OPINIÃO
06/08/2014 15:23 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

A encantadora (e agonizante) alma das ruas

MARCOS DE PAULA/ESTADAO CONTEUDO

O Rio de Janeiro sempre foi minha atividade favorita. Notem que não se faz necessária a existência de um verbo para que a atividade se consuma: simplesmente o Rio de Janeiro o é, por si só. Das melhores e mais distantes lembranças, lá está a cidade, ora figurando, ora cumprindo seu papel de destaque: as calçadas cuidadosa e devidamente esburacadas para partidas de bolas de gude, as competições dominicais de pipas, o medo, quase terror promovido pelos bate-bolas nos carnavais. Mais tarde, a fascinação oferecida pelo centro da cidade, com sua arquitetura charmosa, as estátuas humanas, o cheiro de amendoim açucarado; os sebos e feiras de vinil.

Semelhante fascínio foi despertado no escritor João do Rio, que era igualmente apaixonado por flanar pela cidade. Nascido em 1881, já no começo do século 20 o imortal defendia em A alma encantadora das ruas: "as ruas têm alma!". Nesta obra, ele descreve o encantamento com os músicos ambulantes que nela vivem até os crimes de amor que nela ocorrem. Para ele, há em cada tijolo, em cada argamassa, um pouco do suor de quem o ergueu; cada paralelepípedo é capaz de se arrepiar com um samba popular; as ruas carregam consigo as lamentações, as histórias e as misérias humanas; as ruas são grandes cúmplices de nossos segredos, e os verdadeiros flâneurs, estes também são cúmplices delas. E é por isso que o Rio de Janeiro é uma atividade: andar pelas ruas significa partilhar com elas sensações e sentimentos plurais, que se constroem ali há anos, décadas, séculos, e ao mesmo tempo se renovam incessantemente.

A impressão que tenho, por vezes, na minha concepção romântica e até mesmo vadia, é de que existe uma tentativa de assassinar a alma das ruas. Somente na última semana, jornais anunciaram que 25% dos imóveis na Rua da Carioca já se encontram fechados. O motivo: uma alta de 120% no aluguel, imposta pelos novos proprietários, um banco chamado Opportunity (imagino que este banco pertença ao Dr. Pompeu Pompilho Pomposo que, após anos tentando comprar o Castelo Rá-Tim-Bum para implodi-lo e construir um grande prédio no local, agora conta com o consentimento da prefeitura para dar continuidade ao seu projeto). Dentre os imóveis, encontram-se estabelecimentos seculares como o Bar Luiz e a loja de instrumentos Guitarra de Prata, que atendia Pixinguinha, Noel Rosa, Paulinho da Viola e Ary Barroso. Também na última semana, foi anunciado o encerramento das atividades da Confeitaria Manon, na Rua Uruguaiana, uma casa de chá de 1942 que sucumbiu ao aumento do aluguel.

Tais notícias, junto às que temos assistido nos últimos anos, me deixam muito assustada. Afinal, o que será das encantadoras almas das ruas? Estão sendo demolidas suas histórias, arrancadas suas lembranças, com vidros espelhados colados por cima das memórias e estruturas metálicas vedando hermeticamente seus segredos. E se não for aos verdadeiros construtores dessa realidade, a quem caberá figurá-la? Não existirão botecos nem mercados para que falem alto ou gritem, sequer um beco no qual se acenda uma vela aos desvalidos? E então, o que será?

A encantadora alma das nossas ruas está agonizante. Mas ela é feita, também e sobretudo, de seres humanos, homens e mulheres que vão e vêm todos os dias e passam pelas ruas para, cada um à sua maneira, seja nos escritórios, na venda ambulante, na arte ou na prestação de serviços, fazer tudo acontecer, fazer a própria vida acontecer. E, para o povo do Rio de Janeiro, viver já está sendo um ato de resistência. A rua e o povo são a mesma coisa. Por isso, a rua pode agonizar mas, enquanto resistirmos, nunca vai morrer. Nem perder seu encantamento.

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