OPINIÃO
22/12/2015 10:48 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Os 12 melhores filmes de arte de 2015

O maior desafio de qualquer lista de melhores dos anos é o critério a ser adotado: méritos conceituais, técnicos, inovadores? A capacidade de emocionar, de induzir à reflexões sociais?

O maior desafio de qualquer lista de melhores dos anos é o critério a ser adotado: méritos conceituais, técnicos, inovadores? A capacidade de emocionar, de induzir à reflexões sociais?

Quando essa lista se nomeia "filmes de arte" o desafio é ainda maior, pois involve a eterna questão do que podemos contar como "arte"? Neste caso, "filme de arte" é tido mais como uma espécie de gênero, de estética e temporalidade, do que qualquer pretensão de considerar os filmes fora da lista como estando aquém da categoria "arte."

O mais fascinante em 2015 é notar a diversidade de proveniência destes títulos, uma multiplicidade orgânica, sem qualquer tentativa de ação afirmativa preliminar que vise garantir nacionalidades diversas. Os vários cantos do planeta estão aqui representados. Talvez a única coincidência que os una nesta lista seja a capacidade inquestionável de demandar do espectador um engajamento afetivo necessariamente político, e vice-versa.

12. O Botão de Pérola (Chile)

O documentarista Patrício Guzmán conta, essencialmente, toda a história do Chile tendo como âncora conceitual a complicada relação daquele país com a sua mais longa fronteira: o mar. Uma história necro-política, com certeza, na qual o oceano serve de grande fossa coletiva para os corpos dos revolucionários e dos indígenas da Patagônia.

11. O Idiota (Rússia)

Um encanador honesto tenta convencer as autoridades de sua cidade que um prédio onde moram 800 habitantes miseráveis está prestes a desmoronar. Mas os próprios responsáveis estão aterrados em suas redes de corrupção e demasiadamente bêbados para dar a mínima. Dirigido por Yuriy Bykov, O Idiota é o filme russo mais brasileiro do ano...

10. O Vale do Amor (França)

Isabelle Huppert e Gérard Depardieu (!!!) contracenam neste filme de Guillaume Nicloux sobre o irreversível. Divorciados, eles se reúnem no Vale da Morte, na Califórnia, a pedido do filho, que acaba de se suicidar, e que promete a eles uma aparição caso eles sigam o minucioso script do reencontro que ele deixou preparado antes de morrer.

9. A Professora do Jardim de Infância (Israel)

Nira (Sarit Larry), a professora do título, vê em um de seus alunos, Yoav (Avi Shnaidman), uma oportunidade de fuga do cotidiano: um marido decente, um casal de filhos , e um trabalho que paga as contas. Ela se fascina pela estranheza de Yoav, de cinco anos, que possui a habilidade de recitar poemas originais como se fosse um gênio, ou um médium. Como Nira percebe a posição precária do menino e se identifica com a poesia que ele regurgita sem compreender, ela decide tomar conta dele, isto é, raptá-lo. A ousadia do filme de Nadav Lapid está na maneira como ele aceita as intenções perversas atrás dos impulsos maternos de Nira, bem como a maneira que ele sugere, ou admite, a possibilidade de um amor erótico entre adulto e criança. O desejo de ajudar o outro é exposto como o desejo de ajudar a si mesmo.

8. The Lobster (Grécia/EUA)

Na nova fantasia distópica do cineasta Yorgos Lanthimos estar só e estar junto são ambas violências impossíveis. Colin Farrell vive num mundo onde as pessoas solteiras são mantidas presas em um hotel até encontrarem seus pares. Se demorarem muito são transformadas em animais, por exemplo a lagosta do título. Os poucos que conseguem escapar do cárcere do casal romântico são obrigados a viver numa floresta aonde relações amorosas e sexuais são proibidas.

7. Im Keller (Áustria)

O inconsciente para Ulrich Seidl é um lugar palpável por uma questão de conveniência cinematográfica, retratado através da figura do porão, aquele nível mais profundo das casas. Lá reside o gênio conceitual do documentário, que examina as coisas indizíveis que fazemos, e as criaturas inconfessáveis nas quais nos tornamos, quando ninguém está olhando. O que acontece nos porões austríacos? Mulheres apaixonadas por bonecas, grupo de amigos nazistas se reunindo pra jogar buraco, mulheres amarradas com cordas admitindo curtir todo tipo de dor ("com ou sem marcas"), dominadoras torturando os testículos de seus escravos, entre outros. No subsolo encontramos o corpo à vontade, cantando uma ária, sendo chicoteado, alimentando uma cobra de estimação, ou simplesmente limpando o chão. O cinema não esteve tão perto das engrenagens do desejo - sujas e sem remorso - desde Pasolini.

6. À Sombra de uma Mulher (França)

Pierre (Stanislas Merhar) e Manon (Clotilde Courau) são um casal de documentaristas, (ele diretor, ela assistente...), parceiros no trabalho e no amor. Até que Pierre encontra outra, e que Manon encontra outro, e que ninguém admite nada a ninguém até o belo dia quando alguém explode e nada, ou exatamente tudo, será como antes. Mais uma vez a monogamia é uma fraude e o amor só funciona como algo que vai e vem, sem pretensões de pertencimento, garantias, ou longevidade. O filme, que é dirigido por Philippe Garrel e tem o roteiro de Jean-Claude Carrière, lembra a obra do mestre Eric Rohmer, e ao contrário das histórias de amor que evoca, é de uma concisão irreprochável.

5. Mia Madre (Itália)

Uma cineasta, Margherita (Margherita Buy), luta para sobreviver às filmagens de seu novo projeto e ao luto da iminente morte de sua mãe. O diretor Nanni Moretti (que também atua) desenvolve uma maneira impecável de entrelaçar, e confundir, cenas de sonhos com realidade: uma ausência total de pistas estéticas que separem o onírico do real. O filme parece dizer que mesmo no improvável caso em que uma mulher num mundo de homens narcisistas vença, no final ela sempre perde. E, algumas vezes, sobrevive.

4. Táxi Teerã (Irã)

No mais recente "não-filme" de Jafar Panahi desde que foi proibido de fazer cinema pelo governo iraniano, o cineasta dirige um taxi pelas ruas de Teerã. Entre os personagens que encontra no caminho estão duas senhoras atrasadas com um aquário nas mãos, um vendedor de DVDs piratas, uma ativista da paz distribuindo rosas, e um homem ensanguentado à beira da morte. Deliciosamente impossível de saber aonde está a vida e aonde está a ficção.

3. Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência (Suécia)

O novo filme de Roy Andersson é uma delirante sequência de sketches absurdistas que pintam o retrato de uma Suécia patologicamente incapaz de articular seus sentimentos. Uma espécie de inferno hiper-civilizado onde qualquer rastro afetivo é devidamente dissimulado pela frase, "Estou contente em saber que você está bem." Descrever o enredo do filme me parece uma tarefa impossível, e injusta. Basta dizer que testemunhar essa obra é entender, com a alma, o que queremos dizer quando dizemos ter tido uma experiência verdadeiramente cinematográfica.

2. 45 Anos (Reino Unido)

Neste que é o mais memorável filme sobre a vida doméstica burguesa desde Cenas de um Casamento, a intimidade nunca está muito longe da estranheza, e uma pequena frase pode fazer desmoronar a mais meticulosamente construída das casas de família: "Há algo que eu preciso te dizer." A revelação de um segredo decrépito como o futuro próximo do casal dá lugar a uma série de discretos horrores dramatizados com maestria no rosto de Charlotte Rampling (Kate). Como seu marido (Tom Courtenay) começa a se esconder nas lembranças que precedem a sua própria união, ela se sente secundária, como se a história dos dois fosse uma mera reflexão tardia perante um tesouro verdadeiramente valioso que fora enterrado antes mesmo que Kate entrasse em cena. A monogamia, não importa o quão afincada na quietude campestre ou em Kierkegaard, é exposta como sempre em estado de sítio, como incompleta, nas imediações da sua própria ruína. A casa burguesa se constrói, finalmente, em cima dos seus próprios destroços. Sufocante e preciso, o filme de Andrew Haigh é como o casamento que retrata: uma espécie de balé cinzelado. Ou talvez seja um tango onde é a mulher que leva, gerenciando absolutamente tudo, incluindo as falhas e as memórias de seu marido. A ele resta apenas o sótão para cuidar dos totens de seu passado, que ela prontamente invade quando lhe convém. A rapidez com que amantes se tornam gatos e ratos. E ainda assim, quando eles dançam uma música do The Platters, é ele que direciona os passos, ela sem mais conseguir continuar a farsa, e o peso, da felicidade. Sabendo que qualquer história de amor, qualquer história, é uma mentira.

1. O Filho de Saul (Hungria)

O Filho de Saul, de László Nemes, foi acusado de reduzir a violência indizível do holocausto em uma experiência imersiva de vídeo game, deixando pouco espaço para o espectador respirar ou refletir. O jornal francês Libération, por exemplo, descreveu o filme como "uma abdicação intelectual". Mas defender racionalmente a obra-prima de László Nemes é negar o que o corpo nos diz sobre este impiedoso testemunho cinematográfico: uma ânsia de choro e de vômito. A câmera jamais abandona o rosto do ator principal (Géza Röhrig), um judeu "privilegiado" por adiar a morte limpando os restos mortais da câmara de gás. O Filho de Saul é um longo close-up nauseante que evoca a parcialidade absoluta de qualquer ponto de vista. O rosto humano que obstrui a tela quase por completo se recusa a dar espaço para a mise-en-scène do inferno que o aprisiona. É o rosto que aparece na obra do filósofo alemão Walter Benjamin, com seus demasiados músculos e nuances incatalogáveis. O rosto humano, a mais definitiva arma contra o fascismo.

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