OPINIÃO
20/02/2015 16:36 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

O que a TV brasileira tem a aprender com o Saturday Night Live

Getty Images
SATURDAY NIGHT LIVE 40TH ANNIVERSARY SPECIAL -- Pictured: (l-r) Tom Hanks, Melissa McCarthy, Peyton Manning, Steve Martin, Miley Cyrus, Chris Rock during the cold open on February 15, 2015 -- (Photo by: Theo Wargo/NBC/NBCU Photo Bank via Getty Images)

Episódio que marca o quadragésimo aniversário do Saturday Night Live, tradicional humorístico norte-americano, foi ao ar na NBC ao vivo durante mais de 3 horas no último domingo

Reservei mais de três horas destes feriados de Carnaval para ver o gigantesco episódio comemorativo aos 40 anos do Saturday Night Live, tradicional humorístico norte-americano. E espero que todo diretor de TV brasileira tenha a oportunidade de ver para se inspirar. O mérito do SNL foi fazer um programa que homenageia sua própria trajetória valorizando o que de melhor exibiu ao longo de década: o talento de seus colaboradores. De tantas histórias e imagens que o SNL destacou, sempre o artista, o roteirista e até o diretor foram o centro das atenções.

O especial do SNL, já fazendo humor, foi exibido direto e ao vivo justamente na noite de um domingo e teve shows de Paul McCartney, Miley Cyrus (comportadíssima), Paul Simon e uma apresentação de nova música de Kanye West. A atração da emissora de TV aberta NBC é um programa de linha exibido nas noites de sábado - como reza o título - desde setembro de 1975.

O programa, um ícone do humor nos EUA, a cada semana tem convidados ilustres, de Hollywood e da indústria fonográfica, que fazem apresentações ao vivo com suas próprias bandas em shows memoráveis - Nirvana e U2 já passaram por lá. Cada episódio traz um apresentador convidado que, além de ancorar o programa, participa como ator de alguns dos quadros, os chamados esquetes. Falar sobre quantas vezes já foi convidado para ancorar o programa foi um dos assuntos favoritos dos astros neste especial.

Seu humor varia de tiradas curtas a quadros maiores, sempre com shows de interpretação e uma produção ora primorosa, ora propositadamente tosca. Há quadros pré-gravados e outros encenados ao vivo. Participar da plateia no auditório nova-iorquino da NBC é um dos melhores programas que o turista por lá pode disputar.

Este especial dos 40 anos trouxe um resumo da história do programa, mostrando as grandes celebridades que ali nasceram ou passaram por lá. E a parte que mais gostei: os testes de admissão de alguns dos atores, cenas jamais exibidas antes. Mas ao olhar para trás, o mérito do SNL 40 foi também valorizar o seu presente. Assim, ao vivo, se apresentaram: Justin Timberlake, Jimmy Fallon, Paul McCartney, Robert De Niro, Jack Nicholson, Kanye West, Keith Richards, Jim Carrey, Jerry Seinfeld, Edward Norton, Billy Cristal, Paul Simon, Will Ferrell, Bill Murray, Tom Hanks, Bradley Cooper, Taylor Swift, Alec Baldwin, Steve Martin e Eddie Murphy, entre tantos outros.

O Saturday Night Live nunca dispensou a sátira política. Cada um de seus humoristas celebrizou-se ao encarnar um presidente norte-americano desde George Ford, ou mais recentemente as postulantes Hillary Clinton e Sarah Palin - esta última compareceu em pessoa ao programa especial e quase podia ser confundida com a atriz que melhor a satirizou, Tina Fey.

Eu lhe tomaria o mesmo tempo do programa se fosse escrever aqui tudo o que vi no programa - há de fato muitas piadas e musicais referenciados demais na cultura dos EUA para acharmos graça. O que interessa é mais o formato, em que a valorização do artista no palco já começa pela qualidade do script que ele lê. É impagável ver um Robert De Niro dizer que o programa remonta ao tempo em que se assistia à TV na própria televisão. Ou ver Jerry Seinfeld fazer um mea culpa de que nunca destacou atores negros na sua série de sucesso por tantos anos. São detalhes sutis de textos que valem você ver um programa. Na plateia, gente como Michael Douglas também participou. Outros, como Steven Spielberg, apenas assistiu.

Enfim, como neste ano a TV Globo comemora 50 anos, acho que vale a sugestão para que algum diretor de programa assista ao especial do SNL e se inspire em um programa que faça jus aos talentos que por ali passaram e consagraram a rede. Afinal, a TV, e ainda mais uma emissora de tamanha penetração, envolve muito mais que uma simples transmissão. Trata sim da memória afetiva de ao menos três gerações.

Em 2014, na gravação do Especial "Vem Aí" da Globo, que abordava a nova programação daquele ano, o que se viu foi um programa muito mais desenhado para o mercado de publicidade presente na plateia - que, diga-se, na sua grande parte fica pouco à vontade diante dos holofotes e em assentos à frente até de estrelas da TV - do que para o telespectador que assistiria à atração em casa. Um diretor consagradíssimo na área de publicidade - João Daniel Tikhomiroff, na verdade, o mais premiado da publicidade brasileira em nível internacional, cineasta e sócio de produtora - até passou pito no elenco durante a gravação.

A emissora em janeiro fez algumas exibições de atrações antigas na sua grade. No entanto, se houver ainda, espera-se, um programa especial sobre os 50 anos da emissora, torço para que ele olhe muito para o que mais emociona o telespectador, e não tente agradar tanto o mercado. Este já sabe muito bem acompanhar o que o público prefere e conta com amplo ferrramental para isso.

A íntegra do Saturday Night Live especial de 40 anos não está disponível online pelo site da NBC para o Brasil. Mas aqui há um compilado de alguns melhores momentos, eleitos pelo NY Post.

O programa é exibido no Brasil pelo canal da TV por assinatura Sony, aos sábados, 18h30, mas com delay. A próxima exibição do programa acontece apenas em 7 de março, segundo consta na grade do canal no site, mas não há referência à exibição do especial.

Em tempo: a audiência média do SNL 40, exibido a partir de 20h nos EUA, foi de 23 milhões de telespectadores. No mesmo horário, concorreu com o NBA All-Star Game e com a estreia da nova temporada da série "The Walking Dead" em outras emissoras. Assim que forem computadas as audiências dos telespectadores que gravam a atração para ver depois - nos DVRs, ou digital videorecorders - a NBC estima que este será seu especial mais assistido desde a grande final de Friends, em 2004. Nada mal para um programa que, entra ano, sai ano, dizem que está ameaçado de acabar.