OPINIÃO
03/11/2014 12:28 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:11 -02

Os Brasis de Schrödinger

Apenas uma observação lúcida e racional dos próximos desenvolvimentos determinará em qual Brasil vivemos agora. Até lá teremos que viver em dois Brasis.

"Schrödinger [Erwin, físico austríaco, Nobel de física em 1933] imaginou que, se um gato estivesse preso numa caixa com um gás venenoso cuja emissão é controlada por átomos radioativos, um observador externo não saberia se o gato está morto ou vivo: só abrindo a caixa, observando o gato, teria uma resposta. Ou seja, no mundo quântico, o estado do gato seria uma combinação dos dois, morto e vivo ao mesmo tempo - um estado de coerência quântica." - Marcelo Gleiser, físico e professor.

Existem hoje dois Brasis.

Um, em que a democracia segue relativamente intacta, ainda que do jeito tropical. O governo percebeu que a parcela da população que não o apoia é expressiva e possivelmente assustou-se com a situação em que viu o seu poder pendurado por um fio de cabelo. As pessoas e os organismos próximos ao poder, e dele dependentes, viram-se forçados a cogitar a perda de influência e a considerar um futuro com novas regras. Entre eles, alguns questionaram a própria existência e razão de ser, em uma espécie de treino para a potencial rodada de negociação que ocorreria com os novos da casa. Neste Brasil, o Governo também teria percebido que sem confiança com relação à condução da política econômica e com excesso de intervencionismo, o Capital se ressente e não investe. Teria compreendido, se não ao menos sido convencido, de que a manutenção das conquistas sociais depende de uma gestão mais responsável das finanças públicas. Por tais motivos, o Governo deste primeiro Brasil terá de fazer ajustes e concessões, e haverá uma fase de negociações e trocas entre Governo e iniciativa privada; além de outras partes outrora marginalizadas dentro e fora do país. O Governo concederá demandas e aos poucos haverá uma correção de rumo, embora lenta e arrastada pelo tamanho do Estado.

O outro Brasil é muito mais obscuro e incerto. Produto da combinação de evidências com paralelos históricos, traçados por um segmento crítico da sociedade, este segundo Brasil chegou a ponto de ebulição nos últimos meses em redes sociais e parcelas da mídia, inclusive com participação de respeitados observadores. Neste segundo país, ocorre uma contínua deterioração das instituições democráticas e o poder de ação flui, sem grandes obstáculos, das mãos dos homens para as mãos Estado. Fácil de ser taxado por alguns de conspiratório, dado ter nascido em berço de paixão, esse território encontra razão para existir em argumentos como o da relativização de crimes à sociedade, que no primeiro Brasil seriam levados a sério. Também firma a sua imagem na proximidade, não mais apenas ideológica, mas efetivada, deste Brasil com regimes menos democráticos e possivelmente criminosos. Neste segundo e tenebroso Brasil, uma entidade monstruosa que se alimenta às sombras teria sido importunada por uma falha de cálculo, mas respira aliviada ao sentar-se novamente para o banquete. E aguarda os convidados que finalmente foram libertados e podem vir à mesa.

Apenas uma observação lúcida e racional dos próximos desenvolvimentos determinará em qual Brasil vivemos agora. Até lá teremos que viver em dois Brasis.

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