OPINIÃO
30/09/2014 04:15 -03 | Atualizado 26/01/2017 20:56 -02

Levy Fidelix e a homofobia que mata: Não, não foi apenas 'liberdade de expressão'

Montagem/Estadão Conteúdo/Facebook

Gostaria de propor uma reflexão desapaixonada (!) sobre a homofobia, pauta que está em voga nesta campanha eleitoral, sobretudo na corrida pelo Palácio do Planalto.

Para tanto, começo reproduzindo comentários dos leitores do Brasil Post sobre nossa cobertura crítica às declarações de Levy Fidelix (PRTB) sobre os gays no último domingo (28)

"Estamos em um país de livre expressão, por enquanto. Opiniões diferentes das nossas fazem parte da vida e da democracia."

"Vivemos ainda em um país livre. Deixa ele falar ou pensar o que quiser."

"O que ele disse foi errado, mas ele tem o direito de falar a merda que ele quiser. Isso se chama democracia."

É verdade que a democracia pressupõe a coexistência de opiniões diferentes, a pluralidade de posições e ideologias.

Levy Fidelix poderia ser contrário à criminalização da homofobia e ao casamento gay. Ele teria direito a expor os seus argumentos.

Entretanto, não foi a isso que assistimos no debate da Record.

Relembro o que Levy, presidenciável ainda que de partido nanico, disse em rede nacional de televisão (assista ao vídeo completo):

"Prefiro não ter esses votos [dos gays], mas ser um pai, um avô, que tenha vergonha na cara, que instrua seu filho, instrua seu neto, e vamos acabar com essa historinha [de casal gay]. Eu vi agora o santo padre, o papa, expurgar, fez muito bem, do Vaticano, um pedófilo. Está certo... Então, gente, vamos ter coragem, nós somos maioria. Vamos enfrentar essa minoria. Vamos enfrentar, não ter medo dizer que sou o pai, mamãe, vovô. E o mais importante é que esses que têm esses problemas realmente sejam atendidos no plano psicológico e afetivo, mas bem longe da gente. Bem longe mesmo que aqui não dá."

Ele misturou orientação sexual com parafilia (um transtorno mental) e sugeriu que gays fossem punidos como o embaixador papal detido por fazer sexo com crianças.

Conclamou o público a constranger aqueles que são diferentes da maioria.

Sublinhou a palavra "enfrentar", de maneira a intimidar -- o que pode ser simbólico, mas também pode ser físico, como explicou a blogueira Rafaela Marques.

E arrematou mandando a minoria para "bem longe da gente".

Isso não é liberdade de expressão!

É manifestação de desrespeito e discriminação. É apologia à violência e exclusão.

E vindo de um postulante à Presidência da República, falando para o País.

É uma posição antidemocrática, que visa a excluir e não a integrar os diferentes, em um debate que deveria promover a democracia.

É um comportamento passível de punição em São Paulo, com base na lei 10.948, de 2001, que penaliza a discriminação por orientação sexual.

donati

O ódio que mata

No início deste mês, o jovem gay João Antônio Donati foi assassinado em Inhumas (GO).

A suspeita de homofobia, que era investigada a princípio, foi descartada pela Polícia Civil de Goiás depois que o suspeito do crime disse que tinha tido relações sexuais com o rapaz, acabou se desentendendo com ele e por isso o matou.

Entretanto, familiares, amigos e a própria Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do estado contestam a tese da polícia.

Em entrevista ao Brasil Post, a presidente da Comissão de Direito Homoafetivo da OAB-GO, Chynthia Barcellos, defendeu que há motivação homofóbica no assassinato.

"O ódio, a agressão à orientação do outro, que seja homossexual, o fundo disso é: 'eu mato no outro o que eu quero matar em mim, o que eu não aceito em mim'."

O lavrador indiciado por homicídio negou que era homossexual, apesar de ter admitido que já havia mantido relações com outros homens.

"A orientação sexual do acusado não é relevante, mas o discurso dele, sim, pois revela ódio a gays", explicou a advogada.

Amigo de infância da vítima, o auxiliar de produção Yuri Maia desconfiou da versão dada pelo suspeito. "Acredito ter sido um ato de homofobia, pois ele era heterossexual perante a sociedade; ele não disse ser gay e sim ter relações", disse ao Brasil Post.

Para Chynthia Barcellos, é a crueldade do crime que confirma o teor de ódio às diferenças.

"A forma do crime, a asfixia, os papéis dentro da boca da vítima; a crueldade é o que ressalta mais em crimes homofóbicos", esclareceu.

Foram essas as condições da agressão contra o jovem Gabe Kowalczyk na semana passada em São Paulo.

Ele denunciou o ataque e tentativa de estupro pelo Facebook.

gabe

Também foi a repulsa às singularidades do filho de oito anos que levou um pai a espancá-lo seguidamente.

O pequeno Alex André morreu em consequência das agressões em março deste ano no Rio de Janeiro.

Qual era o problema dessa criança? Gostava de dança do ventre e de lavar louça. O pai queria que ele andasse como homem.

Essa é a historinha de um menino que talvez não fosse gay, mas tinha características ou interesses que o condenaram a ser vítima da fúria, da discriminação e da violência do próprio pai.

É esse castigo que o presidenciável Levy Fidelix tenta infligir aos LGBT quando arrota um discurso de ódio coletivo aos diferentes.

São ecos e pensamentos de um político como ele, de enfrentar João Antônio, de manter bem longe Alex André e acabar com Gabe, que constituem homofobia e violentam a democracia e o avanço da sociedade brasileira.

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