OPINIÃO
14/07/2014 10:34 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Fora Felipão! Fora Parreira! Fora Del Nero e Marin!

O vexame foi a expressão da falência das estruturas arcaicas e corruptas que mandam no esporte mais popular do Brasil. A CBF, associada à FIFA, tornou-se uma espécie de Estado dentro do Estado, inclusive assumindo prerrogativas e soberania próprias de um Estado.

FABRICE COFFRINI via Getty Images
Brazil's coach Luiz Felipe Scolari reacts during the third place play-off football match between Brazil and Netherlands during the 2014 FIFA World Cup at the National Stadium in Brasilia on July 12, 2014. AFP PHOTO / FABRICE COFFRINI (Photo credit should read FABRICE COFFRINI/AFP/Getty Images)

Neste Brasil de injustiças e desigualdades, em que as classes dominantes há séculos se apegam aos privilégios para manter as estruturas arcaicas que explicam a desigualdade - e se negam a completar a Abolição não concluída para o verdadeiro ajuste de contas com a herança maldita de quase quatro séculos de escravidão -, o futebol, para além de ser uma possibilidade de ascensão social para os negros, é também fator de unidade e identidade nacional.

Pois é exatamente esse sentido de identidade e orgulho nacional - fundamental para a afirmação da autoestima dos que não tem nada a não ser esse sentido de pertencimento que se torna um quase consenso a cada quatro anos por ocasião da Copa do Mundo da FIFA - que foi gravemente atingido na semana que passou.

A derrota por 7 a 1 nas semifinais para a Alemanha, no "mineiraço" (ou "vergonhaço", como alguns já chamam o desastre) não foi uma derrota qualquer. É inédito em toda a história do futebol brasileiro desde que os primeiros negros e operários passaram a praticar o esporte trazido por Charles Miller, um paulista filho de ingleses, no início do século 20.

De esporte praticado pelas elites, como é hoje o tênis, por exemplo, o futebol, desde os tempos do amadorismo até os dias de hoje, foi mais do que um esporte: se tornou uma paixão nacional, mas também e, principalmente, um espaço de ascensão para a população negra, excluída de todos os demais espaços.

Não foi simples, nem rápida a ascensão negra no esporte bretão. Foi longa a luta, sempre marcada pelo racismo. Nenhum dos que hoje reconhecemos como ídolos - inclusive os maiores - escapou do estigma: Frienderich, Leônidas da Silva, Domingos da Guia, Barbosa, Bigode, Pelé.

Barbosa, por ter sido responsabilizado na década de 50 pela derrota para o Uruguai em que perdemos, em pleno Maracanã, uma Copa cuja conquista era dada como certa, cumpriu uma "pena" que só se extinguiu com sua morte. "A pena máxima para um crime no Brasil é de 30 anos. Eu pago por aquele gol há 50", costumava comentar Barbosa com amigos, referindo-se ao segundo gol do Uruguai marcado por Ghighia.

Morreu triste, amargurado, esquecido e pobre, em Praia Grande, na Baixada Santista, em 2000.

Mas, a derrota de 50 - em um Brasil muito diferente, em que jamais tínhamos conquistado o título mundial - não se compara, nem de longe, ao vexame do Mineirão do dia 8 de julho.

O vexame foi a expressão da falência das estruturas arcaicas e corruptas que mandam no esporte mais popular do Brasil - com a conivência e a cumplicidade de todos os governos e governantes. A CBF associada à entidade mundial que manda no futebol mundial - a FIFA - tornou-se uma espécie de Estado dentro do Estado, inclusive assumindo prerrogativas e soberania próprias de um Estado.

Foi isso que desmoronou no Mineirão, sob os olhos assustados de atletas consagrados mundialmente, mas transformados pela Comissão Técnica da CBF e seus dirigentes em moleques assustados, chorosos sem nenhuma razão aparente, desfilando as emoções baratas da "patria em chuteiras", sob a cobertura do maior e jamais visto aparato de marketing e de propaganda, a cada hora necessitados da assistência e do apoio de uma psicóloga.

Apresentados como favoritos ao título pela própria Comissão Técnica, a seleção brasileira jamais convenceu, mesmo quando ganhou com folga como na partida contra Camarões. Futebol medíocre, esquema tático confuso, sobreviveu nas vitórias com o brilho e o talento de Neymar.

Lesionado, o jogador do Barcelona (ex-Santos) foi cercado pela mais competente operação de marketing, transformado em mártir nacional, a ponto de ter sua camisa estendida para a multidão no estádio pelo capitão David Luiz, quando o time brasileiro, perfilado, cantava o hino nacional. Prometiam jogar por si e pelo herói caído. Foi o que fizeram: impossibilitado Neymar de entrar em campo, o time também se ausentou durante os 90 minutos do jogo.

Porém, o que vem mais chamando a atenção nos dias que se seguiram ao "vergonhaço", inclusive da crônica esportiva mais atenta e mais independente, é a desfaçatez com que a a sua comissão técnica - liderada por Felipão e Carlos Alberto Parreira - tenta se manter no cargo, e opera para fazer com que o povo brasileiro esqueça a vergonha que a todos impuseram.

Primeiro, o técnico responsável pelo fracasso histórico, justificou que o time fora alvo de um "apagão" ao tomar quatro gols no espaço de seis minutos. Ora, ocorre que o resultado não foi de 10 a zero, porque os alemães num gesto de elegância (ou de piedade), desaceleraram, evitando constrangimento ainda maior a seleção dona da casa.

A única atitude decente, digna, de Felipão e do seu auxiliar técnico, bem como de toda a equipe que os acompanha, era uma só: renunciar ao cargo, logo após a partida, inclusive, porque a disputa do terceiro lugar contra a Holanda marcada para a tarde deste sábado (12/07), não tem peso, valor nem importância. Tanto faz o resultado.

Nada apagará a imagem da maior humilhação sofrida pelo Brasil em toda a sua gloriosa história no futebol. Porém, esperar atitudes decentes, dignas de pessoas que são fruto de uma estrutura milionária, arcaica e corrupta como a CBF é muito.

Já que não tomam tal iniciativa, cabe a nós pedí-la, também à plenos pulmões, com a mesma energia com que os jogadores entoavam assustados o Hino nacional à capela antes do pontapé inicial de cada partida.

Depois da vergonha dos 7 a 1 o Brasil tem o direito de resgatar sua história no futebol para que não sejamos obrigados à humilhação e a vergonha como as ocorridas no Mineirão.

Afinal, ao povo brasileiro, em especial pobres e negros, bastam as humilhações e vergonhas que passamos todos os dias com a falta de educação, de saúde, de segurança, com serviços públicos e privados despudoramente caros, precários e de baixíssimo nível.

Fora Felipão! Fora Parreira! Fora Marin e Del Nero!

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