OPINIÃO
29/03/2016 15:23 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Com 'Velho Chico', o deleite do telespectador é totalmente visual

Divulgação/TV Globo

Se por um lado foi um tremendo azar estrear na semana mais tumultuada da vida política brasileira dos últimos 25 anos, a novela Velho Chico tem sido desde o primeiro capítulo um agrado aos nossos olhos.

A nova novela das 21h da TV Globo, na sua primeira dezena de capítulos, teve tratamento cinematográfico, o que serve para me lembrar que, se não me serviu para a alegria local na última Copa do Mundo de futebol, pelo menos agora já compensa todo o investimento feito para a recepção da transmissão digital full HD, tela plana com mais polegadas e tais para programação da TV aberta.

Não significa que não houve esforços anteriores - desde Avenida Brasil (2012), as tramas do horário têm sido transmitidas em alta definição. Porém, aqui a amplitude de paisagens possibilita um sem fim de imagens de rara beleza para uma trama diária. Saem de cena, ao menos por enquanto, as tão aclamadas favelas, ou comunidades, já que boa parte das telenovelas anteriores desta faixa noturna deu um grande destaque para o adensamento da vida em morros cariocas, seja no Alemão, Babilônia ou Morro da Macaca.

Retratar o interior do Brasil em seu esplendor e costumes é uma das marcas do diretor geral da novela. Luiz Fernando Carvalho estreou com o autor em 1996, quando dirigiu "O Rei do Gado", de Benedito Ruy Barbosa, que agora assina a ideia original de Velho Chico, tendo delegado à filha Edmara Barbosa e ao neto Bruno Luperi a execução dos roteiros diários.

Velho Chico promete ser um avanço em relação a O Rei do Gado, e contará com o mesmo protagonista Antônio Fagundes numa segunda fase da história, quando haverá um salto no tempo e envelhecimento (substituição) dos atuais personagens (atores).

Entre uma novela e outra, o diretor teve inúmeros outros trabalhos, e alguns foram grandiosos e até mesmo obras-primas: Os Maias (2001), Hoje é Dia de Maria (2005), Capitu (2008) e Suburbia (2012), para citar as principais, além de ter dirigido a hiper-realista Meu Pedacinho de Chão (2014), também de Benedito Ruy Barbosa. Mas é a uma obra de cinema do próprio Luiz Fernando Carvalho, datada de 15 anos atrás, que a estética visual de Velho Chico mais nos remete: Lavoura Arcaica, baseada em obra literária de Raduan Nassar.

Há a casa grande na fazenda, os longos planos nas plantações de algodão, as cenas de um colorido e enquadramento meticulosos que mais parecem pinturas. Só ele faz a câmera parar numa cadeira vazia na varanda por vários segundos, quando nada acontece mas ao mesmo tempo tudo se passa.

Carvalho carrega em cada episódio uma vida inteira de influência cinematográfica: os desertos e planícies de Sergio Leone, as cenas de violência à la Martin Scorsese e a dramaticidade de Francis F. Coppola. O tom dominante é o ocre poeirento, aliviado pelas águas do Nordeste - as locações aconteceram em 3 estados, do Rio Grande do Norte à Bahia, passando por Alagoas.


O deleite visual de 'Velho Chico'


O diretor tem especial carinho com as manifestações religiosas, uma de suas paixões na tradição interiorana brasileira. Assim, as festas, danças de roda e culto às santas são filmadas com esmero e praticamente dispensam diálogos. A trilha sonora também tem sido primorosa, onde prevalece a MPB nordestina nas vozes de Caetano Veloso, Amelinha, Alceu Valença, Gal Costa, Chico César e Tom Zé, entre outros.

Carvalho assina a direção artística de cada episódio como se fosse cada qual um longa-metragem. O figurino é meticulosamente caprichoso, e o suor e rugas nos rostos dos atores são especialmente focados em close. É como se todos em casa pudéssemos sentir o calor dos atores em cena, uma viagem no tempo ao "Rio 40 Graus" de Nelson Pereira dos Santos, agora com cor e em ambiente rural.

O destaque até aqui é claramente a estética visual, com enredo não mais que bem servindo à apresentação da história. Os personagens estão claramente delineados, e cabe elogio às interpretações de Selma Egrei e de Rodrigo Santoro; ambos, à falta de um texto tão espetacular quanto a cena, entregam muito bem seus personagens. Menção seja feita ao patriarca Tarcísio Meira num desempenho de poucos capítulos mas muito impacto, como um Dom Corleone do Vale do São Francisco. Fabíola Nascimento, Chico Diaz e Cyria Coentro também foram além de suas falas em cena; e Carol Castro e a novata Marina Nery, as mais lindas.

O estranhamento é que a história se desenrola lentamente, num ritmo pouco usual para os padrões atuais de novela aceleradas como videoclipes, e não há aquela infinidade de atores e núcleos secundários. As viradas da trama vêm sendo marcadas por mortes de personagens-chave.

Torçamos para que, ao se voltar ao Projac nas próximas fases, o enredo nos prenda para além das paisagens. Por enquanto, com tanta beleza na tela, eu arrisco dizer que na minha TV o placar já passou pra um 7x2.

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