OPINIÃO
29/06/2014 10:21 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:46 -02

7 pontos para aproveitar a Copa sem remorso

Fuja do senso comum, use argumentos realistas para criticar a Copa e entenda que existem sim bons argumentos a favor dela.

PhotoAlto via Getty Images

A Copa do Mundo está aí, a primeira fase já acabou, os jogos estão cada vez mais emocionantes, mas ainda assim você se sente mal por torcer pelo Brasil depois de tanta propaganda negativa. É preciso ser contra a Copa para ser a favor do Brasil? Os sete pontos abaixo podem nos ajudar a fugir desse dilema.

1. Primeiramente vamos fazer um exercício de imaginação: e se a Copa não fosse no Brasil? Copa do Mundo e futebol são iguais ao carnaval, muita gente odeia. "Futebol é o ópio do povo", "pão e circo", etc. Mesmo se a Copa estivesse acontecendo no Iraque ia ter muita gente criticando e acusando o governo de usar a Copa para fugir das responsabilidades, o que acontece muitas vezes, precisamos reconhecer, principalmente se lembrarmos de 1970. Mas o grande problema das pessoas que odeiam o futebol é que elas tendem a demonizar o esporte. Para elas quem gosta de futebol é alienado, analfabeto, estúpido, etc. Puro preconceito. Obviamente é possível ser apaixonado por futebol e ser consciente do seu papel na sociedade, ser politizado, bem informado e engajado nas temáticas sócio-econômicas do Brasil.

2.É preciso estar ciente dos números e dos fatos. Há vários gráficos e tabelas (como este da Folha) que explicam que os gastos para a realização da Copa são equivalentes aos gastos do governo com a educação em um mês. Ou seja, não é tão exorbitante quanto muita gente pensa. Se deve reconhecer que a educação e a saúde são setores muito debilitados no Brasil e precisam de recursos, mas é preciso entender que os recursos destinados à Copa não trariam mudanças significativas nesses setores. Se gasta 280 bilhões de reais por ano com educação no Brasil, a Copa custará 26 bilhões.

3.O PT governa o país e muita gente detesta o PT. O motivo? Uma incógnita. E não se pode aceitar a resposta "por causa da corrupção". Um ranking divulgado em fevereito mostra que DEM, PMDB, PSDM e PP são muitas vezes mais corruptos que o PT (como descrito aqui). As realizações do PT durante os governos Lula e Dilma foram inúmeras, não se pode negar, a miséria, o desemprego e a desigualdade social diminuiram muito no Brasil desde o início do governo Lula. As classes mais favorecidas já não se enxergam como prioridade e isso talvez explique o fato de que os gritos de "Ei, Dilma, vai tomar no..." no jogo Brasil e Croácia na abertura da Copa se iniciaram na área VIP do estádio Itaquerão (como explicado aqui), área onde os ingressos custaram R$ 990,00. Se trata da elite do país preocupada em perder seu posto de classe mais favorecida.

4. Um outro setor da sociedade muito irritado com o governo Dilma (e com o PT como um todo, além de outros partidos) é a esquerda mais radical. É o grupo que organiza manifestações não só contra a Copa, mas contra muitos outros problemas do país, que nem sempre são responsabilidade do governo federal. Por isso as manifestações também têm focado no governo Eduardo Paes, no Rio, e no governo Geraldo Alckmin, em São Paulo. Também são esses os manifestantes que lutam contra a truculência da polícia militar que tem se mostrado cada vez mais violenta e mais autoritária. Não se deve confundir, no entando, tais manifestantes com aqueles que compõem a elite, citados no ponto 3. Esses manifestantes procuram não dirigir todas as críticas ao PT, mas também à FIFA, o que nos leva ao próximo ponto.

5. A FIFA teve um papel determinante para o funcionamento da Copa no Brasil e o recente vídeo do comediante e ator britânico John Oliver (que pode ser encontrado aqui) ajuda a explicitar todo o processo. Mergulhada em denuncias de corrupção e com a credibilidade muito desgastada, a FIFA é reconhecida por um papel dúbio na promoção do esporte através do mundo. A grande questão é: a FIFA domina o futebol mundial e o Brasil tem um caso de amor eterno com o mesmo, como ser amante do futebol e não colaborar com as atrocidades da FIFA? Não parece existir uma resposta imediata para tal questão, mas talvez a Copa no Brasil ajude a mudar esse cenário problemático, pois ela está sendo responsável por trazer questão da FIFA para o debate.

6. O ambíguo e perigoso papel da mídia precisa ser levado em consideração para entender todo o contexto da Copa do Mundo. A Rede Globo, por exemplo, detém os direitos de transmissão da Copa e certamente quer que os brasileiros assistam os jogos e torçam pelo Brasil. Ao mesmo tempo se conhece a história polítca da emissora que no ano passado se aproveitou das manifestações em massa mudando seu discurso, que no início criticava duramente os manifestantes (ou "vândalos"), mas que depois, quando descobriu o potencial político que os protestos teriam contra o governo Dilma, diminuiu o tom. O mesmo discurso dúbio aparece na revista Veja, que faz uma cobertura completa da Copa e da Seleção Brasileira, mas sempre inserindo críticas ao governo, tentando agradar os que vaiam a Dilma (a elite do ponto 3) e ao mesmo tempo criticando os "vândalos" (manifestates do ponto 4).

7. A Copa do Mundo de futebol é um evento importante, um dos maiores eventos esportivos do planeta e que traz sempre uma grande visibilidade ao país sede do evento. O que o Brasil ganha com isso? Bastante coisa. O Brasil busca se inserir no sistema internacional há algum tempo, tentando alcançar o status de potência regional e com influência em assuntos globais. Do ponto de vista das relações internacionais, o Brasil faz isso se utilizando do soft power, ou seja, promovendo suas ações de forma diplomática na tentativa de obter relações amistosas com outros países aumentando seu poder de influência. Muitas vezes o esporte é um forte aliado na relação entre países, como foi no Jogo da Paz entre Brasil e Haiti, em 2004. Desta forma, sediar a Copa do Mundo e as Olimpíadas num espaço de dois anos é uma oportunidade única para o Brasil se firmar no cenário internacional ganhando um destaque importante que trará resultados em outros setores, como o do turismo.

O que podemos concluir com tudo isso? O Brasil é um país com diversos problemas, sim. Mas não devemos baixar a cabeça e deixar a famosa síndrome de vira-lata tomar conta. Esse papo de "isso só acontece no Brasil" é prejudicial à todos. Há muito países com problemas, os Estados Unidos têm 30 milhões de miseráveis, muito sem ter onde morar, assim como a população rural de países como a Rússia e a China vivem muito pior que a do Brasil, sem falar do desemprego exorbitante na Europa onde a crise tem feito trabalhadores perderem benefícios como o décimo terceiro salário.

A Copa está acontecendo e não, ela não retirou recursos da saúde e da educação. Houve problemas na execução das obras? Sim, pessoas que habitavam moradias irregulares em áreas dos estádios foram expulsas e não tiveram onde morar, da mesma forma que em 2012, mesmo sem Copa, 9 mil moradores foram expulsos violentamente do Pinheirinho, em São José dos Campos, para reintegração de posse, mas a mídia não noticiou. Há motivos para criticar a Copa? Sim, muitos, principalmente o papel da FIFA. O mais importante é saber seus motivos. Critique a Copa, mas entenda o porquê. Não repita discursos do Jornal Nacional ou da foto compartilhada no Facebook. Se informe procure entender o que acontece no país como um todo. Conheça o contexto histórico do Brasil e como as elites nacionais e internacionais não têm nenhum interesse em aumentar recursos públicos para a saúde e a educação.

Fuja do senso comum, use argumentos realistas para criticar a Copa e entenda que existem sim bons argumentos a favor dela. Acima de tudo, não acredite que quem pagou R$ 990,00 reais para assistir a um jogo do Brasil vaiou a Dilma porque não tem creche pra deixar os seus filhos. E principalmente, não deixe de gostar de futebol só porque virou moda torcer contra a Copa.

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