OPINIÃO
26/05/2015 19:06 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

A nova geração de fotógrafos brasileiros que exploram o fetiche [+18]

Continuamos, no mainstream, classificando o fetichismo nos tempos atuais como "uma força, uma propriedade sobrenatural do objeto e consequentemente, um potencial mágico semelhante no sujeito" de acordo com a definição de Jean Baudrillard.

Nessa definição, absolutamente qualquer coisa tornou-se passível de ser fetichizada. O que pode tornar-se um fetiche nos dias de hoje comporta uma noção culturalmente moldada e particularmente transmitida pelos meios de comunicação: moda, indústria cultural e pornografia, que vendem conceitos de beleza e erotismo e, muitas vezes, são capazes de produzir gostos e práticas em determinados contextos. A próposito disso, e talvez por justamente estar com sua cadeira cativa no mercado, a noção de fetichismo perdeu um pouco do caráter perverso que possuía anteriormente. No senso comum, um fetiche significa apenas uma fantasia sexual capaz de estimular o desejo, construindo noções de pseudoerotismo e sexualidades dissimuladas.

Jan Saudek, Witkin, Helmut Newton, Elmer Batters, Eric Kroll, Ellen von Unwerth, Robert Mapplethorpe, Doris Kloster entre outros, são clássicos e representantes dessa onda. E pelas fotografias dos grandes clássicos, você vai notar que o fetiche na fotografia é MUITO mais que capturar um nu, ou uma menina freak pelada, o que muitos oficiosos da fotografia juram ser o único tema relevante - por pura ignorância ou estrelismo.

Mas o que tenho notado é que a dinâmica da fotografia que contém esses elementos fetichistas mudou radicalmente com a internet, revolucionando até o mercado e, principalmente, se desvencilhando dele pra se legitimar. Se antes a produção seguia um percurso praticamente editorial e mercadológico, passando por diversas leituras, ajustes, adaptação a determinados públicos, hoje as fotos saem direto dos seus produtores ao público, sem passar por filtros normalizantes e fazendo o observador tomar contato direto com a obra do fotografo - e, consequentemente, com seu fetiche pela imagem.

Acho que é importante esse movimento pra desmistificar a obra e vincular o autor diretamente ao seu público, sem passar por filtros normalizadores, disciplinadores e mercadológicos old style.

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Vou começar pelos brasileiros de diferentes estéticas, meios de produção e que não se importaram em dividir um artigo com outros artistas que destoam da sua visão de mundo pela objetiva. A arte contemporânea dita multireferência, um caracter que transgride a cultura e a editoração de mercado. Ser exclusivista e não se misturar é old fashion mas respeitamos: é uma opção. A cena atual torna o bizarro um elemento hipnotizador, o "sentido-desconhecido" que atrai seu olhar, gerando repulsa e magnetismo, o ponto indefinido entre o belo e o repulsivo.

Nada como ultrapassarmos essa dualidade bonito-feio e nos permitirmos contemplação artística neutra, sem uma estética disciplinadora e muitas vezes moralista. Sinta-se livre pra sentir o que quiser!

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Raul Krebs

Raul Krebs é fotógrafo brasileiro que apresenta um portfólio eclético, atuando em diversas áreas da fotografia, baseado numa pesquisa incansavel de estéticas e linguagens. O tema fetiche surgiu no início de sua trajetória e segue até hoje como uma de suas principais referências estéticas. Mesmo em seu trabalho de moda, mais comercial, o tema fetiche (e suas variáveis - como voyeurismo e bondage) é bastante perceptível. Desde o início de sua carreira, nunca deixou de desenvolver projetos pessoais, mesclando suportes e utilizando-se da fotografia convencional, digital, pinhole, lomografia, Polaroid e experimentalismos diversos, tanto em técnica quanto em plasticidade. Mais aqui.

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Wandeclayt

Um dos fotógrafos mais tradicionais dessa vertente no Brasil, traz influências da ficção científica, cyberpunk, da música gótica e industrial e e da iconografia da cultura pop. Wandeclayt migrou do desenho para a fotografia e há 10 anos tem dedicado seu olhar a registrar a nudez e o fetiche com sua visão transgressora e iconoclasta. Agressividade e sutileza dialogam entre si, mas para o fotógrafo a conclusão é sempre a mesma: "uma imagem vale por mil palavras, mas sua safeword pode valer por mil imagens!" Mais aqui.

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Fabio Stachi

Para Fabio, o fetiche está na própria imagem e composição dela. Com o trabalho centrado na emoção humana, Stachi busca a íntima relação da dialética corpórea como meio de expressão da arte em que a carne manifesta as linguagens de um corpo aflito, ambivalente... conflituoso. Influenciado pela luz e sombra de Caravaggio, pela sensualidade da figura feminina nos quadros de Pino Daeni e a ousadia das fotos de Jan Saudek, o trabalho de Stachi convida para um diálogo com a inquietude humana, carregado de sentimentos e provocações. Não se prende a regras e conceitos estéticos, a cada trabalho desafia a si mesmo com os processos que envolvem suas descobertas artísticas. Apresenta a imagem como um fluxo de vida contínua e com um olhar qualificado investe incansavelmente no pensamento do impensado. Mais aqui.

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Elder Espolador

Sagitariano, assim ele começa se definindo. Metade animal, metade ideal. Depois da descoberta de um câncer e da decisão de abandonar um emprego "escravidão estavel" - segundo suas próprias palavras - manifesta seu prazer com um registro de performance cru e violento. Busca nas suas imagens o impacto visual, que em primeiro plano gera um questionamento interno, inevitável, desde o asco à ternura, do amor ao ódio. Com um trabalho altamente experimental, usa mecanismos e ferramentas do bdsm, fetiche, S&M e cria vivências individuais ou grupais que vão alem das doutrinas e liturgias usadas por esses círculos.

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Luiza Só

Para Luiza, arte e fetiche se confundem: o exibicionismo não é nada narcisista, mas uma entrega sem barreiras e uma forma de relacionamento com seu público, revelando nas suas selfies seu carater submisso à beleza e a arte. Natural de Neilândia, atualmente vive nômade. Artista multimídia, vive se experimentando, também em fotografia e criação de imagens. Recentemente resolveu pôr a cara no sol e revelar seu exibicionismo em selfies, no projeto SELFIEUZINHO. Através da página, vende fotos exclusivas para fetichistas criativos, com quem desenvolve a ideia da foto e depois a envia pelo correio. Mais material dela em aqui.

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Alexandre Medeiros

Um dos fundadores do coletivo Queer Fiction, cineasta, pornoterrorista, explora a fotografia com os recursos que possui. Hoje fotógrafo profissional, realiza desde ensaios com grandes artrizes e atores pornô até explorações de temas como a morte, conflito e inserções na natureza em suas formas mais bizarras, látex, podolatria, e principalmente, transgressão das normas ocidentais de sexualidade.

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Dommenique Luxor

Falando um pouco do meu trabalho, as minhas imagens sempre são fetichistas. Inicialmente pensando num lado comercial (veiculação da profissão de Dominatrix no Brasil), hoje passo por um processo de desconstrução do personagem e da exploração da dualidade dominante-dominado, além de explorar a base material (foto) como sendo ela mesma um elemento independente, passível de fetichização. Trabalhando com a produção, figurino, conceito, personagem e roteiro, sempre faço parcerias com fotógrafos que acreditem na foto como a materialização de uma momento performático. Meu último trabalho foi uma parceria com Angelo Bonini (foto acima), que se permitiu adentrar esse mundo e explorar um pouco mais esses elementos. O atual material está no site.

Como vocês notaram, fotografia envolve muitos elementos, inclusive fetiche. E fetiche não é apenas nu, sexo, práticas bdsm e etc. A parte não define o todo (entendedores entenderão :)

Comentem, citem mais fotógrafos brasileiros, critiquem. Em breve vem a parte 2, onde eu vou fazer uma curadoria com Tiago Fioravante de fotógrafos estrangeiros contemporâneos. E tu vai ver que os nossos não devem nada pra eles!