de salgados e trocadilhos infames.

E eu, que gosto tanto de coxinha, mas defendo com ardor a igualdade de direitos, me vejo em quase uma crise existencial, pensando qual seria o salgado a me representar. Uma bolinha de queijo, talvez? Crocante por fora, derretida por dentro, fazendo valer a máxima de que é necessário endurecer sem perder a ternura jamais? Risos.

Entretanto, nessa guerra virtual de difusão de conceitos generalizados, apesar de termos cada vez mais meios de acessar e apurar dados, as discussões permanecem inócuas; ambos os polos na maioria das vezes se sustentam lançando mão do mesmo ardil: a desinformação. E assim nos deparamos diariamente com extratos bancários toscamente adulterados, frases atribuídas a autores que jamais a proferiram, notícias ressuscitadas de quase uma década atrás e dados descontextualizados. Desse modo, é crescente o número de críticos formados exclusivamente por manchetes: aqueles que acreditam com veemência que a corrupção só passa a existir à medida que passa a ser investigada, que o combate à miséria e à fome não deve ser prioridade, que o Saramago é evangélico, que a palavra "presidenta" não existe e que 33,55% da população também agride suas mulheres, estaciona em local proibido e é viciada em cocaína.

O que eu gostaria mesmo era que todos ao menos se servissem melhor das informações que propagam. O artista francês Ben, em sua obra clássica, diz: Il faut se méfier des mots ("É preciso desconfiar das palavras", em tradução livre). Mas seria de uma ingenuidade tamanha que só me resta a esperança - também ingênua - de, no próximo dia 26, morder, mastigar, com gosto e com vontade, e fazer sumir a maior coxinha do país.

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