OPINIÃO
12/01/2016 18:33 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Não. Não dá para 'ir com calma' na hora de defender os direitos LGBT

Reprodução

Vira e mexe me dizem que o movimento LGBT problematiza demais; que devíamos reconhecer mais o que já conseguimos conquistar.

Acho muito complicado pedir para frear a problematização como moeda de troca para "mini" avanços nas causas.

Até onde é realmente útil fazer um filme sobre transexualidade e colocar um ator cisgênero pra protagonizar? Não existem atrizes transexuais competentes para o papel?

Até onde é útil colocar um personagem homosexual numa novela e caricaturá-lo? Colocar numa série um personagem hétero que se relaciona com outro homem e depois se assume gay, tirando a visibilidade das pessoas bissexuais?

Eu até tento entender a lógica de quem diz "um passo de cada vez", ou "vamos com calma", mas eu simplesmente não consigo processar a ideia de ignorar a superficialidade na luta por certas coisas.

Não sei até onde é válido o conceito de "negociações", quando a intolerância vem massacrando grupos marginalizados.

Não estou aqui invalidando a importância de certas ações no avanço das causas.

Mas achar que "pelo menos é o que temos", é ignorar que todas elas são urgentes.

Pessoas trans, lésbicas, gays e bissexuais estão morrendo por LGBTfobia. O genocídio da população negra é latente. Os jornais gritam o feminicídio em nossa cara todas as manhãs. Sem falar nas outras inúmeras causas sociais urgentes que temos nesse país que finge que a intolerância não existe.

Sim, acho que toda forma de tentativa de mudança é válida. Não, não acho que isso seja motivo pra nos conformarmos e não questionarmos.

Não, colocar um casal de senhoras lésbicas na novela das oito não é suficiente. Se contentar com a visibilidade advinda do pink money (colocando casais gays em comerciais porque são consumidores em potencial) também não é suficiente. Todas as ações são válidas e contribuem com a causa, mas é preciso resistir ainda mais e pensar além do que nos vem mastigado.

É preciso lembrar que o desinteresse pelas causas de direitos humanos no Brasil cresce a cada dia.

É preciso lembrar que temos o congresso mais conservador desde o fim da ditadura. É preciso pensar criticamente e problematizar.

Eu não posso "ir com calma", ninguém tem "calma" na hora de atropelar o direito das pessoas de amar, de exercer sua cidadania e principalmente: ninguém tem "calma" na hora de anular a existência de grupos marginalizados. É preciso problematizar com urgência.

Me desculpem. Mas não, não dá pra ir com calma.

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