OPINIÃO
30/06/2014 21:19 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Eleitor-alvo de Aécio Neves é fã de Rachel Sheherazade

A estratégia do PSDB é mirar os votos dos brasileiros que querem mudanças no País, sobretudo indignados como aqueles que hoje compõem o fã-clube da âncora do SBT.

Montagem/Reprodução YouTube/Estadão Conteúdo

Uma super-onda conservadora forma o tsunami do presidenciável Aécio Neves, que busca "varrer o PT do poder".

As bandeiras defendidas por ele no combate à criminalidade são contrárias a posições consideradas progressistas, historicamente ligadas a entidades em defesa dos direitos humanos.

O senador tucano pretende reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos, em caso de crimes hediondos, e quer intensificar a guerra ao tráfico de drogas, sem cogitar a legalização.

Além disso, a escolha do senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) como vice na chapa, anunciada nesta segunda-feira (30), reforça a tese de que o conservadorismo será a tônica da campanha tucana (leia mais abaixo).

A estratégia do PSDB é mirar os votos dos brasileiros que querem mudanças no País, sobretudo aqueles que foram às ruas em 2013 e continuaram as sucessivas greves e manifestações deste ano.

Boa parte dos indignados compõe o fã-clube da apresentadora Rachel Sheherazade, conhecida por opiniões controversas, que lhe renderam inclusive uma nota de repúdio do Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro.

São as mesmas posições duras e conservadoras que garantem a popularidade da âncora do SBT: mais de 540 mil pessoas integram a página Admiradores de Rachel Sheherazade, no Facebook.

No Twitter, a corrente #RachelSheherazadeMeRepresenta superou o número de pessoas comemorando a decisão do SBT de afastá-la temporariamente em abril passado.

Resultado: ela não só voltou à apresentação do telejornal como continuará opinando.

Entenda as semelhanças no pensamento de Aécio e Sheherazade:

Legalização das Drogas

Para Sheherazade, o Uruguai se torna "sócio de traficantes" ao legalizar a produção e o consumo da maconha.

Em entrevista à Folha/UOL, em maio, Aécio disse que é contra a experiência do Uruguai, o primeiro do mundo a regulamentar o mercado da maconha. "O Brasil deve olhar essa experiência, como outras em todo o mundo, mas não gostaria de ver o Brasil como cobaia de uma experiência que não se sabe o resultado", defendeu Aécio.

Radicalização no discurso de combate à criminalidade

Em uma de suas mais polêmicas declarações, Sheherazade disse compreender as atitudes de justiceiros do Rio de Janeiro. Ela é uma ferrenha crítica da criminalidade, que atribui à ausência do Estado e a um "estado de violência sem limite".

Aécio elegeu como o calcanhar de aquiles do governo Dilma justamente o problema da violência urbana. "Governo é criminosamente omisso na segurança pública", disse em entrevista à Folha, defendendo uma reforma nos códigos penal e de processo penal, também para aumentar a pena dos traficantes de drogas.

Redução da maioridade penal

Sheherazade e Aécio têm a mesma posição sobre esse tema. O comentário da apresentadora acima é favorável à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) de autoria de Aloysio Nunes, justamente o candidato a vice na chapa de Aécio.

A matéria deverá ser votada pelo plenário do Senado após as eleições de outubro.

Segundo pesquisa da Confederação Nacional do Transporte, 92,7% dos brasileiros são favoráveis à redução da maioridade penal. Para 93,9% dos entrevistados, crimes praticados por menores aumentaram nos últimos anos.

De olho no tamanho desse público, Aécio será a voz dissonante entre os principais candidatos à Presidência ao defender a redução da idade penal de 18 para 16 anos.

Fator Aloysio Nunes

A escolha de Aloysio Nunes para vice de Aécio Neves reedita a política "café com leite" da República Velha. São dois nomes do PSDB dos dois maiores colégios eleitorais do País - São Paulo e Minas Gerais.

Nunes é ligado a José Serra, e a escolha sinaliza a unificação do partido. O senador obteve também a maior votação da história de São Paulo para o Senado: quase 11,2 milhões em 2010.

Entretanto, a escolha por ele deixa de fora nomes que poderiam agregar mais força simbólica e um quê de progressista à chapa tucana. Seriam os casos do ex-senador Tasso Jereissati (CE), representando o Nordeste, ou da ex-ministra do STF Ellen Gracie, primeira mulher a presidir o Supremo, representando a força feminina.

Os dois nomes foram ventilados, mas perderam para Aloysio Nunes.

Apesar de ter militado contra a ditadura e ter sido exilado após o golpe militar, o senador também participou do governo Fleury em São Paulo. Ele foi vice-governador de Luiz Antônio Fleury, de 1991 a 1994.

Foi durante a gestão de Fleury que ocorreu o massacre do presídio do Carandiru, em São Paulo, considerado um dos maiores atentados aos direitos humanos no Brasil com a morte de 111 presos.

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