OPINIÃO
04/04/2014 06:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:23 -02

A irônica transfobia de Romário: se mulheres biológicas merecem o estupro, o que merecem as transexuais no Brasil?

A 25ª vara cível de Brasília concedeu essa semana ao deputado federal Romário (PSB-RJ) seu pedido de proibição de qualquer declaração pública feita pela modelo transexual Thalita Zampirolli sobre um suposto affair entre os dois. Na ocasião, Romário disse que "Talita é gente boa, sangue bom", mas que ele gosta mesmo é "de mulher!"

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A 25ª vara cível de Brasília concedeu essa semana ao deputado federal Romário (PSB-RJ) seu pedido de proibição de qualquer declaração pública feita pela modelo transexual Thalita Zampirolli sobre um suposto affair entre os dois. A decisão também proíbe que Zampirolli divulgue fotos e vídeos deles juntos, "caso este material exista". A interdição é articulada de maneira hipotética porque Romário nega qualquer envolvimento amoroso-sexual com a modelo desde que uma foto dos dois de mãos dadas saindo de uma boate foi "viralizada" no ano passado. Na ocasião, Romário disse que "Talita é gente boa, sangue bom", mas que ele gosta mesmo é "de mulher!"

É curioso que a negação do ocorrido seja acompanhada por medidas tão drásticas (a multa é de R$ 10 mil por declaração que Zampirolli faça sobre o caso) para impedir que provas de um affair que não aconteceu venham à tona. Mas o mais fascinante é o que o episódio revela sobre que posição a figura da transexual ocupa não só na cultura brasileira, mas no regime heterossexual tout court. Afinal, quem gosta de transexual é hetero ou é gay? E mulher que gosta de transexual é o quê? Faz diferença se for post ou pre-op? E se a transexual deste caso é tão sangue bom ("minha parceira e de alguns amigos também," disse Romário), por que tamanha vergonha da sugestão de que a sexualidade do deputado, que tanto trabalha contra a discriminação de outras minorias (como os portadores de Down), poderia englobar mais do que mulheres biológicas?

A fala de Romário ("eu gosto de mulher!") é um soco no estômago de todos aqueles que se veem forçados a dar satisfações sobre suas expressões de gênero. É um tapa, vindo daquele que literalmente representa a lei, na cara de todos aqueles que tem o que há de mais básico em sua relação com o mundo colocada em dúvida, e negada. Aí sim jaz a infâmia. Nas palavras do deputado que desumanizam a transexual em questão, e todas elas, reduzindo sua condição existencial a um faz-de-conta pra fazer homem gozar quando ninguém está olhando, ou clicando.

O discurso de Romário não está, evidentemente, muito longe dos 26% de brasileiros que concordam que mulher de roupa curta merece ser estuprada. Ele reitera um discurso essencialista e reacionário no qual cabe ao homem decidir o que conta e o que não conta como ser humano. Na lógica do deputado, o órgão genital imediatamente pós-parto, e somente ele, faz de alguém uma mulher - pelo menos enquanto houver testemunhas. Ele também demonstra a facilidade com a qual o brasileiro trespassa as fronteiras de uma fantasia social da heterossexualidade hermética e sem poros em sua intimidade, mas é incapaz de confessar a latitude dos seus desejos publicamente. Essa é uma omissão que custa muito caro não só às trans que são reduzidas a objetos sexuais à serem jogados fora uma vez que a porta para a rua se abre (tem mais isso em comum com tantas mulheres biológicas), mas aos próprios homens, que hão de pagar suas contas, psiquicamente, de uma maneira ou outra. O reprimido, afinal, não se evapora, mas vira sintoma, e sempre - sempre - retorna. No mínimo, Romário tem provavelmente ficado na vontade desde o (não-)ocorrido, sendo obrigado a satisfazer seus desejos que vão além das prescrições e mandamentos da heterossexualidade ortodoxa (que só existe no imaginário) colocando "tranny porn" no Google. E, claro, subsequentemente deletando seu browser history.

Esses desejos tão publicamente inconfessáveis (por transexuais, ou quaisquer outros corpos que não coincidam ipsis litteris com o script hetero-fascista) são, afinal, e precisamente, aqueles que garantem vida longa à heterossexualidade. Qualquer sistema baseado em exclusividade exerce uma forma de estrangulamento emocional em sujeitos desejantes, simplesmente porque o Desejo é fluido, caótico, e oceânico demais para caber perfeitamente em quaisquer categorias. E mesmo quando cabe, ou parece que cabe, ele jorra, ele excede, ele contradiz, ele surpreende. Se o homem, brasileiro ou não, procura prazer (de qualquer ordem) com algo além do biologicamente feminino, isso revela uma plasticidade na prática do heterosexual que lhe é necessária para sobreviver. Esse também é o jeitinho brasileiro de levar as rigorosas regras do sistema heterossexual à diante sem questioná-las, e, ao mesmo tempo, aproveitando-se das brechas que lhe são contingentes.

O brasileiro é capaz de admitir que perdeu sua virgindade com uma galinha antes de declarar publicamente seu desejo por uma trans, ou um gay. O brasileiro trata suas transexuais como trataria suas mulheres biológicas se não lhes dessem filhos, como trata seus gays - belas frutas passando pela máquina do gozo instantâneo (no motel, no parque, ou na TV) e descartados como bagaço quando as luzes se acendem. Seu discurso, no entanto, não coincide com suas práticas (uma das características mais básicas de discursos, aliás). Sabemos que o brasileiro nutre um grande investimento libidinoso com relação à transexualidade feminina - por vezes diretamente (Roberta Close), por vezes pelo mecanismo amortecedor do cômico (Luisa Marilac), por vezes com uma mistura de espanto e confusão (Laerte).

Sabemos também que não há uma universalidade de formas em como a heterosexualidade é vivida e legitimada. O que constitui comportamento estritamente hétero no Brasil não corresponde, necessariamente, ao que é tido como hétero nos Estados Unidos, na Finlândia, ou no Burundi. Logicamente, tampouco a homossexualidade, desde que foi "inventada" como identidade no século 19. No célebre argumento do sociólogo Tomás Almaguer, a homossexualidade na América Latina, por exemplo, segue uma lógica mais de performance de gênero (homens femininos, mulheres masculinas) do que de objeto de desejo. O que produz a diferença entre um homem hétero e um gay, por exemplo, seria decidido na base do quem come versus quem dá, enquanto que na América do Norte um homem que tenha relações com outro homem seria considerado gay mesmo se ele for somente ativo e nem querer ver o pênis do outro. A transexualidade, em suas várias formas (sou eu menos mulher que Thalita Zampirolli por me sentir mulher mas não ter seios e só usar vestido de vez em quando?) desestabiliza nossa tendência a pensar o gênero em termos binários. Essa impossibilidade de colocar a figura da transexual na nossa equação de gênero naturalizada sem que tudo perca sentido, sem que ela exponha o fato da lógica heterossexual se basear numa ilusão, nos deixa loucos, e expõe nossa ignorância com relação à questões da sexualidade humana.

O Brasil cresceu nos últimos anos, é fato. E se deu ao luxo de se preocupar com mais do que se tem pra comer hoje. Como diz o poema da Louise Glück: Um corpo com fome aceita qualquer coisa. Mas o Brasil continua analfabeto em ferramentas para pensar a questão do gênero e sexualidade criticamente. Nos resta reproduzir clichês biologistas como num ato desesperado, porém tarde demais, de manter tudo no lugar de antes. Talvez até homens como Romário, capazes de desbravar as fronteiras da heterossexualidade ortodoxa como clandestinos bandeirantes, porém covardes para regressar e contar o que viram, o que sentiram, como nada é inevitável quando se trata do Desejo, talvez até esses homens saibam que seus poderes também não são inevitáveis. E que, se até o Brasil muda (um passo pra frente, dois para trás), não estariam imunes à transformações sociais. E se desesperam quando caixas de Pandora ameaçam se abrir e colocar em risco tudo aquilo que sempre garantiu o poder de alguns, e o silêncio de outros ("Romário pretendia ainda proibir Talita de mencionar seu nome em qualquer situação e condição," segundo o UOL). E uivam como que uma canção de cisne, se agarrando às velhas verdades sobre o lugar da mulher biológica, o lugar do negro, e o não-lugar da mulher transexual. Estão pasmos, estão com medo. Estão confusos ao verem que as estruturas que garantiram que suas condições permanecessem incontestadas por tanto tempo possam ser repensadas. Se deparam com a possibilidade de um sistema finalmente imaginável em que o poder sobre tudo e todos não lhes é garantido. Se veem sem qualquer recurso para debater questões de gênero, sexualidade e raça que vá além das velhas balelas sexistas. Então, esse clube do bolinha com, até então, mandato vitalício (os justiceiros originais), faz pouco caso de tais questões, as tachando de um politicamente correto made in America chato que está dominando o mundo.

Como Jô Soares, que diz a palavra "viado" para puxar gargalhadas de sua plateia em seu programa quase toda noite, e faz piada do termo "afrodescendente" com quase a mesma frequência. E como o economista Rodrigo Constantino, que em sua "análise" sobre a controversa pesquisa do Ipea na revista Veja, disse que mulher brasileira de roupa curta não merece ser estuprada, mas...se facilitar pro ladrão até que merece! Nos resta seguir a lógica da teoria queer, que ao invés de tentar convencer a maioria a "aceitar" ou "tolerar" a minoria porque "somos todos iguais," resolveu questionar as falsas verdades até então intactas dessa suposta maioria e se recusar à tê-la como parâmetro ou meta. Cabe a nós devolver a esse olhar tão macho que se presume sancionador-mor daquilo que merece estar vivo, e averiguar se ele, se esses Romários "merecem" ser os inquestionáveis guardiões da nação quando aparentemente se descontrolam tão facilmente perante uma reles saia-justa - haja o que houver por trás dela.

Nota do editor

Uma versão anterior deste artigo informava um dado já corrido pelo IPEA. Ele foi atualizado para o dado real.