OPINIÃO
31/03/2014 11:05 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:16 -02

50 anos do golpe: luta contra ditadura teve forte presença negra

Ao contrário da crença de uma parte da esquerda de que a oposição ao golpe militar no Brasil se limitou a setores da classe média branca das cidades, a presença negra no movimento de combate ao regime foi expressiva.

Reprodução

Ao contrário da crença de uma parte da esquerda de que a oposição ao golpe militar no Brasil se limitou a setores da classe média branca das cidades, a presença negra no movimento de combate ao regime foi expressiva, segundo reconhecem hoje historiadores, ex-presos políticos e militantes ativos na resistência armada à ditadura.

Segundo Ivan Seixas, ex-preso político e assessor da Comissão Estadual da Verdade "Rubens Paiva", criada pela Assembléia Legislativa de São Paulo, a participação de mulheres e homens negros na resistência deve ser lembrada e reverenciada.

"A participação de homens e mulheres negros foi absolutamente importante dentro da resistência. A quantidade não é o mais importante, mas a qualidade. São pessoas que tiveram um destaque muito grande na luta. São pessoas que a gente deve reverenciar de uma forma muito presente", afirma Seixas, torturado junto com o pai Joaquim Seixas no DOI-CODI de S. Paulo.

Ambos militavam no Movimento Revolucionário Tiradentes, organização clandestina de luta armada contra o regime, e Joaquim foi morto no local - considerado hoje um centro de extermínio da polícia política.

Segundo Ivan cerca de 10% das pessoas até hoje desaparecidas eram negras, assim como 11% eram mulheres. "O mito de que foram só brancos os que lutaram é uma grande bobagem. Negros, japoneses, descendentes de árabes se destacaram no combate. Os negros tem de ter muito orgulho disso", acrescenta.

Mas, no momento em que o golpe completa 50 anos, que importância tem saber a cor de quem resistiu e foi protagonista em um acontecimento central para se entender o Brasil de hoje? "Toda a importância", respondem analistas desse período e ativistas comprometidos com o debate sobre a necessidade de mudanças estruturais no país.

Primeiro, dizem esses analistas, é preciso lembrar que o país, também ao contrário do imaginário construído pelas elites dominantes, é majoritariamente negro. Sempre foi, mas, oficialmente, desde o Censo do IBGE 2010 quando, pela primeira vez desde a realização do primeiro Censo, em 1.872, se declarou que 50,7% da população é preta e parda.

Segundo, porque em um país tão carente de heróis e com uma juventude negra que cresce sem referências é fundamental recuperá-las em todas as áreas - inclusive na luta política contra a ditadura militar - para a afirmação de nossa identidade.

Terceiro porque a esquerda brasileira, especialmente a esquerda armada, de matriz marxista ortodoxa, nunca considerou a herança maldita de quase 400 anos de escravidão e o fato de o Brasil ter sido o último país do mundo a aboli-la, bem como a exclusão histórica da população negra, um fato determinante nas suas análises e ações, situação que perdura, inclusive hoje, nos partidos autoproclamados de esquerda.

Marighella e Oswaldão

Seixas destaca o papel de Carlos Marighella, da Aliança Libertadora Nacional (ALN), dirigente máximo da organização mais ativa da guerrilha e considerado o inimigo número 1 do regime militar, morto em novembro de 1.969. Marighella, baiano de Salvador, era filho de um imigrante italiano e de uma negra descendente de escravizados.

Outro nome destacado da resistência negra foi Osvaldo Orlando da Costa, "Oswaldão", comandante militar no do Araguaia, morto em 1.974, no Araguaia, que se tornou uma figura mítica da guerrilha.

Marco Antonio Silva, liderança da Associação dos Marinheiros, Itaí José Veloso, Luiz José da Cunha, o "Comandante Crioulo", comandante militar da ALN, ao lado de Helenira Resende de Souza Nazareth - a "Preta Helenira", Ieda Santos Delgado e Alceri Maria Gomes da Silva, gaúcha de Cachoeira do Sul, e militante da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), são outros nomes que constam do Dossiê Direito à Memória e à Verdade, dedicado "aos descendentes de homens e mulheres que cruzaram o oceano a bordo de navios negreiros e foram mortos na luta conta o regime militar", editado pela Secretaria Nacional de Direitos Humanos e pela SEPPIR, em 2.0009.

No caso de "Crioulo", 33 anos após ser morto pelos órgãos de repressão em 1.973, sua ossada foi exumada do cemitério Dom Bosco, em Perus. Seu atestado de óbito dizia ter cor branca, o que foi posteriormente corrigido, após alerta feito ao Ministério Público Federal, responsável pela identificação. Em 2006 foi sepultado no Cemitério Parque das Flores, em Recife.

Momento especial

Segundo Ivan, o Brasil vive hoje um momento muito especial. "Nós já ganhamos a batalha da comunicação. Eles não tem como defender o golpe. No Brasil inteiro mobilizaram mil pessoas nessa versão da Marcha da Família, só em S. Paulo, a marcha antifascista reuniu mais gente. Eles não tem mais condições de defender o golpe", acrescenta.

Ele ressalta que o trabalho da Comissão da Verdade - que em São Paulo é presidida pelo deputado Adriano Diogo - reforçou a necessidade de punição aos torturadores.