OPINIÃO
19/11/2014 17:42 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Gelp

Uma das grandes evoluções do capitalismo na infoera é a oportunidade que o consumidor tem de dar uma nota a sua experiência, escrever um review.

"O melhor argumento contra a democracia é uma conversa de cinco minutos com o cidadão comum" - Winston Churchill

Uma das grandes evoluções do capitalismo na infoera é a oportunidade que o consumidor tem de dar uma nota a sua experiência, escrever um review. Alguém ainda publicará um estudo rigoroso de como isso vem acelerando os ciclos de sucessos e insucessos dos negócios por ai afora. Há menos espaço nos dias de hoje para estabelecimentos maltratarem clientes ou cobrarem preços abusivos - consumidores se unem virtualmente contra o mal prestador e coletivamente reduzem seus negócios futuros. Existem, no entanto, duas exceções. Uma, a dos negócios que se orientam a públicos masoquistas, como por exemplo uma certa loja de cupcakes de NY ou alguns bares (caros, cheios, com música ruim) de São Paulo. Outra, a dos monopólios em geral. É sobre um tipo específico de monopólio que trata este texto.

O Monopólio

Em uma das definições mais amplas, um monopólio se caracteriza pelo controle do suprimento de um produto ou serviço. Só é possível existir tal controle em ambientes sem competição, posto que a escassez de alternativas permite agir com apatia perante a crítica do público. Pode assim o monopólio aproveitar de sua onipresença de nicho para cobrar o que bem entender e com a qualidade que lhe convier, a despeito da opinião ou gosto do consumidor.

Pode-se dizer então, segundo a definição ampla, que 'Governos detém o monopólio do serviço público'.

A concorrência, para poucos...

Existem, é verdade, serviços públicos que sofrem concorrência privada. É o caso de escola particulares, hospitais e segurança privados. A substituição do público pelo privado tende a ser tanto maior quanto for a rejeição doserviço oferecido pelo monopólio do governo. Neste caso é importante lembrar o que é óbvio: apenas uma parcela pequena da população tem condições para acessar tais serviços, ao passo que a maioria está sujeita aos oferecidos pelo monopólio público. Já no que se refere aos três poderes, não há concorrência: todos são usuários sem opção.

É de certa forma intrigante que o setor privado tenha passado pela revolução dos reviews enquanto governos ainda sejam submetidos apenas aos mesmos mecanismos de feedback que existiam na Grécia antiga: eleições, manifestações, conversas de taverna - digo, botequim - e a mídia (que até por isso é referida as vezes como 'o quarto poder'). Cabe observar que tomei a liberdade de ocultar as pesquisas de aprovação, por considerá-las metade mídia e metade Governo.

A polêmica questão das privatizações, por exemplo, ganha outra dimensão quando vista sob o ponto-de-vista do consumidor, a despeito da discussão sobre os processos de privatização em si e da (árdua e polêmica) discussão do que privatizar e do que não.

Nesse sentido é importante corrigir de cara um dos erros que habitualmente surge nessas discussões: a dos supostos 'serviços gratuitos'. Todos os serviços são pagos pela população, seja diretamente ou indiretamente, via impostos. Só que no monopólio o consumidor não pode ir à concorrência e nem participar do processo de melhoria, substituição ou até extinção do serviço. Pior do que isso, tende a pagar mais por um serviço ruim, pois suas ineficiências irão a demandar mais capital, e portanto mais impostos.

O 'quarto poder' do século XXI?

É de se perguntar, então, por que é que até hoje não se criou um serviço onde o individuo expressa o seu gosto ou desgosto pelos vários serviços públicos. Por que não há apps para o cidadão dar nota ao ônibus que pega, à segurança no seu bairro, à qualidade da escola pública que os filhos frequentam, e por ai vai? Por que não se criou ainda um serviço à la Yelp, de avaliação de serviços públicos?

Vamos dizer que existisse e fosse chamado de Gelp, e que a população pudesse expressar a escala da sua satisfação quanto a qualidade (e o preço) dos serviços públicos que utiliza.

O Gelp ajudaria o Governo na desburocratização e na despolitização do seu processo de alocação de recursos públicos, levando em conta a opinião daqueles a quem serve. Seria informado, pela apreciação contínua do usuário, se a linha de ônibus X sofre com carros mais velhos ou motoristas piores do que a Y; ou se o departamento de radiologia de um hospital gera mais reclamações do que o de fisioterapia. Poderia ser alertado coletivamente que uma região perigosa da cidade está com policiamento deficiente. Por fim, criaria a impressão de que o prestador do serviço público, apesar de ser um monopólio, escuta o cliente-cidadão, e investe o seu dinheiro de forma eficiente, segundo o feedback conjunto dos próprios usuários.

Quem sabe o 'quarto poder' nos dias de hoje não seria mais a mídia, mas justamente o poder do próprio usuário, expresso pelo aglomerado dos seus reviews.

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