OPINIÃO
16/06/2014 21:03 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Elite X Povo: a dicotomia burra na campanha presidencial embaça o verdadeiro debate político

Tratar esse suposto antagonismo como a principal questão nacional é jogar um véu sobre os problemas que os governantes têm para enfrentar. Sobretudo os serviços públicos que têm deixado a desejar nos últimos 19 anos, quando fomos governados tanto por PT quanto por PSDB.

Montagem/Estadão Conteúdo

A menos de um mês do início da campanha eleitoral, já temos amostras claras da tônica da disputa presidencial, que vem se polarizando uma vez mais entre PT e PSDB.

As ofensas à presidente Dilma Rousseff, durante a abertura da Copa na semana passada, voltaram a alimentar a tese de que o Brasil é palco de uma sangrenta luta de classes, em que os ganhos dos pobres são desprezados pela elite opressora.

De um lado do ringue, os pobres, trabalhadores perseguidos ou explorados pelo capital, são representados pelo PT.

Do outro, os ricos, intelectuais opressores ou donos dos instrumentos de produção, são representados pelo PSDB.

Em um confronto meramente maniqueísta, quase pueril, está instalada uma "gincana de classes", como definiu bem o colunista da Folha de S. Paulo Vinicius Mota, no artigo Rico não elege ninguém.

A estratégia discursiva dos bons e dos maus, povo versus elite, é pilotada pelo ex-presidente Lula e a pupila Dilma, que deverá ser confirmada como candidata à reeleição na convenção nacional do PT no próximo sábado (21).

No contra-ataque aos xingamentos, Dilma sublinhou que "o povo brasileiro" não pensa como aqueles que a desrespeitaram no Itaquerão - que, sabemos, eram torcedores de bolsos recheados, donos de ingressos de área VIP.

Na convenção estadual do PT em São Paulo, no fim de semana, Lula disparou contra a "elite conservadora", que estaria em uma campanha de ódio contra o partido dele.

"Estão querendo fazer conosco o que já fizeram com Getúlio Vargas, até levá-lo à morte", discursou o candidato a mártir, recordando-se do escândalo que enfrentou com as denúncias do mensalão. "Tentaram me tirar em 2005, mas eu disse: 'se quiserem me tirar, vão ter que debater na rua, para conhecerem o que é o povo brasileiro'", completou Lula.

É evidente que existem posturas elitistas de determinados grupos no Brasil, mas tratar esse suposto antagonismo como a questão nacional por excelência é jogar um véu sobre os problemas que os governantes têm de fato para enfrentar. Sobretudo os serviços públicos que têm deixado a desejar nos últimos 19 anos, quando fomos governados tanto por PT quanto por PSDB.

É o transporte coletivo caro que está mal das pernas, a (in)segurança pública e a saúde na UTI que levaram milhares às ruas no ano passado.

Por que os petistas e os tucanos não fizeram mais pelo povo brasileiro - que são os pobres, mas também a elite, a classe média, a classe C, todos nós?

O que cada gestão fez - FHC, em seus oito anos? Lula - em mais oito - e Dilma, nestes quatro? Quais as principais realizações nessas áreas tão deficientes na opinião de grande parte dos cidadãos brasileiros? Quais melhoraram a realidade?

Vamos nos debruçar sobre o impacto de cada uma das políticas públicas de PT e PSDB para saúde, saneamento, educação, segurança.

É esse o debate que realmente importa, despido de quaisquer preconceitos.

Até porque as coligações do PT e do PSDB reúnem uma diversidade tal que uma mera dicotomia de classes se revela um sofisma.

Já sabemos há mais de década que o Partido dos Trabalhadores se aproximou dos empresários, representantes do temido capital - união simbolizada pela Carta ao Povo Brasileiro, dirigida por Lula ao mercado financeiro (!), e pela aliança do PT com o falecido PL, chapa vitoriosa nas eleições de 2002 e 2006.

José Alencar, empresário que tinha sob seu comando bilhões de reais, foi vice-presidente do País de 2003 a 2010.

O PMDB, principal aliado do PT atualmente, é a maior legenda do Congresso Nacional e tem quadros mais ligados aos trabalhadores e outros bastante ativos na bancada ruralista, atendendo aos interesses dos latifundiários.

Por sua vez, se o PSDB mantém fortes laços com o DEM, historicamente ligado a famílias tradicionais e causas mais conservadoras, o partido também abraçou o partido Solidariedade, criado no ano passado, também focando as demandas trabalhistas.

Sua principal liderança, o deputado federal Paulinho da Força vem representando os interesses da Força Sindical, que congrega entidades com mais de dez milhões de trabalhadores. Paulinho já declarou que o Solidariedade fechará apoio à candidatura de Aécio Neves à Presidência.

Assim, elites e trabalhadores vêm se imiscuindo, independentemente da legenda e da origem do candidato a presidente. Ora, é sociólogo com estudos em Paris, ora, metalúrgico com lições de vida no ABC paulista.

Mas eles, o petista e o tucano, não são opostos. O príncipe e o sapo. O rico que só cultiva os interesses dos seus, o pobre que só quer ajudar os iguais.

Precisamos superar essa gincana, esse enredo de faroeste com mocinhos e bandidos, para focarmos nas propostas, nas soluções e, efetivamente, no debate político.

Só assim, cada brasileiro fará a escolha mais informada e sensata para selar os rumos do País.