OPINIÃO
26/03/2014 10:21 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Momentos do passado interpretados novamente no futuro

Quando a gente resgata diversos momentos das nossas vidas, alguns desses momentos, ao revisitá-los anos depois, a gente acaba interpretando de forma diferente.

Eu gostaria de explicar este tema de forma diferente. Sempre, na vida de qualquer pessoa a interpretação de fatos passados muda. Muda porque quando a gente fica mais experiente consegue interpretar de forma mais justa por que determinadas coisas aconteceram nas nossas vidas. Esta forma de ver as coisas por outro prisma faz parte da natureza humana, e acontece sempre, mas não é percebida pelas pessoas e sim esquecidas. Quando um fato ruim já interpretado - na fase jovem da sua vida - e sem uma reflexão profunda acaba com você carregando para sempre certas mágoas que só fazem mal para a saúde. Rever e aprender a ver o lado bom (mas oculto na nossa mente) nos ajuda a perdoar se for necessário. Não há razão para passarmos a viver com certas interpretações erradas de um passado que acabou. A vida é o presente e o futuro pode ser muito melhor se aprendermos a olhar as coisas num tom mais róseo.

No meu caso, passei quase 40 anos com certas mágoas do alcoolismo do meu pai e isto, às vezes, me corroía. Claro que eu amava meu pai e fiz de tudo para ajudá-lo a sair desta vida e não consegui. Mas veja que coisa maluca, eu só enxergava o momento em que ele estava alcoolizado e nunca me lembrava de tantas coisas lindas que ele - coitado portador de uma doença - me proporcionou e de certa forma me ajudou a moldar a pessoa que sou hoje. Somente ao escrever o livro DOUGLAS, que num exercício de autorreflexão me lembrei de coisas que com toda limitação dele, me fez muito feliz. Escrevendo o livro, lembrei que mesmo alcoolizado ele nunca deixava de me trazer uma bala. Lembrei que eu queria conhecer o jogador Pelé, e com apenas 8 anos de idade ele me levou no estádio do América de São José do Rio Preto para assistir a um jogo do Santos. Também lembrei que na Copa do Mundo de 1958 meu pai me colocou no pescoço e ficamos no meio de uma multidão assistindo da calçada o jogo do Brasil e Suécia na única TV preta e branca que existia num bar em frente à Praça de Mirassol.

Então, o que meu pai me trouxe de ensinamentos e bondade que estavam apagadas na minha memória porque o ruim sempre se sobrepõe às coisas boas? Ensinou-me que beber é uma doença e tem que ser respeitada como tal. Hoje, quando vejo uma família com alguém com este problema oriento no sentido de busca e ajuda e entendo que o alcoolismo é mesmo uma doença que a pessoa não consegue superar sozinha. Com os meus filhos gêmeos de 4 anos, todos os dias eu trago balas para eles e vejo os quão felizes eles ficam.

Assim acontece com tudo! No caso do meu pai, quando terminei o livro, tirei de dentro de mim algo que eu não sabia que me incomodava e aprendi a amá-lo mais ainda. Pena que ele se foi antes de eu escrever este livro.

Eu recomendo a todas as pessoas este exercício de reflexão. Ele faz bem para alma e você se transforma numa pessoa melhor.