OPINIÃO
13/11/2014 14:32 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:46 -02

Novembro e o Pânico Anal

Nesta semana, o "Encontro com Fátima Bernardes" continuou seu culto aos fundamentos essencialistas da cultura hétero-cêntrica. Como lhe é de praxe, o programa reiterou uma série de ficções culturais sobre o comportamento dos gêneros "opostos" como se fossem inatas.

Reprodução/Globo.com

Nesta semana, o "Encontro com Fátima Bernardes" continuou seu culto aos fundamentos essencialistas da cultura hétero-cêntrica. Uma de suas pautas foi a conscientização sobre o exame de toque retal como prevenção do câncer de próstata. Como lhe é de praxe, o programa reiterou uma série de ficções culturais sobre o comportamento dos gêneros "opostos" como se fossem inatas. No mundo do "Encontro," que é o nosso, não há diferença entre o achismo, o neurocientista de plantão, Fernando Gomes Pinto, para quem todos os fenômenos são causados por processos fisiológicos, e a psicanalista, Viviane Mosé, que à respeito de uma outra pauta veio a dizer recentemente que "é orgânico" o homem cuidar dos negócios "com mais competência" e as mulheres serem "mais desequilibradas" por causa dos hormônios - porque "a mulher tem uma ligação muito grande com a terra pelo fato dela parir, dela brotar, dela menstruar."

No programa sobre toque anal, não se questionou a resistência do homem ir ao médico. Essa teimosia foi celebrada como uma característica intrinsecamente masculina e, logo, compreensível: Homem é assim mesmo. Alguns convidados sugeriram, inclusive, que cabia à mulher insistir com seu marido, marcar a consulta, e levá-lo ao consultório nem que puxado pelas orelhas - como uma criança. O humorista de plantão Marcos Veras advertiu, para as gargalhadas dos ali presentes, que apesar de novembro ser o mês de conscientização do exame anal, "tem muita gente por aí" que já "pratica" o ano todo...

Essa necessidade de transformar o ânus masculino em objeto de chacota (a bunda feminina é gostosa, a masculina é engraçada ou não existe) ilustra o pânico anal como mecanismo de defesa contra a verdade do ânus: Todos temos, e todos são locais de prazer em potencial. Essa verdade desestrutura, "des-generaliza," a lógica da diferença de sexos que reduz cada ser àquilo que pressupostamente emana de sua genitália frontal. O ânus não tem gênero. Ele equipara homens e mulheres, revelando à arbitrariedade e aleatoriedade da ficção dos gêneros opostos ser ancorada na oposição genital. Seguindo uma lógica anal, somos todos iguais: castrados, frágeis, falíveis, pequenos, penetráveis, humanos. Quelle horreur! A lógica anal, que o filósofo espanhol Paco Vidarte vê como uma ética, ou Analética, absolve a mulher (e de alguma maneira, o gay e a transexual) como detentora da "falta," democratizando a fragilidade humana para todos os humanos. Nessa conjuntura, a assimetria de poder entre o homem e a mulher, tida como intrínseca, se desfaz no próprio sítio do corpo.

O investimento fetichista do brasileiro, mas não exclusivamente dele na bunda feminina emblematiza esse medo de reconhecer o ânus como elemento igualador. Esse investimento erótico-político não é, obviamente, uma exclusividade brasileira. Apesar de adorarmos nos regozijar com a ideia que os brasileiros amam as bundas, mas os Americanos amam os seios, basta pensar em toda a carreira de Jennifer Lopez, Nicki Minaj e sua "Anaconda," e a "apropriadora-da-cultura-negra" Iggy Azalea com seu novo hit "Black Widow," para ver como os Americanos criam fronteiras raciais até quando se trata de mecanismos de negação anal. Na América, não só o homem (sempre branco, cis-gênero e heterossexual), mas os brancos em geral não têm bunda. O cu americano é terceirizado para as minorias.

Tanto lá como aqui, o ânus desmascara a ficção da diferença de gêneros cuja evidência e gênesis se localiza no corpo. O homem precisa negar a existência de sua região anal para que seu corpo não exponha o fato que ele também possui orifícios, que o homem não é impenetrável, que até do ponto de vista estritamente fisiológico, a própria sensibilidade da próstata, uma exclusividade de corpos ditos masculinos, convida a região anal para se tornar uma zona erógena de fato. Não é necessário um pênis para exercitá-lo como tal, e tampouco de um Outro. Somos todos - homens, mulheres, e outros - dotados de língua, dedos, e punhos. A filósofa Beatriz Preciado se refere ao pênis como uma espécie de vibrador, apontando o potencial fálico, ou penetrador, de qualquer parte do corpo, ou objeto externo à ele. Para Jacques Lacan, o falo é justamente aquilo que cobre o lugar aonde não há nada.

Em 2009, a associação Human Rights Watch publicou um relatório sobre uma modalidade de extermínio de gays no Iraque que literaliza esse processo de negação do ânus com o objetivo de tornar a penetrabilidade do homem como algo inimaginável. Segundo o relatório, algumas milícias iraquianas torturavam e assassinavam gays ao bloquearem seus ânus com uma cola de proveniência iraniana que só se desconstitui por vias cirúrgicas. O torturado, então, era forçado à ingerir uma bebida que produzia diarreia e morria por uma espécie de explosão fecal interna. Evidentemente que essa performance curiosamente apaziguadora e aterrorizante da implosão oriunda da obstrução anal absoluta era capturada em vídeo e viralizada por telefones celulares.

No "Encontro" não se torturam gays no palco, mas suas intenções retrógradas também seguem uma lógica perversa ao se travestirem em prestação de serviços. Essa também não é uma estratégia exclusiva do programa. A verdade é que as campanhas de conscientização tendem à reproduzir os clichés mais essencialistas, visando um bem ao administrar outros males: Fitinhas cor-de-rosa na campanha do câncer de mama, barbas por fazer no movimento "Movember" dos Estados Unidos na campanha do câncer de próstata. A cura do câncer sim, a permeabilidade entre as fronteiras de gêneros jamais!

Em seu início nas manhãs da Globo, Fátima Bernardes bem que tentou uma espécie de entretenimento sério, entrevistando seus colegas jornalistas e mantendo pautas como a homofobia com convidados como o deputado Jean Wyllys. Com o tempo, o programa se higienizou, ou acoxinhou-se, preferindo temas insossos e atemporais, como uma discussão sobre quem é mais ciumento (o homem ou a mulher?) ou reportagens sobre adolescentes na fila pro show da Demi Lovato. Ultimamente, o programa tende a começar com uma história de peso, como o racismo nas redes sociais ou algum sensacionalismo em torno de uma pessoa desaparecida, para logo enveredar, com o sentimento de missão cumprida, para amenidades. Um de seus experts de plantão, o psicanalista Francisco Daudt, foi recentemente despedido por fazer declarações tidas como "controversas" demais (como dizer que não gostava de bichos) para o horário matinal. Como uma professora catequizando seus pupilos por uma filosofia pedagógica à la Poliana (quando o tema é a falta d'água em São Paulo, as causas são climáticas, jamais políticas), Fátima jamais se senta para falar com seus convidados. Sempre em pé e ansiosa, desconfortável no papel de tia acessível e espontânea, suas perguntas se resumem à "E você?" e seus comentários à "Muito legal."

As manhãs da Globo, desde então, se tornaram uma propaganda anti-analética, onde o discurso conservador é destilado com cara de paisagem, os estereótipos reciclados pela enésima vez, o bate-papo direitista se fazendo de morto, o arsênio servido no café com leite. Na semana passada, o poeta Fabrício Carpinejar, por exemplo, sentou-se no sofá da Fátima com um corte de cabelo que soletrava em sua cabeça, "Chupa," a hashtag homofóbica que reitera aquele que penetra (o ânus, ou a boca) como poderoso, e o penetrado, ou penetrável, como abjeto. O "Encontro" funciona como um enorme ânus-coxinha Global, um aparelho excretor de discursos opressivos, fazendo algumas concessões pseudo-progressistas entre um "merchan" e outro. Sua milícia conservadora ajuda a tecer o terrorismo de gênero nosso de cada dia, não pela administração in loco da Super Bonder iraniana, mas por uma cola light, mais insidiosa, que nos conecta uns aos outros ao marcar corpos e órgãos como (in)desejáveis, ignóbeis, sujos, ou letais. Com a doçura simpática de uma professora Helena que mal sabe o veneno que suas palavras carregam (ou talvez saiba), Fátima Bernardes serve de porta-voz de uma cultura que naturaliza o homem como aquele que abre a boca e lacra o ânus ("com competência"), e a mulher como aquela que fecha a boca e se reduz à receptáculo, buraco negro, ferida aberta à espera de um falo infalível que a complete. É orgânico.

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