OPINIÃO
17/05/2015 12:51 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Preta Gil e a comodificação transmidiática de absolutamente tudo

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Em um ensaio para o New York Times, o crítico Ben Brantley expressou recentemente um luto que a ubiquidade digital faz surgir com o fim das estrelas midiáticas que reinavam pelo mistério. Greta Garbo, por exemplo, que ao fugir do olhar do público atiçava nele uma curiosidade voraz e mantinha uma espécie de integridade que encontramos nos amantes mais inesquecíveis - os que não se humilham, não nos ligam de volta, não interpelam nosso amor, e mal parecem precisar de um outro. É essa recusa de se deixar devorar pelo olhar do público, uma espécie de ética de auto-suficiência que consegue ultrapassar o narcisismo fácil que as massas demandam que construiu não só as grandes carreiras do entretenimento antes da internet mas a própria força da figura do Pai na psicanálise: quanto mais fisicamente ausente, menos chances Seu mito corre de ser revelado como fraude.

O espetáculo trans-midiático que foi o casamento de Preta Gil funciona como lembrete de que não se fazem mais celebridades como antigamente porque não se fazem fãs como antigamente: as celebridades não nos são impostas, nem aparecem no nosso feed sem serem colocadas ali. Mesmo aquelas que devem sua fama à seu pedigree já não mais tratam suas heranças com a dignidade que reconhecemos em Maria Rita, Moreno Veloso, ou Chelsea Clinton. O casamento de Preta foi uma série de jogadas de marketing que se estenderam por meses na televisão e nas redes sociais. Desde seu chá de panela no programa Estrelas às auto-importantes hashtags em seu Instagram (#Pretavaicasar), e no do noivo, o personal trainer Rodrigo Godoy, que costuma postar fotos de si mesmo malhando na academia (#somostodosGodoy), jogando basquete (#saporratemmola), e dormindo com um cachorrinho chamado Gucci (#Guccifrancês).

Se a fotografia, como acredita a fotógrafa Sally Mann, empobrece a memória, os noivos se lembrarão de muito pouco sobre o evento. Mas terão um extenso arsenal de imagens deixando claro que sua história realmente existiu, mesmo que majoritariamente como re-presentação. Porque o silêncio, e os segredos, parecem ser tão insuportáveis? Preta e seus comparsas, os glitterati globais de talento e engajamento político duvidosos (Angélica, Hulk, Fernanda Souza, Carolina Dieckmann), postaram tanto sobre o casório, não havia espaço para nada mais do que aquilo que foi literalmente exposto. Esse foi um casamento morto, como um corpo pornograficamente aberto, sem roupa, sem sombras, sem mágica, sem intimidade. Sem oportunidade para que o inefável, o indescritível, se desenvolva. Assim foi o casamento de Preta: uma série de printscreens chatos celebrando a comercialização multi-midiática de um encontro não entre pessoas, mas marcas. Nessa epopéia, o noivo parece ser pouco mais do que um figurante, ou um consolo animado, no coup de théâtre à la Kim Kardashian tupiniquim de Preta Gil. O que carrega em si um potencial talvez feminista, certamente desperdiçado pela noiva que se fez levar ao altar por dois homens (pai e filho) aos braços de outro homem para quem ela perderia seu nome.

É curioso como a celebridade contemporânea estende suas demandas existenciais e mercadológicas em dimensões e interfaces tão diferentes (em uma sinergia midiática que Preta, há de se dizer, domina com uma habilidade ímpar), e que ao fazê-la sem qualquer processo seletivo ou auto-crítico, ela na realidade se achata. Uma estrela uni-dimensional ainda é uma estrela, ou um mero recorte de papelão em seu formato? Como à convidada arroz-de-festa que comparece à todo e qualquer evento, deixando absolutamente nada por conta da imaginação, Preta Gil não nos oferece a possibilidade de ser surpreendente, de sentirmos saudade. Não podemos fantasiar sobre como foram os acessórios que Preta usou na cerimônia, ou que palavras os noivos trocaram logo após o sim, nem mesmo em que assentos sentaram no voo para a lua de mel nas Ilhas Maldivas (e Dubai, e Abu Dhabi), pois os noivos se encarregam de marcar tudo e todos com tags que literalizam os jabás de maneira quase Brechtiana. Eles criaram uma conta de Instagram especialmente para o casamento e seu après coup. Nela é possível não só ver a mesa de maquiagens da noiva com hashtags de empresas e marcas contratadas mas assistir ao vídeo em que Godoy pergunta à Preta qual o nome dela depois de casada, e ela revela a enorme extensão de seu novo nome que agora incorpora o nome dele, para gargalhadas orgásmicas, e o gozo machista, dos convidados. É possível também participar de concursos e ganhar prêmios ao seguir este Instagram, como um bateria externa de celular com as iniciais dos noivos!

Talvez o atual zeitgeist digital torne inviável a manutenção de uma fama onde a materialização da estrela inatingível é como o aparecimento de "um fantasma ou uma mariposa-azul fora de temporada," como diz Brantley, e que podemos reconhecer não só em Garbo, mas Brigitte Bardot, Jacqueline Onassis, Michael Jackson até a morte, Madonna antes de ceder ao Instagram, Lady Gaga quando ainda se escondia atrás de máscaras e dentro de ovos, e a Xuxa dos anos 80 e 90, cuja infrequência de entrevistas deu margens à enormes lendas sobre sua Casa Rosa e sua piscina de água de coco (ou era Perrier?) - essenciais para a construção de seu mito. Mas não podemos nos deixar seduzir também por um determinismo tecnológico fácil que coloca a culpa das nossas imbecilidades nas forças exteriores à nossos próprios atos. Se a demanda digital é para que cada passo e muda de roupa se torne combustível mercadológico, mais valor teria as poucas estrelas, e reles mortais, que não se deixassem atropelar por uma indústria homogeneizante (Preta bloqueia todos os seguidores que ousam reclamar que ela posta propaganda de sua linha de esmaltes demais) que consegue confundir fornecimento de conteúdo para o lucro alheio com o prazer narcísico da masturbação.

Por mais que o casamento de Preta Gil tenha "causado" por motivos que, ao contrário de Marcelo Rubens Paiva, ousaremos dizer que o nomes nomes - racismo, sexismo, entre outros - ele também fez surgir críticas importantes à relação orgiásticamente suspeita entre classe artística e política no Brasil. Mesmo que da parte do cruel André Forastieri, que aproveitou a ostentação do evento, ao qual se referiu como "Baile da Ilha Fiscal," para atacar Preta, a pessoa, não a marca, Preta a preta, não a que simplesmente incorpora (com uma sinergia impecável) os preceitos de uma cultura que é de nossa autoria.

O casamento de Preta Gil foi simplesmente a cereja de um bolo que todos nós preparamos todos os dias. Não há nada autêntico em seu exibicionismo. Não vamos entender esse argumento como um moralismo que acha feio a auto-exposição (ela é muito bem vinda quando se faz no nome de algo que a excede). Nem tampouco uma espécie de nostalgia por um tempo onde as estrelas eram mais dignas e multi-dimensionais por se trancarem em suas torres de marfim. Mas precisamente como uma necessidade de uma nova ética da imagem que consiga negociar com as demandas dos novos tempos ao invés de simplesmente se entregar à elas. Uma relação com a imagem com filtro.

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