OPINIÃO
05/08/2014 11:25 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Dafoe e Baryshnikov, as duas caras de um homem obcecado em <em>The Old Woman</em>

Divulgação

A passagem dos atores Willem Dafoe e Mikhail Baryshnikov por São Paulo foi um acontecimento. Primeiro, soube-se que o figurino que ambos usam na peça The Old Womanencolheu na lavanderia. Ao longo de duas semanas foram cortejados por celebridades de todos os calibres, apareceram na plateia do show do Gilberto Gil, almoçaram no AK Vila, fizeram uma apresentação extra em prol de uma associação israelita e Dafoe foi instado a falar sobre a situação no Oriente Médio - pequena saia justa que ele tirou de letra.

Quando penso em Dafoe não me ocorrem suas atuações em "O Grande Hotel Budapeste" ou "Ninfomaníaca". Penso antes em "A Última tentação de Cristo" e "Platoon", long time ago. De Baryshnikov lembro-me ainda em trajes de bailarino do "New York City Ballet", acho que andou excursionando pelo Brasil na década de 80, não?

São dois caras importantes, toda a deferência é natural e justificável, idem os ingressos rapidamente esgotados, não acho que seja coisa de público "colonizado", como sugeriu um colega no Estadão.

No sábado fui ao Sesc Pinheiros assistir ao espetáculo dirigido por Robert Wilson, o celebrado diretor americano que no ano passado havia encenado por aqui "A Dama do Mar", adaptação de Susan Sontag para texto de Ibsen, de que gostei bastante.

O texto de The Old Woman é de 1939, escrito pelo russo Daniil Kharms, uma alegoria nonsense, surreal, absurda. Nas mãos de Wilson se transforma em matéria-prima para um extenuante e rigoroso exercício de encenação, tudo milimetricamente calculado, luz, som e ações.

Os dois clowns, com suas faces brancas, representam o transtorno bipolar de um homem atormentado pelo fantasma de uma velha mulher que deambula desmemoriada, despenca da sacada, pergunta as horas sistematicamente, diz coisas sem sentido e instaura o horror e o desconforto. Laivos de Dostoyevsky.

As luzes duras projetam as silhuetas ao fundo, há muitas cadeiras expressionistas com seus espaldares de ângulos pontudos em desalinho. É bonito, Wilson é um esteta. O texto, enxuto, é repetido, reiterado - tudo é repetição. Baryshnikov às vezes fala em russo, Dafoe com voz de Tom Waits, o gestual de ambos é sincronizado. Não há emoção, apenas a obsessão pelo virtuosismo técnico, são marionetes nas mãos de um hábil encenador. A cena final é um abrupto relaxamento das ações e um sorriso dos atores revelando o fim da execução hiperconsciente e planejada. A empatia, que esteve ausente até mesmo quando as duas faces deste homem sentaram para tomar vodca, finalmente se instala.

Wilson é um control freak. Parece querer ostentar seu domínio absoluto de tudo. Não há espaço para um respiro fora de lugar. Este teatro faz fronteira com a linguagem ininterrupta e editada do vídeo. A luz é televisiva. Mas há um incômodo nos raros momentos de dissincronia, aqueles em que as imperceptíveis migalhas do tempo real emergem e você então se pega olhando para o relógio.

Interessante experiência. Chegando em casa, resolvi escrever ao Gerald Thomas. Sei que ele tem Wilson em alta conta e, em comum, uma longeva parceria com o compositor Philip Glass. "Quais são os melhores momentos dele", perguntei. Gerald: "Obviamente é Einstein on The Beach. Também The Forest (Gilgamesh), Dr. Faustus Lights the Lights, "Parsifal" e Knee Plays, entre outras. Um dia, na casa do Philip Glass, ele fez o Hamlet todo em cinco minutos e era de se cair no chão de rir. Ele é um dos verdadeiros gênios da encenação. (Tadeusz) Kantor, Pina (Bausch) e Bob (Wilson)".

A verdade é que Wilson, um dos grandes diretores do nosso tempo, não precisa provar mais nada a ninguém. É um privilégio poder vê-lo.

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