OPINIÃO
17/09/2018 01:03 -03 | Atualizado 17/09/2018 01:34 -03

O alvo somos nós

A política virou alvo de abomináveis facadas e atentados a bala, o que leva uma democracia à beira de sua escuridão.

MAURO PIMENTEL via Getty Images
Bandeira do Brasil manchada de

Os eventos recentes jogam luz em um cenário preocupante: a política brasileira virou alvo.

Virou alvo de abomináveis facadas e atentados a bala, o que leva uma democracia à beira de sua escuridão.

Mas isso é apenas parte do problema. Virou alvo também do descrédito, da desesperança, do voto estimulado pela raiva — ou, até pior, do não voto. Nada pode ser mais corrosivo para um sistema democrático.

Se a política vira alvo, nós viramos vítima.

Neste primeiro ano à frente do RenovaBR, tive o privilégio de olhar para a outra face da política — a face da renovação e da esperança.

Conheci a jovem que saiu da periferia de São Paulo para estudar astrofísica em Harvard e agora é candidata a deputada federal. O rapaz que impactou a vida de mais de 40 mil pessoas com programas educacionais de excelência e decidiu concorrer ao Legislativo. Dezenas de pessoas comuns que fazem pequenos milagres Brasil afora e agora sonham em transformar o País por meio da política.

Exemplos como esses — e tantos outros que darão cores vibrantes a estas eleições — são prova de que não podemos transformar essa atividade em alvo. Dizer que política é lugar de corrupto ou palco para demonstrações de ódio é o mesmo que dizer a essas pessoas comprometidas e realizadoras: volte para casa, a política não é o seu lugar.

Falar que "político não presta" é uma maneira bastante eficaz de transformar essa frase em verdade, afastando potenciais bons políticos.

Pude ver de perto, ainda, como essa criminalização da política atrapalha de maneiras sutis a sua renovação. Uma das maiores dificuldades que as novas lideranças encontram, por exemplo, é a falta de financiamento para suas candidaturas.

Se o dinheiro sujo da velha política parece nunca faltar, as campanhas limpas — pagas por pessoas comuns que acreditam no País — sofrem com a escassez de recursos. E por quê? Porque muitos possíveis doadores têm medo de se associar à política. Não querem colocar os pés nesse lugar tão mal falado. E, assim, eles deixam de tomar a atitude profundamente cívica e democrática que é apoiar ideias por meio da força da sociedade civil. Novamente: a cada vez que atacamos a política, deixamos o caminho mais livre para os maus políticos.

Os maus políticos já têm armas suficientes para se agarrar ao poder. Lembro agora que, tão logo o RenovaBR surgiu, um deputado pediu a instauração de uma CPI para investigar a iniciativa. Uma vez que a ONG sequer existia na prática, só posso imaginar que o que assustou o parlamentar tenha sido o nosso nome, mesmo.

A renovação não se deixou intimidar, e fomos em frente. Mas definitivamente não devemos dar ainda mais força ao atraso, turvando o cenário com descrença e polarização. A boa política pede águas claras, transparência.

Todos esses ataques e atitudes antidemocráticas me dão a certeza de que nunca foi tão importante acreditar no voto, na democracia e na política. A mudança que queremos tem tudo para acontecer, mas depende desta matéria-prima: a coragem de acreditar.

Apesar da seriedade da situação do País, tempestades tendem a ser o prenúncio de dias ensolarados. Estas eleições podem ficar marcadas como um ponto de virada para a tão ansiada renovação parlamentar, graças às centenas de candidatos sérios e preparados que têm boas chances de ocupar cadeiras na próxima legislatura.

Creio que os ares do Congresso sejam bem mais respiráveis em 2019.

Portanto, da próxima vez que você sentir aquela vontade de atacar a má política, faça da forma mais eficiente: acredite, vote, doe e dê força à boa política.

Abrace a política.

Porque, sempre que ela se torna alvo, quem sangra somos nós.

*O HuffPost Brasil dedica as semanas que antecedem as eleições para se debruçar sobre temas fundamentais para o próximo governante e Parlamento eleitos. Convidamos players relevantes da sociedade civil e especialistas para pensar juntos os desafios do Brasil.