OPINIÃO
08/05/2014 12:53 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

Devemos defender os que são empurrados cada vez mais para a escuridão

Em breve estaremos nos casando na Grã-Bretanha, e nossos dois filhos maravilhosos verão seus pais fazerem um compromisso solene e recíproco. Quando estivermos lá e olharmos para eles, sei que passará por nossas cabeças que quando tínhamos sua idade teria sido impossível dois homens pensarem em casamento. De fato, os gays na época se davam por felizes por estar fora da cadeia. Durante nossas vidas o mundo mudou de maneiras extraordinárias, graças a milhões de homens e mulheres gays que tomaram a dura e corajosa decisão de se assumir, e outros milhões de pessoas hétero que reagiram com compaixão e amor.

Por isso, é perturbador perceber que, enquanto os gays saem piscando para a luz à nossa volta, em grande parte do mundo outros gays são empurrados cada vez mais para a escuridão. Estamos no meio de uma extraordinária repressão renovada contra os gays, de Uganda à Rússia e ao Iraque. Por isso, é ainda mais perturbador perceber que um dos lugares que mais amamos é propriedade de um homem que está na linha de frente dessa homofobia renovada e terrível.

O sultão de Brunei é o governante não eleito desse pequeno país no Extremo Oriente. Ele também possui o Beverley Hills Hotel, o Hotel Bel-Air e o grupo de hotéis Dorchester. Recentemente, soube-se que em Brunei ele está adotando uma forma especialmente radical da lei islâmica -- a xariá -- pela qual os gays serão mortos a pedradas.

Então, se nós vivêssemos em Brunei, no ano que vem não estaríamos nos casando diante de nossos filhos. Estaríamos sendo espancados até a morte, com objetos, por uma turma organizada e autorizada pelo governo.

Nós nos hospedamos durante anos no Beverley Hills Hotel, e sua equipe -- muitos dos quais são gays -- sempre nos tratou com grande gentileza e compaixão. Eles receberam a nós e a nossos filhos de braços bem abertos. Esses homens e mulheres serviram lealmente ao sultão durante anos e fizeram seu hotel funcionar de maneira excepcional. Não posso imaginar como eles se sentem hoje, ao descobrir que seu patrão está tornando sua sexualidade passível de punição com a morte.

Não usaremos mais qualquer de seus hotéis se ele continuar com essa decisão chocante. Pedimos que outras pessoas assinem a campanha "Dump the Beverley Hills Hotel" em solidariedade com os gays de Brunei, cujo terror só podemos imaginar.

Não fazemos isto levianamente -- temos consciência do efeito paradoxal que esse boicote terá para os funcionários leais que tão bem conhecemos. Não é irônico que a indústria de serviços hoteleiros tenha historicamente sido bem servida por legiões de trabalhadores LGBT há séculos? Com frequência eles se destacam na indústria de serviços, e o sultão deve saber que são um ativo maciço de suas operações. Ele deve ter visto em primeira mão o trabalho duro e a dedicação que os membros LGBT de sua equipe aplicaram em seus empregos ao longo dos anos. Como ele poderia discriminá-los e condená-los à morte em seu próprio país?

Em seus hotéis, empregados LGBT e héteros trabalharam lado a lado de maneira harmoniosa durante todo o tempo em que estivemos lá -- e muito antes disso. Seu trabalho duro e sua dedicação à excelência tornou seus hotéis de luxo o enorme sucesso que são hoje. Entristece-nos que esse boicote prejudique tantas pessoas maravilhosas.

No entanto, dada a opção entre defender os empregos de gays no Ocidente e a vida de gays em Brunei, que de outro modo serão violentamente assassinados, devemos escolher defender a vida.

Além disso, o debate que cerca esse assunto trágico nos levou a refletir sobre uma questão mais profunda. Nos últimos 30 anos o mundo tornou-se conectado de maneiras que pareciam tão inimagináveis quanto o casamento gay quando éramos crianças. Parece-nos que há dois novos tipos de conexão. O primeiro é financeiro e comercial. Dinheiro, produtos e migrantes circulam pelo mundo mais depressa que nunca -- você estará lendo isto em uma tela montada na China, com metais da África, vendida na Europa ou na América do Norte e assim por diante.

O segundo tipo de conexão é emocional. Os adolescentes têm amigos ao redor do mundo no Facebook e conversam com eles pelo Skype com a mesma facilidade que falam com um garoto do outro lado da rua. Podemos nos comunicar com pessoas em qualquer continente de maneiras que pareciam um sonho de ficção científica há apenas uma geração. Até agora, esses dois tipos de conexão seguiram trilhas separadas -- como se fossem navios passando durante a noite. Mas eles começam a convergir.

Pessoas como o sultão de Brunei, ou os proprietários da Chick-Fil-A, ou Vladimir Putin quando organizou as Olimpíadas de Sochi, acreditavam que poderiam se beneficiar da nova conectividade financeira do mundo, enquanto ignoravam a nova conectividade emocional. Em suma, eles pensaram que compraríamos seus produtos e ignoraríamos suas vítimas.

Mas não podemos fazer isso, e não o faremos. Não podemos nos deitar em uma suíte do Beverley Hills e ignorar o fato de que o hotel está manchado com o sangue de gays. Não podemos beber vodca russa e esquecer as lágrimas dos gays russos. E outros milhões de pessoas estão começando a procurar as conexões entre as empresas das quais elas compram e os hábitos dessas corporações em todo o mundo.

Esse processo só vai se acelerar daqui para a frente. Em uma era de Skype e Twitter, nenhum lugar é estrangeiro e nenhum lugar é distante -- os gritos viajam muito rápido. Se você é o proprietário de uma empresa e acredita que pode perseguir os gays -- ou qualquer outro grupo minoritário -- e espera que as pessoas comprem de você cegamente, então deveria pensar melhor. Existe uma série de organizações maravilhosas que estão monitorando esses abusos e dando às pessoas uma maneira de revidar: recomendamos em particular a AllOut.org.

Só podemos nos casar porque milhões de pessoas se ergueram para nos defender e proteger. Os gays de Brunei -- e da Rússia, de Uganda e muitos outros países -- precisam que nós nos levantemos de novo hoje. Trata-se dos hotéis de propriedade do sultão de Brunei, mas também de muito mais. Trata-se de como o planeta está sendo moral e emocionalmente conectado de maneiras que podem mudar o mundo.

Você atira uma pedra contra um gay em Brunei e ela pousa em Beverley Hills. Se respondermos atirando de volta nosso coração -- e nossa esperança e nosso amor --, quem sabe onde ele pousará e o que conquistará?