OPINIÃO
17/03/2015 17:39 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Sai o Comendador, entram '#azamigas'

divulgação/tv globo

Enfim, rei morto, rei posto. O Comendador José Alfredo (o ator Alexandre Nero) morreu, alvejado pelas costas pelo próprio filho, José Pedro (Caio Blat), no capítulo final de "Império", da Rede Globo, exibido na última sexta-feira (13) e reprisado no sábado (14). A audiência foi imensa, num episódio de mais de duas horas, tomado por intervalos comerciais: igualou o recorde do penúltimo capítulo (44 pontos do Ibope na Grande São Paulo - cada ponto equivale a 67 mil domicílios ou 200 mil pessoas).

A cena chocou o público. Conheço gente que chorou, outros que ficaram alarmados com a solução trágica dada pelo autor. Para alguns críticos da novela, o desfecho foi incoerente, dado que o primogênito do Comendador não carregava toda essa vilania, e acharam que foi uma arranjo de última hora, tal como fora a revelação sobre o passado do mordomo Silviano vivido pelo excelente Othon Bastos.

Discordo. Vi o inseguro e invejoso filho preferido da mamãe desde o início com potencial de movimentar a história pelo seu lado negro. Porém, uma pena, por muito tempo sua trama girou mais em torno de manter um casamento que não era do agrado da mãe, Maria Marta (Lília Cabral). Caio Blat exerceu bem o papel, praticamente uma extensão do que já havia feito na novela das 18h "Lado a Lado". Mas creio que o autor, Aguinaldo Silva, pode sim se permitir tais concessões. Uma história que se desenrola seis dias por semana, por quase oito meses, vai sofrendo nuances e mudanças de acordo com as variações de humor do público (medida por pesquisas constantes), dos atores (como se viu na saída de Drica Moraes para a reentrada de Marjorie Estiano, ambas no papel de Cora) e também do próprio criador.

Silva contou com um time de 8 auxiliares na escrita da trama, e não há nada mais natural que mude ao longo da sua jornada criativa os rumos dos personagens que criou. Mal comparando, li os sete volumes da saga de Harry Potter à medida em que foram lançados e, pra mim, foi muito perceptível como o sucesso e a necessidade de criação de novos livros iam fazendo com que a autora criasse ao longo das novas edições situações de desdobramentos impensados e sem o menor indício desde o começo da história do bruxinho de Hogwarts.

Então, o autor pode e se permite. E Aguinaldo usou e abuso da prerrogativa. E até deu uma de Alfred Hitchcock, cineasta que adorava aparecer discretamente em alguma cena de seus longas, ao fazer uma ponta com falas no final da novela. No entanto, coube ao diretor Rogério Gomes encaixar ainda outras referências cinematográficas, como um take circular ao redor de Othon Bastos à la cinema novo de Glauber Rocha. No Monte Roraima, a trilha sonora e fotografia fizeram alusão aos westerns de Sergio Leone musicados por Ennio Morricone. E como não saudar o desfecho do protagonista ao som do samba "Preciso me Encontrar" de Cartola, com seus versos célebres "Deixe-me ir/ preciso andar/Vou por aí a procurar/Rir pra não chorar.

E agora começa "Babilônia", escrita por Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga.

Num primeiro capítulo milimetricmaente roteirizado, já deu pra perceber que nessa "Babilônia", texto e elenco vão caminhar juntos em qualidade. Agora são elas tomando conta da tela. Atrizes premiadas e de talento inquestionável, Glória Pires e Adriana Esteves, ao lado da exuberante Camila Pitanga, já mostraram a que vieram. Gloria e Camila brilharam muito em textos de Gilberto Braga. Gloria o vem fazendo desde Dancin' Days, e sua vilã Beatriz começou a novela como um buraco negro, engolindo tudo que contracenava ao seu redor. Camila viveu uma Bebel inesquecível em "Paraíso Tropical" e agora é a mocinha sofrida e enganada. Adriana teve uma ótima passagem na minissérie recentemente exibida "Felizes para Sempre", dirigida por Fernando Meirelles, e com essa covilã Inez, meio emburrecida de tanta inveja, já deixou para trás as memórias de Carminha de "Avenida Brasil".

O fato é que tem crime, intriga, disputa, chantagem e briga entre mulheres amigas e inimigas, ou "azamigas" e "azinimigas", como se diz nas redes sociais. É o clima do "cat fight", briga das gatas, que vai dominar o folhetim. O mais memorável destes embates criados pelo autor foi entre as personagens de Malu Mader e Claudia Abreu, que foram de amigas a rivais chegando às vias de fato em "Celebridade" .

Mas há também outros núcleos que prometem.

Na semana passada a Globo fez uma festa "babilônica" para a estreia da novela, reunindo todo o elenco e produção, mais convidados no Copacabana Palace, no Rio. Os salões estavam decorados com jardins suspensos, os drinques eram temáticos da história - com nomes alusivos, como o próprio coquetel Babilônia, à base de espumante numa taça balloon onde mergulhava um picolé - e as atrizes lindíssimas vestiam longo. Tudo muito chique e requintado para dar as boas vindas ao grande produto da casa.

É de fazer inveja às demais emissoras abertas da televisão mundial nossa cultura latino-americana das novelas diárias e o padrão de qualidade que a Globo impõe a todas as concorrentes também em nível internacional. Qual outro produto garante a qualquer emissora de TV audiência em torno de 30 a 40 pontos diariamente, seis dias por semana, no horário nobre por um período mínimo de seis meses? Só a Globo exibe 5 delas todo dia, fora quando há minisséries.

Na festa da novela, quem apresentou a trama foi o diretor Dênis Carvalho, que não recebeu nenhuma das 3 protagonistas no palco, mas sim as atrizes Fernanda Montenegro e Nathália Timberg. Elas já estrearam no ar com beijo, formando um inédito par romântico homoafetivo de terceira idade. A primeira tinha passado quase toda a festa ao lado de Gilberto Braga, posando para fotos, na sua elegância toda discreta. Nathália Timberg estava esfuziante, com seus cabelos brancos, indo ela mesma ao bar pedir bebida, sendo só sorrisos para todos os lados. Certamente o duo terá momentos emocionantes.

A direção geral e de núcleo será de Dennis Carvalho e direção geral de Maria de Médicis.