OPINIÃO
01/04/2015 17:25 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Eu teria impedido Andreas Lubitz de voar?

Se 2014 for julgado em termos do total de acidentes fatais, ainda assim foi o ano mais seguro da história. Se eu quiser que você guarde algo deste post, é que andar de avião é extraordinariamente seguro. E, por favor, não estigmatize pessoas que sofram de doenças mentais com base na ações psicopáticas de um homem.

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FRANKFURT, GERMANY - SEPTEMBER 13: In this photo released today, co-pilot of Germanwings flight 4U9525 Andreas Lubitz participates in the Airport Hamburg 10-mile race on September 13, 2009 in Hamburg, Germany. Lubitz is suspected of having deliberately piloted Germanwings flight 4U 9525 into a mountain in southern France on March 24, 2015 and killing all 150 people on board, including himself, in the worst air disaster in Europe in recent history. (Photo by Getty Images)

Todos os dias avalio o risco de suicídio de pacientes. Não consigo pensar em nenhum paciente deprimido ou suicida que pudesse contemplar tirar a vida de outras 149 pessoas, além da sua própria.

Como profissionais de saúde mental, passamos muito tempo tentando desmistificá-la. Fiquei chocado esta semana quando um aluno de medicina me disse que ele e seus amigos "estão com medo de pacientes psiquiátricos". Esse jornalismo irresponsável sobre pessoas deprimidas causando um assassinato em massa deveria ser analisado com cuidado, pois já é difícil hoje em dia lidar com o estigma da doença.

Como psiquiatra, costumo enviar relatórios para departamentos de saúde ocupacional baseados nas minhas avaliações de risco. Me questionei se teria suspendido a licença do piloto com base em minha avaliação. A resposta honesta é não.

Reportagens afirmam que ele teria dito à namorada que "faria algo espetacular", mas isso só é interessante depois do fato. Certamente ninguém poderia ter previsto que ele trancaria o comandante para fora da cabine a fim de cometer um assassinato em massa. Quando avalio riscos de suicídio e até mesmo de homicídio, confio nas respostas sinceras dos meus pacientes e na histórias adicionais de amigos e familiares.

Fala-se em dissociação e impulsividade de momento, mas novas evidências indicam que ele tenha incentivado o comandante Sondheimer a sair da cabine. Isso significa premeditação, o que faria de Lubitz um psicopata desprovido de sentimentos ou empatia pelas vidas das 149 famílias que ele destruiria com um simples toque do botão que controla o nível da aeronave no piloto automático.

Em um ano com múltiplas tragédias, o medo do público de voar bate recordes. O piloto em mim fica triste ao saber disso, pois voar deveria ser uma experiência maravilhosa e empolgante, não aterrorizante.

Todos gostamos de nos sentir no controle. Quando ouvimos histórias de aviões derrubados propositalmente ou de aviões que desapareceram em pleno voo, é natural sentirmos medo. Entrar num avião agora certamente vai causar mais ansiedade do que no passado.

As estatísticas são insignificantes diante da capacidade do cérebro humano de pensar em catástrofes. O estatístico mais fervoroso, tomando um gin tônica e comendo amendoim em seu assento, sabe que os riscos são infinitesimais, mas isso não leva em conta nossa psicologia.

Sabíamos no passado que, se escolhêssemos uma empresa aérea com uma boa reputação de segurança (e existem dados sobre isso), um bom departamento de manutenção e uma cultura de excelência e segurança, a tecnologia moderna dos aviões é segura o suficiente para atravessar tempestades e lidar com quaisquer problemas mecânicos durante o voo.

As empresas agora estipularam que os pilotos não devem deixar a cabine de comando a menos que uma terceira pessoa esteja presente. Realmente acredito que isso garanta que nada parecido aconteça de novo. Espero que isso ofereça garantias a quem viaja de avião.

Mas essa tragédia ajuda a expor a necessidade de mais apoio psicológico para os pilotos.

Quando conversei com o ex-comandante sênior de treinamento da British Airways Guy Hirst, que treina equipes em fatores humanos e gerenciamento de riscos, ele disse que muitos colegas continuavam voando mesmo que atravessassem períodos de luto ou não se sentissem 100% psicologicamente - por medo do estigma. Entre os pilotos, a cultura é de que todos devem ter uma personalidade muito resistente.

Mike Biagini, de Los Angeles, comentou: "Quando garotos, crescemos assistindo Top Gun. Não queremos reclamar ou parecer fracos. Turnos longos e descansos insuficientes fazem com que trabalhemos num estado de fadiga quase constante. Casos de alcoolismo ou depressão não são incomuns, e relacionamentos falidos são quase a regra. O brilho e o glamour desse estilo de vida são praticamente inexistentes nos dias de hoje."

Por enquanto, se você for pegar um avião, tente se concentrar no fato de que 3 bilhões de pessoas fizeram viagens áreas no ano passado, e voar ainda é, de longe, o meio de transporte mais seguro que existe.

Se 2014 for julgado em termos do total de acidentes fatais, ainda assim foi o ano mais seguro da história. Se eu quiser que você guarde algo deste post, é que andar de avião é extraordinariamente seguro. E, por favor, não estigmatize pessoas que sofram de doenças mentais com base na ações psicopáticas de um homem.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost UK e traduzido do inglês.

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