OPINIÃO
09/05/2014 09:40 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

Apesar da realidade, é possível

Para invertermos a narrativa social de exclusão, de preconceito, da falta de autoestima, devemos provar por meio do investimentos público, da comunicação de massa, da estética inovadora, da liderança pelo exemplo, que as pessoas podem.

Reprodução/Virada Empreendedora

Onde eu nasci? Numa favela. Onde eu morava? Numa barraco, cujo piso era batido de terra. Onde eu dormia? Até os primeiros nove meses de vida, numa banheira azul. Quem era o meu pai? Um assaltante de banco.

Na infância, eu via armas dentro de casa. E também via meu pai maluco pelo uso de droga. Já ouvi barulho de helicóptero sobrevoando a favela onde eu morava, à procura do meu pai, que fugia pilotando uma moto, entre as vielas e becos.

Eu também já vi a minha mãe ser revistada nua pelas polícias, que procuravam drogas, em suas partes intimas, quando ela ia visitá-lo na prisão.

Já vi meu pai sair em jornais, sobretudo na página policial, dando depoimento dentro da cela à jornalista, dizendo, que queria mais uma chance para largar o crime e criar o seu filho.

Já vi muitas vezes a professora perguntar no primeiro dia de aula qual era a profissão do meu pai e eu sentir vergonha e dizer, com o rosto caído, que meu pai era caminhoneiro, ao invés de bandido.

Já vi a descrença da sociedade. Vi a falta de sonho, o medo, a culpa, a incerteza, o ódio. Vi a sociedade me julgar e imaginar que eu não poderia ser nada.

Enfim, eu vi o outro lado do sonho. Minha história era previsível. Ou seria bandido ou traficante ou morreria antes dos 25 anos. No entanto, por mais miserável que seja, todo ser humano nasce com o direito de fazer as suas próprias escolhas.

Embora quase todos os meus direitos sociais me tenham sido negados, me sobrou um bem, uma riqueza, uma válvula de inspiração: a minha mãe, Maria Gorete de Brito Lira.

Esta diarista, que não concluiu os estudos, é Ph.D em despertar pro sonho. Ela colocou na minha cabeça que eu podia, e, com o seu comportamento matador, me provou que não importava de onde eu vinha, mas, sim, pra onde eu podia ir.

E saber que eu vinha do nada, mas podia ir pro tudo, me ressignificou, me fez pensar e agir maior. O resultado é que voei ao sonho e me tornei jornalista, escritor, empreendedor social e fundei o Instituto Gerando Falcões, onde já inspiramos mais de 200 mil jovens de periferia, em dois anos.

Por contato disso, fui selecionado pelo Fórum Econômico Mundial como 1 dos 15 jovens brasileiros, que podem mudar o país e sai na lista da revista Forbes Brasil entre os 30 mais influentes do Brasil, como menos de 30 anos.

E pra completar o pacote, meu pai, há 17 anos, está livre da prisão, do crime e das drogas. Nós alteramos a narrativa da nossa própria vida e resgatamos a nossa dignidade.

Aqui mora a grande verdade: o Brasil precisa acreditar na virada social da sua gente. Tem que botar fé na ideia de que pau que nasce torto não esteja sentenciado a morrer torto. Tem que acreditar e, sobretudo, criar um lugar para o ex-presidiário na sociedade e dividir o bolo econômico, com quem um dia tentou roubar o bolo.

O Brasil precisa incorporar a visão social da Maria Gorete e dizer aos moradores das periferias, das favelas, das prisões: "Não importa de onde você vem, mas, sim, pra onde vai". É um movimento de esfacelamento do preconceito e espaço para esperança.

A minha mãe acreditou em mim e, isso me fez voar a um novo patamar de vida. Agora, imagine se o Brasil tivesse acreditado em mim, que eu podia e, me colocado pra estudar numa escola de qualidade, com atrações teatrais, com música, com cultura, com professores motivados e atividades físicas?

Fiz uma palestra numa escola no Itaim Paulista, zona leste de São Paulo e, ao final, uma aluna me disse chorando que sua mãe dizia que ela não tinha o direito de sonhar, pois era feia, gorda, pobre e favelada, mas que a minha história provava que ela podia, sim.

Alguns jovens têm uma Maria Gorete que faz sonhar. E aqueles jovens que não têm uma mãe Ph.D em fazer acreditar? É aí que entra o país.

Para invertermos a narrativa social de exclusão, de preconceito, da falta de autoestima, devemos provar por meio do investimentos público, da comunicação de massa, da estética inovadora, da liderança pelo exemplo, que as pessoas podem. Afinal, tudo é possível e todo mundo pode.