OPINIÃO
25/02/2015 18:26 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Cinco anos após terremoto, Haiti tenta se reerguer

Após passar uma semana no Haiti, conheci um país que tenta se estabelecer cinco anos após um terremoto que matou mais de 200 mil pessoas e destruiu boa parte de uma infraestrutura que já era frágil para as necessidades dos haitianos de então.

eleuterio guevane

Após passar uma semana no Haiti para realizar uma reportagem especial para a Rádio ONU, conheci um país que tenta se estabelecer cinco nos após um terremoto que matou mais de 200 mil pessoas e destruiu boa parte de uma infraestrutura que já era frágil para as necessidades dos haitianos de então.

A viagem ao Haiti deu-se com o apoio da Minustah, a Missão de Estabilização das Nações Unidas no país, que é liderada por um general brasileiro, José Luiz Jaborandy Júnior, e tem a chefia civil da representante de Ban Ki-moon, Sandra Honoré.

Orfanato

Um dos meus primeiros contatos foi com crianças de um orfanato na capital Porto Príncipe.

"Quero ser um craque de futebol", foram as palavras de Paco. Estávamos na fila de meninos para a fatia de pão e a concha de feijão do dia, na instituição, quando ele me contou sua história. Com apenas seis anos, perdeu os dois pais no terremoto de janeiro de 2010. O orfanato é administrado com a ajuda de dezenas de boinas azuis da ONU, muitos brasileiros. Eles apoiam os mais de 90 meninos a cuidar da higiene. Outros tentam fazê-los cantar ou sorrir com a ajuda de vídeos e outros recursos audiovisuais. Mas muitas crianças são caladas, algumas sequer podem andar devido às marcas da debilidade física. "Quando sair daqui quero cuidar dos meus irmãos", disse Beasley, de 18 anos, que perdeu a perna esquerda no tremor.

Missionária

"Lá em cima está um grupo sendo observado pelo médico, você quer ir?", pergunta Leciane, uma capacete azul. Subimos e o médico, também soldado de paz, observa um menino enquanto é apoiado por uma missionária brasileira. Afinal, como a grande maioria temos mais uma cabeça rapada e um sem-número de manchas brancas devido à infeção de pele. Muitos pequenos dali usam a mesma lâmina para rapar o cabelo.

A paixão de Paco pelo futebol vem à memória porque o esporte também é usado, fora do orfanato, para plantar a semente da segurança. Com a Minustah, visitei a comunidade pobre de Solino, a segunda mais violenta de Porto Príncipe. Só a capital, concentra 40% de todos os delitos do país, segundo dados oficiais.

Criminalidade

Os jogos para crianças e adolescentes tentam promover a inclusão social e prevenir a criminalidade. Até crianças de comunidades controladas por gangues, consideradas rivais, podem jogar no mesmo campo. A necessidade de segurança ficou mais clara após ter-me confrontado com duas situações nas ruas: nos primeiros dois dias, dois cadáveres aparentemende vítimas da violência. As forças da ONU estavam ao redor para ajudar na perícia.

Outras ações das Nações Unidas no país incluem a formação de policiais numa escola e numa academia, apoiados pela Minustah. A Polícia das Nações Unidas, Unpol, vê uma "progressão exponencial nos últimos dois anos" nas ações das forças locais. Mais de 1,1 mil agentes haitianos foram formados para assumir atividades como lidar com narcotráfico, assaltos e assassinatos nos bairros.

Eleições

E 2015 parece ser um ano decisivo para a política haitiana com a realização das eleições gerais. A ONU quer promover uma maior autonomia do país para um período a ser marcado pela chegada de novos senadores, deputados e do presidente.

Sobre os feitos das tropas de paz, o coronel Luiz Carlos Brion, que lidera o batalhão de Engenharia das Forças Brasileiras no Haiti, enumerou ações de reconstrução e desenvolvimento social em nível comunitário.

Entre elas está o asfaltamento de ruas, com "mais de 47 km principalmente em Porto Príncipe". As atividades incluem terraplanagem, escavação de poços, recuperação e construção de obras.

Uma das conquistas no setor de assistência humanitária depois do sismo foi a redução de desalojados de 1,5 milhão de haitianos para menos de 80 mil, nos níveis atuais.

O crescimento do Haiti está sendo apoiado por entidades internacionais. Um dos exemplos é o Banco Mundial que revelou que o país pode continuar no futuro com o financiamento de projetos, aconselhamento em políticas econômicas e ajuda para reduzir a pobreza.

Influência africana

No Haiti, conversei também com cidadãos da África, o continente de onde vieram os primeiros trabalhadores forçados para a formação do Haiti em 1502. Eles deixaram antigas áreas hoje conhecidas como Congo, Benim, Nigéria, Senegal, Guiné Conacri, Serra Leoa, Gana, África do Sul e Madagáscar.

Africanos e haitianos entrevistados reconheceram o vínculo histórico, mas alguns queixaram-se da distância e da necessidade de uma cooperação reforçada. Por causa da rebelião haitiana pela independência da França, 1804, o Haiti foi o primeiro país do continente a se tornar livre e a primeira nação negra independente do mundo.

Turismo

Um dos selos da ligação Haiti-África é o nome do Aeroporto de Porto Príncipe: Toussaint L'Ouverture. Foi o líder da rebelião contra ingleses, espanhóis e franceses que levou à independência haitiana. Ao avançar para o local assim designado em homenagem herói nascido escravo no Benim, vislumbra-se a estrutura nova e imponente.

O ponto de contato com o mundo está em obras, uma marca do país das novas estradas e hotéis. É o cartão de visitas para a nova aposta em atrair turistas para o destino que viu o número de visitantes a crescer cerca de um terço em 2013.

Um novo caminho que o Haiti está a traçar para consolidar sua ponte com a comunidade internacional num claro sinal de que a ilha caribenha está de cara nova e com determinação de continuar construindo sua própria história com as portas abertas para o mundo.