OPINIÃO
03/07/2015 15:49 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:35 -02

Pontos de audiência na vida e na morte

Audiência é o nome do jogo e vale para todas as emissoras. Se houve de início alguma dúvida se o cantor mereceria tamanho espaço, foram as redes sociais que imediatamente deram o tom da intensidade necessária. Acostumemo-nos a isso. Cada vez mais as mídias sociais serão o termômetro do tamanho que uma história merece ou não ter na TV.

Reprodução/Facebook

A morte do sertanejo Cristiano Araújo chamou tanto a atenção quanto a extensiva cobertura do acontecimento feita pelas redes de TV. O cantor morreu aos 29 anos, na madrugada do último dia 24 em acidente de carro numa estrada de Goiás. Sua namorada, Allana Coelho Pinto de Moraes, de 19 anos, também morreu no acidente.

A dedicação de espaço na TV ao trágico acidente foi muito intensa, desde o final da manhã do próprio dia 24 até uma semana depois, dia da missa de sétimo dia. As discussões sobre o tema abarcavam basicamente duas correntes: a parte do público que reclamava que a mídia exagerava na cobertura de um cantor que não seria tão conhecido até o acidente, e a outra parte que reclamava exatamente que ninguém tinha direito de criticar espaço dedicado à morte de ídolo tão importante.

A verdade é que a mídia muitas vezes é tomada de surpresa tanto quanto os fãs em casos assim. De um modo geral, nem sempre os profissionais das redações jornalísticas têm a exata dimensão do alcance que cada artista tem neste imenso território. Duas décadas atrás se media a fama de um cantor pelo número de discos que ele vendia. A indústria fonográfica mudou drasticamente, não se valoriza mais um artista pelas vendas de álbuns. Frequentemente somos surpreendidos por cantores que angariam milhões de views e curtidas no YouTube e outros tantos que lotam shows sem nunca terem nenhum sucesso tocado nas rádios.

Cristiano Araújo já era um nome conhecido na TV Globo, com aparições pontuais nos programas da emissora nos últimos anos. Mas a cobertura do acontecimento trágico superou em muito o tempo dedicado a perdas recentes na emissora, como por exemplo os funerais de Chico Anysio e do ator José Wilker, ambos pratas da casa. No caso do cantor sertanejo, o quesito ao vivo foi levado à máxima potência - vale lembrar que o grupo já tem um canal jornalístico, a Globonews na TV paga, para onde poderia ter dedicado toda sua cobertura, como ocorre em caso de eleições, por exemplo. Mas como raramente acontece, toda a programação da tarde na emissora aberta foi alterada para dedicação total ao assunto, tal qual acontecia em outros canais.

Audiência é o nome do jogo e vale para todas as emissoras. Se houve de início alguma dúvida se o cantor mereceria tamanho espaço, foram as redes sociais que imediatamente deram o tom da intensidade necessária. Acostumemo-nos a isso. Cada vez mais as mídias sociais serão o termômetro do tamanho que uma história merece ou não ter na TV.

Se a televisão convencional teme a concorrência da internet, do vídeo sob demanda, do conteúdo gravado para se ver depois, ela enfrenta tudo isso com o diferencial que consegue ter em conteúdo direto e ao vivo na banda mais larga da nossa casa, que ainda é a tela grande da TV. Sim, porque o filme, a novela até o seriado você pode ver em bloco depois, a qualquer hora. Mas o esporte, o evento ao vivo e o jornalismo contém em si o hic et nunc, o aqui e agora, que tem de ser visto em tempo real. E tudo acaba referendado pelo calor que um assunto ganha nas mídias sociais.

Em novembro último, o SBT deu uma lição sobre o tema, na cobertura dos funerais do ator Roberto Bolaños, o Chaves. Na ocasião, até a Televisa, maior rede de TV do México, repercutiu a cobertura do SBT. Não tinha como ser diferente: a emissora de Silvio Santos vinha de uma expertise de quase 30 anos com várias gerações de seus fãs, que invariavelmente congestionavam os telefones da casa quando por algum motivo a emissora resolvia tirar o Chaves diário do ar. Isso aconteceu algumas vezes ao longo destes anos todos, uma vez que o programa era um sucesso de público mas não gerava receitas em patrocínios para a emissora. Isso sim era um descalabro dos anunciantes, que não conseguiam enxergar naquela massa de fãs ardorosos do comediante mexicano consumidores para seus produtos.

Está completando agora dois anos de um exemplo de desconhecimento da mídia sobre o alcance de um artista. Foi o caso do assassinato do cantor de funk Daniel Pellegrine, o MC Daleste, baleado em pleno palco num show em Campinas/SP. Inicialmente tímida, a cobertura do crime só foi crescendo à medida em que os órgãos de imprensa verificavam que o público conhecia o cantor e se manifestava sobre o artista do estilo "funk ostentação". Sua fama se mostrou maior do que especialistas do assunto podiam dimensionar.

Verdade é que nem a própria mídia às vezes consegue prever a sua repercussão. Há um ano, o trânsito da cidade de São Paulo ficou engarrafado na Marginal Pinheiros numa tarde de domingo e um shopping teve de fechar as portas para a multidão que ainda queria entrar para assistir a uma apresentação de um confeiteiro de bolos. O "Cake Boss", um programa do gênero num dos canais da Discovery, literalmente embolou a região num afluxo de público que ninguém na organização jamais imaginara.

De volta aos óbitos. Toda vida que se vai, de famoso ou não, é de se lamentar e merece registro. Mas acostumemo-nos. Personalidades públicas, celebridades que se vão ganharão maior cobertura na TV à medida em que mais lágrimas sobre eles sejam compartilhadas e curtidas nas redes sociais.