OPINIÃO
29/09/2014 12:46 -03 | Atualizado 26/01/2017 20:56 -02

O enterro do amor perfeito

reprodução

Alguma coisa me dizia que o clima mudara. Em todos os cantos, as pessoas nos alertavam sobre a possibilidade de um desastre. Diziam que deveríamos ir embora e nos separarmos. Reagi firmando os pés sob a areia e ela reproduziu o ato. O céu mudou e o vento soprava como se tivéssemos feito algo de errado. Sentei ao lado de um coqueiro e olhei para o mar esperando ver a catástrofe de perto, como alguém que vai até o final para pagar pra ver. Depois de alguns instantes, o mar respondeu, a água se recolheu formando uma enorme tsunami que navegava rapidamente ao nosso encontro. Nós nos agarramos ao coqueiro e eu rezei para que tudo aquilo passasse logo.

A força da água foi tão grande que levou tudo de mim, até mesmo meus medos e esperanças. Para não dizer que o mar me tirou tudo, meus dedos ainda seguravam a antiga correntinha que ela usava no pescoço. Eu estava bastante machucado e confuso, não sabia mais para onde ir. Entrava em lugares, procurava por rostos conhecidos e virava a madrugada buscando respostas. Foi difícil admitir que agora eu estava sozinho e não tinha ninguém caminhando comigo. Com os destroços construí um abrigo e descansei olhando para os pedaços que restaram da minha vida.

Já estava escuro e uma luz se movimentava em minha direção. Percebi que era uma garota meio abalada e triste. Eu a convidei para entrar e ela disse, mostrando as feridas abertas e um vinil dessas bandas moderninhas, que também tinha perdido alguém recentemente. A única coisa que eu sabia sobre ela é que gostava das minhas piadas e me fazia esquecer do passado. Ela parecia de fato uma luz no fim do túnel, um pouco de clareza para os meus pensamentos. Quanto mais tempo passávamos juntos, mais me sentia envolvido.

Até que resolvi tomar uma atitude e a beijei com toda vontade. A garota se recusou ao impulso como se aquilo fosse impossível, me dizendo que não queria nada além de boas risadas. Com as mãos tremendo, colocou o vinil para tocar e me explicou que aquela era a música de quem procurava. Seus olhos ficaram baixos e ela me abraçou. Pelo tom que falava parecia que ele iria voltar a qualquer momento, mas nós dois sabíamos que isso não iria acontecer. O cansaço nos venceu e adormecemos de qualquer jeito pelo chão.

Alguns meses se passaram e agora o clima era de reconstrução. Frequentemente a garota voltava a minha casa para conversamos e dançarmos. Isso foi se tornando tão prazeroso que o desejo de beijá-la não desaparecia da minha cabeça. Então repeti a ação, mas desta vez ela não recusou. Nós nos tocávamos como alguém que tinha descoberto algo novo. Aquilo estava tão bom que queríamos mais. Conseguimos encontrar o que tínhamos perdido, a felicidade. Para encerrar o ciclo que passou, fizemos uma rápida cerimônia: cavamos dois buracos e enterramos os objetos que um dia pertenceram a um dito amor perfeito.

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