OPINIÃO
14/01/2015 12:06 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Convite para Hildegard Angel

É com a simplicidade de uma moradora da zona Norte que eu lhe convido: pegue um metrô da Linha 2, conheça um pouco do povo carioca. O povo de verdade, o povo da Pavuna, Irajá, Acari, que faz integração para Meriti. É o povo que faz a cidade andar, o povo que trabalha duro e pisa na areia do seu bairro, tão merecidamente quanto você pisaria, se gostasse de praia. Ainda no metrô, após passar pela Cidade Nova - que estará fechada, não se assuste, pois não funciona aos finais de semana -, desça na Estação São Cristovão. Venha conhecer um pouco melhor dessa cidade que é tão minha quanto sua.

Cara Hildegard,

Não sou lá muito fã de praia. Carrego comigo um sentimento forte da identidade carioca, sou uma apaixonada, estudiosa e defensora ardorosa da cidade; no entanto, curiosamente nunca cultivei grandes amores por esse que é um dos maiores ícones do Rio de Janeiro. Talvez, por constituir praticamente um clichê do "verdadeiro carioca", as pessoas pensem que não haja muitas alternativas felizes no verão pra quem não gosta de praia, o que não é bem o caso, conforme exporei a seguir.

Sou moradora da zona Norte. Eu opto, em geral, em finais de semana e feriados, por fazer algo mais fresquinho e calmo, como pegar um cinema, ir a algum centro cultural ou sair à noite para comer e beber algo. Gosto de explorar a cidade ao máximo, do bolinho de bacalhau de Realengo ao da Cadeg; do cachorro-quente de Marechal Hermes ao da Sudbrack; da cerveja da Lapa à da mureta da Urca; dos doces da feira de São Cristovão aos da Guerin. Isso falando de comida, claro está - sempre acabo falando de comida, você vai ver. Mas foi com bastante choque que li um texto seu no último dia 12, propondo que fosse drasticamente reduzida a circulação de linhas entre as zonas Norte e Sul, sob o argumento de que, em tempos de arrastão, era necessário proteger a população do medo e da violência.

Concordo que a população não deva estar sujeita ao medo e à violência. Concordo e defendo.

Porém, talvez você, que enfatizou nos comentários do post - antes de apagá-lo - que não era uma pessoa egoísta, esteja analisando o conceito de população sob uma ótica um pouquinho egoísta. A população da cidade do Rio de Janeiro, como você bem sabe, é composta por mais de seis milhões de habitantes, moradores das zonas Sul, Norte e Oeste e Centro (sem contar os da Baixada Fluminense que, embora não faça parte do município, integra o cotidiano da cidade), todos suscetíveis a uma violência e um medo constantes e aterradores. Você pode buscar mais informações sobre moradores que são abatidos pela polícia, como foi o caso da Cláudia, da Haíssa, do Amarildo; pode ver vídeos ou fotos da situação na qual se encontram os moradores de algumas regiões, como Manguinhos, Jacaré, ou as diversas comunidades que compõem o Complexo da Maré. Contabilizando apenas as zonas Oeste e Norte do Rio de Janeiro, teremos muito mais do que metade da população de toda a cidade inteirinha. E diminuir o acesso do transporte público à zona Sul, minha cara Hildegard, não vai proteger a população.

Talvez crie aquela impressão, para você e seus vizinhos, de que a cidade está menos cheia. Mas a cidade não é orla da zona Sul. E eu não precisava contar isso pra você: você não é boba nem nada. Você sabe disso.

O que talvez você não conheça é a vida para além do Túnel Rebouças. Mas eu vou fazer um relato sucinto da minha realidade, já que seria uma pretensão muito grande tentar resumir a realidade da cidade inteira. Minha situação financeira evidentemente não é confortável como a sua, mas, sobretudo por evitar viver em uma zona de conforto e conhecer realidades tão cruéis como as que citei acima, eu me julgo privilegiada. Sou usuária do transporte público, que é bem precário. A maioria dos ônibus não tem ar-condicionado, vive superlotada, demora para passar e, quando passa, dificilmente para (o que aumenta a superlotação). No metrô e no trem não é diferente. Eu, que moro a apenas quinze estações do meu trabalho e despendo pouco menos de duas horas em um trajeto, me vejo em vantagem, pois tenho muitos amigos que acordam às quatro horas da manhã para encarar um transporte ineficiente, caro, lento, quente, lotado, chegam ao trabalho já cansados, suados, famintos, e depois encaram tudo de novo para voltar.

Agora, minha cara Hildegard, imagine só, no final de semana, eu, depois de 40h de jornada de trabalho, uma hora e meia apertada e suada pra ir, apertada e suada pra voltar, por questões meramente pessoais opto por ir ao cinema e fazer um lanche; você, que deve também estar cansada do seu ofício depois de uma semana de trabalho, opta por uma atividade de lazer ou descanso. Por qual motivo mais do que a metade da população da cidade, que trabalhou duro, que acordou cedo, chacoalhou no ônibus, no trem, no metrô, que deu graças a Deus por ter voltado com vida pra casa, não pode escolher se quer pegar uma praia no Leme, no Arpoador, no Leblon? Somos retrógrados a ponto de estarmos discutindo liberdade de ir e vir e igualdade perante à lei como se não fosse óbvio?

Recentemente tive a oportunidade de conhecer diversas cidades do México, entre elas a famosa Cancún, cuja zona Hoteleira você deve conhecer também. A cidade lembra muito o Rio de Janeiro: é uma cidade grande, com um trânsito horroroso e muita desigualdade. E a zona Hoteleira parece o projeto bem-sucedido do que você propôs para a zona Sul carioca: praias paradisíacas, hotéis luxuosos, prédios imponentes, ruas tranquilas, árvores bonitas. A população de lá não tem acesso às praias da zona Hoteleira, que são abertas apenas para os hóspedes. Existe uma espécie de muro que divide Cancún da zona Hoteleira de Cancún (que de maneira romântica os turistas chamam simplesmente de Cancún). De um lado, uma faixa de luxo; do outro, uma cidade inteira agonizante, porém invisível aos olhos de quem ali se deleita e ignora a fome e a miséria, como se elas sumissem com o ato de virar o rosto. E aquela cidade é apenas a pequena parte de um governo que não somente impõe a miséria ao seu povo como também silencia milhares de dezenas de vozes que buscam por soluções melhores. E eu, Hildegard, quando falo sobre essas vozes silenciadas cruelmente no México, prefiro imaginar que você, filha de Zuzu e irmã de Stuart, esteja repensando com carinho no que propôs no dia 12. Pois no México a ideia deu certo, e aqui pode dar também.

Eu não vou chamar você de fascista, de bruxa, não vou xingar você, como você disse ter acontecido no seu site. Pelo contrário. Humildemente, eu lhe faço um convite. É com a simplicidade de uma moradora da zona Norte que eu lhe convido: pegue um metrô da Linha 2, conheça um pouco do povo carioca. O povo de verdade, o povo da Pavuna, Irajá, Acari, que faz integração para Meriti. É o povo que faz a cidade andar, o povo que trabalha duro e pisa na areia do seu bairro, tão merecidamente quanto você pisaria, se gostasse de praia. Ainda no metrô, após passar pela Cidade Nova - que estará fechada, não se assuste, pois não funciona aos finais de semana -, desça na Estação São Cristovão e venha almoçar aqui na minha casa. Você não vai se arrepender do passeio. Venha conhecer um pouco melhor dessa cidade que é tão minha quanto sua.

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