OPINIÃO
19/03/2014 12:28 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

O caso Cláudia Ferreira e o Brasil visto pelo twitter da Presidente

Supondo que Dilma, de fato, foi ao Twitter com sinceridade expressar a dor, o sentimento de indignação do povo brasileiro. Que atitudes teriam de ser seguidas ao seu gesto?

Às 10h25 da manhã desta terça-feira, 18, a Presidente Dilma Rousseff foi ao seu computador, ou tablet, ou iPad, ou o que seja, e postou no seu twitter:

Às 10h26, um minuto depois, retornou:

E finalmente, às 10h27, reagiu:

Cenas gravadas por um cinegrafista amador disponível nas redes sociais, de fato, são muito chocantes pela brutalidade crua, mas, sobretudo, por exibirem o desprezo absoluto pela vida, a forma como pobres e negros são históricamente tratados. Ou alguém acha que jogar no porta-malas de uma viatura um ser humano ferido agonizando, não tem a ver com a condição sóciorracial de Cláudia? A pobre mulher que havia saído para comprar pão na padaria da esquina, já teria chegado morta ao Hospital.

Longe de mim, colocar em dúvida a sensibilidade da Presidente. As cenas só não impressionam aqueles que já perderam qualquer senso de humanidade.

Mas, alguém consegue imaginar que Dilma Rousseff tenha parado para, em três minutos, postar nessa ordem cronológica no seu twitter as mensagens acima?

Claro que não. E também é claro que tais mensagens foram postadas pelo assessor encarregado dessa tarefa, o que acontece não apenas no mundo da Dilma, como também no seleto mundo dos membros da governança mundial - de Obama a Putin, passando pela chanceler alemã Angela Merkel.

Essa é uma das facetas mais cruéis do modelo de democracia representativa dominado pela marquetagem, e que passou a ser questionado, inclusive, entre nós, desde as manifestações de junho do ano passado. As pessoas não confiam nos governantes, não confiam nos sistemas de poder e de representação porque se tornou senso comum de que não falam a verdade. Nunca!

A política se tornou um jogo perverso de cena e os seus personagens, atores, que têm - ainda que eleitos - uma única e exclusiva preocupação: se manterem onde estão, ainda que a custa de mentiras, truques e trapaças.

Mas há exceções, dirão alguns. Claro que há. Mas as exceções existem precisamente para isso: confirmar a regra, convém lembrar.

Tudo, inclusive, os governos e a forma como exercem o poder, virou "fake", para usar uma palavrinha da moda. O cidadão comum sabe como essa governança se exerce, como se sustenta e também sabe que tais frases não saíram do sentimento nem do coração de Dilma, mas de quem por ela escreveu, com essa função: a de demonstrar um gesto de humanidade que soa simpático, que torna o poder mais próximo de nós e rende votos.

Só que é exatamente esse modelo que está em crise. As pessoas não acreditam mais nessa humanidade forjada pelo marketing, que é, de fato, quem dita as ações políticas e até o modo de se comportar em público, o tipo de roupa, ou o modo de falar dos governantes. Humanos não são assim programados, nem programáveis, sabe Dilma e sabemos todos nós.

Mas, supondo - e apenas supondo - que Dilma, de fato, tenha nesses três minutos interrompido as reuniões no Palácio com assessores para discutir a crise com o PMDB e resolvido com sinceridade expressar a dor, o sentimento de indignação do povo brasileiro. Que atitudes teriam de ser seguidas ao seu gesto?

Como é a Presidente da República em um sistema em que o chefe do Poder Executivo não pode tudo, mas pode muito, a primeira coisa a fazer seria chamar o governador Sérgio Cabral, seu aliado do PMDB do Rio, para anunciar que o Estado sofreria intervenção até que fossem esclarecidos o caso da mais recente vítima da polícia carioca e o aparecimento dos restos mortais do pedreiro Amarildo, morto sob tortura na UPP da Rocinha, por policiais que, aliás, estão presos.

Embora o regime seja federativo e os estados tenham autonomia, a própria Constituição prevê os casos de intervenção federal. Aliás, foi a própria Dilma quem sancionou, em dezembro de 2011, a Lei 12.562 regulamentando o pedido de intervenção federal nos Estados e no Distrito Federal.

As hipóteses para intervenção estão todas presentes, porque entre elas, se encontra a garantia dos princípios constitucionais como respeito ao Estado Democrático de Direito e a defesa dos direitos humanos, gravemente violados nos dois episódios que, na verdade, são só dois exemplos das centenas, quem sabe, milhares que ocorrem à luz do dia.

Como isso não vai acontecer, como todos sabemos, conclui-se que estamos diante de mais um gesto - por sinal, terceirizado - para atender ao modelo marqueteiro de governo que já nem se preocupa em perder os anéis para preservar os dedos, como no passado se dizia em tempos de crise.

Dedos e anéis agora não entram nessa contabilidade porque o grau de prepotência do Estado brasileiro - que historicamente trata negros e pobres como lixo, a serem carregados, transportados em caçambas e ou porta-malas, mesmo que feridos e agonizando - é tamanho, que não ocorre aos governantes que estão cotidianamente plantando as sementes do ódio e da revolta e que essa semente não se planta impunemente: um dia haverá de crescer e dar frutos.

Ou alguém pode achar que os filhos dessa pobre mulher - todas negras como se vê - crescerão com algum sentimento, senão o de raiva e de revolta contra um Estado que lhes nega a dignidade que procuram preservar à duras penas, que não lhes reconhece sequer a condição de humanos?

Agora, o que buscam os governos, simplesmente, é salvar as aparências, ou ao menos lustrá-las e vestirem-se de uma "humanidade fake" que vê a realidade por meio do twitter e que não resiste a dois minutos da postagem.

LEIA MAIS:

Que se fale mais em Cláudia, e não menos em Santiago