OPINIÃO
12/01/2015 21:22 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Cuba, revisited

Muitos aguardam o fim do embargo ou a partida para outro mundo do comandante e líder máximo revolucionário, mas verdade é que em oito anos muita coisa já mudou. Apesar de limitado pelas minhas lentes e meu tempo na ilha, conversando com os cubanos e lendo jornais (oficiais) identifiquei três importantes mudanças que ocorreram nos últimos cinco anos - todas elas relativamente recentes - e seus notáveis efeitos.

Cuba revisited.

Volto a Cuba depois de oito anos para fugir do inverno nova-iorquino e passar o ano novo. Desta vez me perguntaram quem são os meus informantes e se sou espião para os Estados Unidos.

Minha primeira visita casou com a noticia do adoecimento de Fidel - seguida logo do seu afastamento e entrada do irmão, Raul, que aos poucos começou a implementar reformas esperadas há anos pelos Cubanos. A atual ocorreu dias após a libertação dos cinco, seguida do anuncio pelo Obama de que o embargo teria dias contados. Mas não, foi sorte.

Informo que La Habana continua linda, elegante e deliciosamente anacrônica, suas construções coloniais desmoronando, carros dos anos 50 roncando e soprando a pesada fumaça; seu povo alegre, gentil, sensual, resistente e inventivo. Chamam-se à distância com beijos, reclamam das adversidades e supurante burocracia mas ao final levam a vida com bom-humor e graça. Falta tudo, para tudo se faz fila, e tudo exige uma jornada kafkiana para ser concluído. Abundantes apenas o tabaco, o rum e frutas tropicais...além, é claro, de uma boa salsa.

Muitos aguardam o fim do embargo ou a partida para outro mundo do comandante e líder máximo revolucionário, mas verdade é que em oito anos muita coisa já mudou. Apesar de limitado pelas minhas lentes e meu tempo na ilha, conversando com os cubanos e lendo jornais (oficiais) identifiquei três importantes mudanças que ocorreram nos últimos cinco anos - todas elas relativamente recentes - e seus notáveis efeitos.

A primeira delas foi a autorização por Raul Castro dos negócios particulares ("por cuenta própria"). As outras duas, já por parte dos EUA, foram um a permissão de visita de americanos cubanos e dois o envio, pelo mesmo grupo, de dinheiro para cubanos na ilha.

É tudo ainda muito recente, mas as novidades já pintam novas tendências que não

vi em 2006. Por exemplo a presença dos próprios cubanos americanos como turistas me surpreendeu muito. Não tinha me dado conta de que o contato entre as comunidades havia se reestabelecido após 50 anos de isolamento, seguindo autorização de 2009 assinada pelo Obama. Lá estão eles, usando a mesma forma do espanhol caribenho riquíssima em cubanismos, mas bem vestidos, exibindo carro alugado e telefone celular (absolutamente um luxo) e a certa arrogância de quem tem mais.

Vale comentar que em 2006 havia cubanos e turistas, e os cubanos não tinham acesso livre a estabelecimentos voltados aos visitantes. A presença do novo grupo, distinguível apenas pelo dress code, borrou a linha entre os dois grupos. Os visitantes levam seus parentes para comer e a beber com fartura e mostram fotos no smartphone da vida que levam além do Caribe. É de se imaginar que a vontade de participar em tudo aquilo que ocorre no mundo deve estar aumentando.

A combinação dos negócios por cuenta própria com a presença desses cubanos americanos - e, mais importante, das suas remessas financeiras - propiciou a origem de estabelecimentos privados modernos (ainda bastante voltados ao turismo) e na conversão de negócios públicos em privados (isso mesmo, privatização). São a primeira safra de restaurantes, hotéis, galerias de arte e bares privados que outrora não existiam. Este satélite comercial ainda orbita em torno dos estabelecimentos tradicionais, mas conforme cresce deve exercer sua gravidade sobre a economia tradicional, principalmente no que toca preços.

E para se ter uma ideia, hoje é possível comer um delicioso ropa vieja (uma espécie de cozido temperado de carne desfiada) por 3.95 dólares em um restaurante tradicional (Restaurante Europa, Habana Vieja), ou por 15 em um moderno. A lagosta abunda e sai de 8 a 25.

O uso da moeda também já é menos restrito. Antes quase não se viam cubanos usando o peso conversível (CUC), que entravam na economia como gotas no deserto, escorrendo pelas mãos de turistas. Hoje já o usam, de certa forma antecipando a unificação das moedas - que segundo a conversa popular e os jornais oficiais pode ocorrer ainda neste ano. Caso aconteça, deve ser seguida de uma inevitável desvalorização do CUC, boa noticia aos turistas.

Como se pode perceber, o período é de transição, e pode-se imaginar que uma situação em que um médico ganha por mês o que um taxista tira em duas corridas não irá durar. Ela irá impulsionar outras reformas, senão a insatisfação por parte dos mais educados pode desestabilizar e enfraquecer o poder central. Ou no mínimo faltarão médicos e professores, que preferirão dirigir taxis e passarão a instruir os seus filhos a perseguir essa carreira.

Análises e expectativas a parte Cuba é um lindo país com uma cultura riquíssima e um povo alegre. O son cubano é uma espécie de fusion de jazz com salsa que ecoa a riqueza do nosso choro e comer lagosta ao seu timbre é uma harmonização perfeita. Quem ainda não foi deve ir, e quem já foi vale voltar para aproveitar o novo e o velho.

ps. um abraço ao meu companheiro de primeira viagem e amigo Felipe, e à companheira de segunda e querida Georgina

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