OPINIÃO
25/10/2016 13:19 -02 | Atualizado 25/10/2016 13:19 -02

Como o trabalho de base das religiões pode fortalecer a democracia?

Este é o trabalho mais valioso da igreja: colocar em comunhão e em pé de igualdade e solidariedade pessoas de origens e vivências muito diferentes entre si. Este trabalho de base feito pelas igrejas é muito valioso para o fortalecimento da democracia e vai muito além dos fundamentalistas religiosos que hoje estão no poder. Vale termos a cautela e o espírito democrático para avaliar caso a caso e de não manchar a imagem de um ou outro político pelo seu histórico religioso, apenas por motivos estritamente eleitoreiros.

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St. Andrews Forane Church at Arthunkal near Alappuzha held in month of January. This ten-day festival held in name of St. Sebastian attended by thousands of devotees from all parts of state.

Em novembro de 2014 escrevi aqui no Brasil Post sobre uma declaração de Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, sobre sua atuação política: "Decidimos qualquer eleição", ele disse.

Reitero o que disse àquele momento: é uma expressão exagerada. Porém, no cenário político atual, onde os movimentos conservadores vêm se evidenciando como cada vez mais fortes, além de terem se mostrado bem mais vitoriosos nas urnas do que no último pleito, as Igrejas, principalmente as de orientação protestante, vieram a ser, se não decisivas, muito relevantes no processo eleitoral.

O número de evangélicos no Brasil cresceu 61% em 10 anos de acordo com o Censo de 2010, com fortes tendências de se confirmar essa crescente no Censo 2020. A expectativa é que o número de evangélicos passe o de católicos antes de 2040. No mais, somos uma nação que, quantitativamente, é religiosa, independente de qual forma essa religião é comungada. É assim que boa parte da nossa população vive e se organiza e, nas classes em situação de vulnerabilidade social, é a primeira e às vezes a única instituição de apoio mútuo, solidário, genuíno e sistemático entre membros de uma comunidade.

Dessa forma, as instituições religiosas no Brasil são responsáveis por criar e manter uma rede de solidariedade e de mobilidade social que compete e, muitas vezes, supera o poder do Estado como um agente transformador da vida cotidiana.

Mesmo assim, a imagem que é moldada e vendida pelas classes mais abastadas, com o reforço de meios de comunicação hegemônicos, é a das instituições religiosas, principalmente as evangélicas, como a matriz principal da alienação do povo, ignorando completamente essa rede de solidariedade e superação na qual os membros de uma comunidade religiosa se debruçam e se motivam a seguir em frente, gerando mudanças estruturais em suas vidas. E disseminam os escândalos de corrupção e má-fé de alguns atores religiosos como sendo algo global e inerente a qualquer religião. Um sintoma sutil de intolerância religiosa.

Nas últimas eleições foi possível perceber o passo natural dessas instituições: disputar, democraticamente, as agendas políticas, por meio de candidaturas aos mais diversos cargos públicos. Nas eleições municipais de 2016, por exemplo, foram 250 candidatos, só nas capitais, que colocaram suas denominações religiosas nas candidaturas. Missionários, pastores, bispos, presbíteros, apóstolos. O que antes era ofuscado devido ao medo de se misturar política com religião, nesta eleição não foi um grande problema.

Nas eleições municipais para Prefeito do Rio de Janeiro, temos um candidato que não esconde seu passado de bispo mas sofre com o estigma dessa imagem: Marcelo Crivella (PRB). Desde o primeiro turno, boa parte de seus adversários o atacavam pela sua denominação religiosa (além do apoio escuso de Anthony Garotinho, persona non grata na política carioca). Insinuam que seu tio, o Bispo Macedo, dono da poderosa Igreja Universal e da Rede Record, seria o verdadeiro governante e ditaria os rumos da política na cidade.

Somado a isso, os eleitores de seus adversários, historicamente, ao associarem a imagem de Crivella à Igreja Universal, a qual seu líder possui diversas acusações de corrupção em suas práticas, também associam seus potenciais eleitores como alienados e coniventes com a corrupção, numa tentativa eleitoreira de constranger o voto de seus oponentes para se sagrarem vencedores na disputa eleitoral.

E do outro lado da disputa está o PSOL que, recentemente, se envolveu em dois escândalos por conta de atitudes antissemitas de um de seus candidatos a vereador no Rio de Janeiro, Babá, ao queimar em público a bandeira de Israel e de um texto antissemita da Corrente Socialista dos Trabalhadores (CST), uma vertente do PSOL. Ambos casos inaceitáveis de intolerância religiosa que receberam apenas o silêncio e o esquecimento da mesma militância que acusa a igreja de ser alienadora. No mínimo contraditório.

De fato a coisa pública tem diversos pontos conflitantes com algumas agendas de políticos assumidamente religiosos: questões como a descriminalização do aborto, que deveria ser tratada como caso de saúde pública e todos os indicadores mundiais mostram que a criminalização não é uma solução, são ferrenhamente combatidas, gerando um atraso descomunal na política brasileira. Mas reduzir o valor e a importância das igrejas na vida dos cidadãos a ação de uma dezena de políticos fundamentalistas é igualmente um retrocesso pois fere o princípio democrático de convivência política entre os diferentes. E o fascismo no século XX já nos provou que intolerância e reducionismo não combinam com a democracia.

Este é o trabalho mais valioso da igreja: colocar em comunhão e em pé de igualdade e solidariedade pessoas de origens e vivências muito diferentes entre si. Este trabalho de base feito pelas igrejas é muito valioso para o fortalecimento da democracia e vai muito além dos fundamentalistas religiosos que hoje estão no poder. Vale termos a cautela e o espírito democrático para avaliar caso a caso e de não manchar a imagem de um ou outro político pelo seu histórico religioso, apenas por motivos estritamente eleitoreiros.

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