OPINIÃO
05/05/2015 18:44 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

De onde vem essa incrível atração pelas favelas?

Não tem como não lembrar de Joãosinho Trinta, o lendário carnavalesco, com sua máxima: "O povo gosta de luxo. Quem gosta de miséria é intelectual". Mas é essa miséria que vem abastecendo novos roteiros, ou pelo menos servindo para sua ambientação.

divulgação/TV Globo

"I Love Paraisópolis" é a mais nova novela das 19h da TV Globo (estreia em 11 de maio) com um núcleo central da trama situado na favela - ou comunidade, como preferem alguns - do bairro do Morumbi, na capital paulista.

Não é de hoje que parte das histórias de dramaturgia da emissora se ambienta em locais que fazem referência a zonas menos nobres das grandes cidades. Apenas recentemente, em novelas como "Cheias de Charme", "Salve Jorge", "Lado a Lado" (esta mais de época), alguns dos mais belos e belas atores e atrizes do elenco da emissora personificavam personagens menos favorecidos socialmente, em papéis como moradores de barracos cenográficos.

Na atual novela das 21h, "Babilônia", um núcleo se concentra numa favela, local de onde quem vence na vida, como a advogada Paula (Sharon Menezes), trata de se mudar. Mas lá ainda vivem a mocinha Regina (Camila Pitanga), seu irmão atleta e amigos.

Dias atrás, o fundador e dono do Facebook, Mark Zuckerberg, anunciou em encontro no Panamá com a presidente Dilma Rousseff a expansão do seu projeto de levar internet gratuita para áreas remotas. No Brasil, foi escolhida a favela de Heliópolis, a maior da cidade de São Paulo, com 1 milhão de metros quadrados. A mesma Heliópolis foi anos atrás palco de um visitante famoso. Em 2008, o então craque da seleção francesa de futebol Zinedine Zidane inaugurou ali um quadra poliesportiva, numa ação de um patrocinador.

O Morro Dona Mata, no Rio de Janeiro, também coleciona visitantes ilustres. Além do mais famoso deles que ganhou até estátua, Michael Jackson, que gravou ali em 1998 um videoclipe, outros passaram apenas para conhecer, como Madonna. Outras como Beyoncé e Alicia Keys também gravaram, e blockbusters do cinema americano como "Velozes e Furiosos 5" e "Se Beber Não Case 3" tiveram cenas no Dona Marta. O longa-metragem nacional "Tropa de Elite 2" também.

Enfim, a atração do cinema por estas locações é também extensa. Como escreve a acadêmica Ivana Bentes, professora da UFRJ, no seu ensaio "Sertões e Favelas no Cinema Brasileiro Contemporâneo: Estética e Cosmética da Fome", o fascínio que a geografia e a paisagem do sertão exercem sobre nós tem como contrapartida urbana o fascínio pelos territórios dos subúrbios e favelas. Para ela, a "favela é o cartão-postal às avessas, uma espécie de museu da miséria, etapa histórica, não-superada, do capitalismo e os pobres, que deveriam, dada toda produção de riquezas do mundo, estar entrando em extinção, são parte dessa estranha 'reserva', 'preservada' e que a qualquer momento sai do controle do Estado explode, 'ameaçando' a cidade".

Não tem como não lembrar de Joãosinho Trinta, o lendário carnavalesco, com sua máxima: "O povo gosta de luxo. Quem gosta de miséria é intelectual".

Mas é essa miséria que vem abastecendo novos roteiros, ou pelo menos servindo para sua ambientação. Nesta "I Love Parasópolis", uma festa de lançamento em São Paulo contou com a presença de diversos moradores, líderes das associações locais e dos figurantes da trama. Na decoração da festa, uma prevaleceu uma estilização do ambiente criativo que a falta de recursos proporciona nas moradias mais simples das favelas, com uma profissão de objetos muito populares - jarros de plástico em formato de abacaxi, potes de maionese para servir bebidas, piscina de plástico para gelar bebida.

Em março, estive numa apresentação feita na agência de publicidade Grey Brasil. Foi um encontro com o fundador e presidente do instituto Data Popular, Renato Meirelles, e o tema era "A Nova Favela Brasileira", baseado em pesquisa que gerou um livro publicado por ele sobre o assunto.

Meirelles deixou claro em sua apresentação aos publicitários que não estava se referindo a minorias, pois são 12 milhões de brasileiros morando em favelas, pertencentes a um mercado emergente das classes C, D e E.

Entre outras, Renato Meirelles destacou se tratar de uma população cujo montante de consumo anual atinge R$ 68,5 bilhões. Ele cravou que os índices de crescimento econômico na favela superam o percentual geral do Brasil, mesmo em tempos de crise, uma vez que para os seus moradores, a crise não é a exceção, mas sim a regra de sempre. São pessoas que fazem muitos trabalhos extras (os "bicos"), pesquisam muito pelo melhor preço na hora da compra e que compram menos produtos piratas que outras camadas de classes mais altas da população. A empresa de pesquisas aferiu ainda que as intenções de aquisição de bens de consumo entre os moradores de favelas são significativas: 2 milhões pretendem comprar TV nova , 1,7 milhão querem adquirir um tablet e 2,4 milhões querem viajar de avião no prazo de um ano - não por acaso, há uma agência de viagens dentro da favela de Paraisópolis, de grande movimento.

Talvez por este prisma seja possível entender melhor a necessidade de se inserir esta parcela significativa da população nos roteiros das telenovelas, como forma de gerar identificação com os personagens e tramas. Como declarou Mario Teixeira, um dos autores de "I Love Paraisópolis": "Balzac tinha uma coisa genial: mostrava para os ricos como os pobres viviam, e para os pobres como os ricos viviam", disse à jornalista Cristina Padiglione, de O Estado de S. Paulo, complementando que espera fazer um pouco isso na novela.

Vamos supor que essa premissa seja verdadeira, e os novelistas podem mesmo ser os Balzacs de nossos tempos. Mas tenho o palpite que a pesquisa do Data Popular também explique muito sobre esta opção da televisão.