Opinião

Brasileiro gosta mesmo é de pão, circo e Carnaval

E o carnaval, com sua arte, está aí para expurgar nossa frustração, nossa revolta, nosso cansaço. Para soltar aquele grito preso na garganta, para glorificar apoteoticamente toda a alegria adormecida, para ser catártico. Porque nós, brasileiros, assim como o mundo inteiro, queremos pão, queremos circo, precisamos deles para que a realidade não se torne insuportável.
Esta postagem foi publicada na plataforma, agora fechada, do Colaborador do HuffPost. Os colaboradores controlam seu próprio trabalho, que são postados livremente em nosso site. Se você precisa denunciar este artigo como abusivo, envie-nos um e-mail.
Peruvian dancers at the parade in Cusco.
Peruvian dancers at the parade in Cusco.

Apesar de uma das festas populares mais famosas do mundo acontecer e se consagrar por aqui, em terras tupiniquins, a origem do Carnaval data de muito tempo antes da fundação do Brasil.

Acredita-se que, ainda na Antiguidade, já houvesse comemorações carnavalescas. Sua etimologia até hoje é alvo de controvérsias, mas o que se sabe é que se tratava de uma festa relacionada a prazeres mundanos, na qual escravos eram soltos, escolas fechavam e provava-se de uma liberdade extrema, concedida apenas naquele período. Até mesmo desfiles alegóricos aconteciam, e o governo da pólis ficava momentaneamente sob a incumbência de um tal gordinho extrovertido.

Não existem estudos a respeito, mas eu pessoalmente acredito que, lá mesmo naquela época, à medida que o Carnaval se aproximava, surgiam grupos de pessoas que se punham contra a festa.

Possivelmente resmungavam que o Imperador estava mais preocupado com o Carnaval do que com as invasões bárbaras nas províncias, que alguma peste acometia os cidadãos e mesmo assim o povo estava dançando pelas ruas, que o império queria sediar as Olimpíadas mas não tinha preparo para um evento deste porte etc. etc. etc. Desconfio inclusive que algum jornal grego tenha analisado a estagnação econômica romana e afirmado que Roma comemorava à beira do precipício.

Isso, evidentemente, antes de a festa começar.

Como um bom exemplo da civilização ocidental, aqui no Brasil nunca foi diferente.

À medida que os blocos saem e que as ruas são tomadas por foliões, surgem os resmungos que passam a evocar e a priorizar todas as penúrias que até então haviam sido ignoradas pelos próprios resmungões - e continuarão sendo.

Porque, afinal, desde que o samba é samba é assim. E, para coroar a influência greco-romana, a expressão panis et circencis - pão e circo - é atribuída à personalidade do brasileiro. Brasileiro gosta mesmo é de pão e circo.

Neste ponto, eles estão certos. A gente quer mesmo é pão e circo. O pão, uma das iguarias mais antigas da História, é também o símbolo de alimento mais universal de que se tem notícia. Onde existe pão não existe fome.

Sua importância para o bem-estar social é tamanha que uma revolução insurgiu devido ao aumento do preço do pão, depondo seu último rei e invadindo e derrubando a prisão mais importante daquele país.

Essa revolução alterou a linha do tempo na história do mundo. Isso quer dizer que, sim, pão é referência; eu quero pão, você quer pão, brasileiro quer pão, todo mundo quer pão. Pão, esse maravilhoso elemento primordial tanto para a Revolução Francesa quanto para o Didi Mocó.

Igualmente como o pão e o Carnaval, o circo remonta às tradições milenares. Seus resquícios mais antigos encontram-se na China e no Egito, e as artes circenses variavam entre performances físicas e atrações para divertir e encantar. Em tempos de doenças, de dificuldades, de tristezas, lá estavam as artes para oportunizar o belo.

Como disse Gullar, parafraseando Nietzsche, a arte existe porque a vida não basta. Tão importante como alimentar o corpo é alimentar a alma, e desde a também tão citada Antiguidade falava-se sobre isso: por meio da experiência com as artes era possível realizar uma grande descarga de sentimentos e emoções, purificando, assim, quem diria, a alma. A essa purificação foi dado o nome de catarse.

É justamente em meio às mazelas que a necessidade de catarse se faz maior. E o carnaval, com sua arte, está aí para expurgar nossa frustração, nossa revolta, nosso cansaço. Para soltar aquele grito preso na garganta, para glorificar apoteoticamente toda a alegria adormecida, para ser catártico.

Porque nós, brasileiros, assim como o mundo inteiro, queremos pão, queremos circo, precisamos deles para que a realidade não se torne insuportável.

Por isso, que haja resmungos, que haja incômodo com a felicidade. Vai ter panis, vai ter circensis, e pode reclamar: vai ter carnavalis e futebolis.

Também no HuffPost Brasil:

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: