OPINIÃO
20/05/2015 18:55 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

O custo dos meus anos de anorexia na adolescência

A realidade é que a perda aguda de peso gerada pela anorexia nervosa não faz o corpo perder apenas "peso". Ela obriga o corpo a abrir mão de seu plano de construção de nervos, ossos, músculos, ligamentos e órgãos saudáveis. Iniciei o esforço de recuperação da anorexia em 2009, mas as consequências de anos passados me maltratando ainda estão presentes.

Christy Mckenna/Flickr

Com 13 anos de idade, menti a meus pais para poder ir a uma festa. O menino por quem eu estava apaixonada me tinha chamado para ir, e eu me senti adulta e sofisticada por ter sido convidada. Mas a festa foi ficando descontrolada e mais e mais adolescentes estavam bebendo demais. Minha noite feliz virou uma noite de terror. Acabei me separando de minhas amigas e sendo violentada.

Eu era perfeccionista; era uma garota inteligente, com todas as respostas na ponta da língua. Mas depois disso, passei a sentir vergonha e me achar estúpida. Sem suportar a ideia de meus colegas de classe ficarem falando de mim pelas costas, escondi o estupro de todo o mundo. Acabei me convencendo que aquilo não tinha importância.

Mas perfeccionismo, vergonha e segredos formam uma combinação nociva. Eu estava tão nervosa que não conseguia comer. Então, quando meus colegas começaram a me elogiar por minha magreza, passei a ver a perda de peso como uma escolha própria, algo que me empoderava. Antes do fim do ano eu já estava com uma anorexia nervosa tão grave que quase acabou com minha vida por duas vezes.

Na época, eu não estava pensando no futuro. Só estava tentando sobreviver. Mas hoje eu queria poder visitar meu eu adolescente e explicar àquela garota o que aquele "estilo de vida" de perda de peso lhe custaria. Veja as coisas com que convivo diariamente devido à anorexia:

-Olfato e paladar fortemente reduzidos. O ácido estomacal de anos passados provocando vômitos me custou minhas pupilas gustativas e quase todo o senso de olfato. Sabe o gosto da comida quando você está com um resfriado forte? É esse o sabor que a comida tem para mim o tempo todo, agora. Chocolate é gorduroso, nada mais. Bananas são uma massa esponjosa e sem sabor. Iogurte parece uma meleca fria; sorvete, uma meleca gelada. Cozinho com muito alho e limão, só para conseguir sentir o gosto de alguma coisa.

-Os ossos de uma idosa. Tomo suplementos de cálcio todos os dias para combater a osteoporose grave. Apesar disso, meus ossos são frágeis e ainda quebram facilmente. Já fraturei o osso malar (da bochecha), o quadril e o pulso. Quebrei costelas, um dedo da mão e dedos do pé. Esse é um problema sério para ter no final da vida, mas é muito pior quando aparece quando você tem apenas 20 e poucos anos.

-A ameaça de infertilidade. Meu marido e eu sonhamos em ter filhos, mas não sabemos se o sonho vai poder se realizar. O fato de ter passado fome na adolescência impediu meus quadris de chegar à largura adulta e prejudicou meu sistema reprodutivo. Já sofri três abortos espontâneos, e os obstetras me disseram que, se quiser ter uma gestação bem-sucedida, vou ter que passar a maior parte dela de repouso. Um médico me disse que vou correr risco de vida se tentar levar uma gravidez a termo.

-Sistema imunológico fortemente prejudicado. Antigamente eu passava três semanas por mês com resfriado, febre, gripe ou problemas digestivos. Minha saúde melhorou; agora passo apenas duas semanas por mês lutando contra as doenças. Se, quando era adolescente, eu tivesse tido ideia de como isso poderia prejudicar minhas chances de seguir carreira de enfermeira, como eu queria, talvez tivesse procurado ajuda mais cedo.

-Memória enfraquecida e dificuldades para dormir. A nutrição deficiente cobra um preço do sistema nervoso. Eu tenho dificuldade em adormecer e sofro pesadelos frequentes. Tomo ansiolíticos diários para ajudar minha função neurotransmissora a funcionar corretamente.

-Dor constante. A desnutrição decorrente da anorexia nervosa provocou uma escoliose tão grave que um técnico de raio-X descreveu minha espinha como uma escada em espiral. Minhas articulações são frágeis e se deslocam com tanta facilidade que nunca mais vou poder nadar; na realidade, já aprendi a recolocar meu próprio ombro esquerdo na cavidade correta. Deficiências vitamínicas provocaram rachaduras nas minhas cartilagens, resultando em dores do peito, por costocondrite crônica, que variam entre dor surda e uma dor digna de um ataque cardíaco. O dano causado à minha válvula cárdia provoca azia frequente, e, embora eu tenha passado anos de recuperação ingerindo vitaminas e suplementos adicionais, meus vasos sanguíneos ainda se rompem tão facilmente que o próprio sutiã às vezes provoca manchas roxas.

A realidade é que a perda aguda de peso gerada pela anorexia nervosa não faz o corpo perder apenas "peso". Ela obriga o corpo a abrir mão de seu plano de construção de nervos, ossos, músculos, ligamentos e órgãos saudáveis. Iniciei o esforço de recuperação da anorexia em 2009, mas as consequências de anos passados me maltratando ainda estão presentes.

Já me conformei com o fato de que talvez nunca me recupere o suficiente para voltar a me sentir bem. Em vez disso, aguardo ansiosa os momentos em que o nível de dor que sinto a toda hora seja de apenas três ou quatro, numa escala de zero a dez. Mesmo assim, eu sou uma das sortudas. Vinte e quatro de minhas amigas anoréxicas perderam a batalha. Elas já morreram.

Conselho ao meu eu adolescente: não conviva com a dor e a vergonha. Converse com alguém sobre isso.

Reconheça que você tem um problema. Procure ajuda.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost UK e traduzido do inglês.