OPINIÃO
25/09/2014 19:32 -03 | Atualizado 26/01/2017 20:56 -02

Os motivos que a ONU levou em conta para excluir o Brasil do "Mapa da Fome"

Women balance water jugs on their heads in one of Guaribas' hamlet, in Brazil's northeastern state of Piaui, Wednesday, Aug. 23, 2006.  Although they don't have running water, now some of the hamlets have communal cisterns that are centrally located. (AP Photo/Victor R. Caivano)
ASSOCIATED PRESS
Women balance water jugs on their heads in one of Guaribas' hamlet, in Brazil's northeastern state of Piaui, Wednesday, Aug. 23, 2006. Although they don't have running water, now some of the hamlets have communal cisterns that are centrally located. (AP Photo/Victor R. Caivano)

Ainda tem muita gente no Brasil - em especial no meio político - que contesta e quer o fim do Bolsa Família, programa do governo federal que beneficia mais de 45 milhões de pessoas no país. Mas o fato concreto é que este programa que complementa renda e combate a fome mudou a cara do Brasil nos últimos anos.

Na semana passada, a FAO, braço da Organização das Nações Unidas (ONU) para alimentação e agricultura, informou que o Brasil deixou de fazer parte do Mapa Mundial da Fome. O número de brasileiros que ainda enfrentam algum problema alimentar representa 1,7% da população - antes eram oito vezes mais.

Na ponta do lápis, significa que 1,7% da população brasileira - hoje em 200 milhões de habitantes - representam em torno de 3,4 milhões de pessoas. Ainda há muita gente que enfrenta restrição alimentar. Mas não há dúvidas de que houve avanços significativos no combate à fome. A própria ONU admite que a tendência é de redução ainda maior deste índice nos próximos anos.

Ao mesmo tempo, outro relatório da ONU informou que, entre 2001 e 2012, a pobreza no Brasil foi reduzida de 24,3% da população para 8,4%. Em relação à extrema pobreza, a queda foi de 14% para 3,5%. Estes dados fizeram com que o país cumprisse, com antecipação, as metas dos Objetivos do Milênio da ONU.

A que se devem, portanto, estas mudanças tão significativas no perfil do cenário da fome e da pobreza no Brasil?

A resposta a esta pergunta não é do governo federal, responsável pela implantação no Brasil, a partir de 2003 (governo Lula), de uma efetiva agenda política de combate à fome e à pobreza no país. Quem deu esta resposta mais uma vez foi a ONU, a partir de relatórios divulgados nas últimas semanas.

"O Fome Zero fez da fome um problema fundamental incluído na agenda política do Brasil a partir de 2003", diz um dos relatórios da ONU sobre a fome. O Fome Zero é um programa que inclui ação de 19 ministérios, responsáveis por ações de proteção social, estímulo ao emprego, produção familiar agrícola e nutrição.

O Bolsa Família, contestado por uma corrente conservadora brasileira, está sob o guarda-chuva do Fome Zero. Todas estas ações causaram uma profunda mudança no perfil social do Brasil. Entre 2003 e 2011, 37 milhões de brasileiros saíram da pobreza para a classe média - que já soma 55% da população do país.

Acrescente-se a este número outro dado significativo. Também entre 2003 e 2012, outros 22 milhões de brasileiros deixaram a extrema pobreza do país. Foi isso que fez o Brasil sair do Mapa Mundial da Fome, da ONU - como foi dito acima, apenas 1,7% da população do país ainda são consideradas muito pobres.

Quando se olha para dados sobre a redução da fome e da pobreza no Brasil, aparece também outro indicador para explicar o salto social dado pelo país nos últimos anos. A renda dos brasileiros pobres cresceu 90% nos últimos dez anos. E isso se deve à política de criação de empregos e aumento do salário mínimo.

Voltando ao Bolsa Família e ao Fome Zero. O Brasil já é a sétima economia do mundo, com Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 4,84 trilhões (mais de US$ 2 trilhões). Dá para imaginar um país com este porte econômico sem ter uma política pública voltada para combater a fome e a miséria da sua população?

A resposta é absolutamente não. Mas é fato que, só nas últimas décadas, o Brasil passou a combater efetivamente a fome da população. E uma das iniciativas pioneiras neste campo foi do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, que morreu de Aids em 1997. Betinho criou, numa ação com a sociedade, o Natal Sem Fome.

Pelo menos no período do Natal a população com fome recebia uma cesta de alimentos. Betinho cravou uma frase, em sua campanha, que acabou estimulando futuras administrações do Brasil. "Quem tem fome, tem pressa". Isso significa que, quem está com fome, não pode esperar para matar a fome dela e da família.

Foi a partir de 2013, com o governo Lula, que seguiu os passos e adotou os bons ensinamentos do Betinho, de quem era amigo e aliado político, que se criou no Brasil uma agenda política de combate à fome. No governo Dilma, criou-se o Brasil Sem Miséria, que amplia ainda mais as ações no combate à fome.

Fim dos saques nas secas

Por último, só mais um registro. O Bolsa Família foi fundamental para o fim dos saques de famintos castigados pelas secas (foto), muito comum no Nordeste do passado. O Nordeste vive hoje seu quinto ano seguido de seca e não há um único registro de pessoas famintas invadindo e saqueando o comércio das cidades.

O Brasil mudou seu perfil social nos últimos anos. Já não existem os mesmos problemas com fome e miséria que existiam antes.

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