OPINIÃO
31/01/2014 18:36 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Cinema e teatro, uma relação tão delicada

Dib Carneiro Neto

Há coisa de três ou quatro anos, publicamos no Caderno 2 do jornal O Estado de S.Paulo, no período em que eu trabalhava lá como editor, uma reportagem do grande Luiz Carlos Merten, em que diretores de cinema do Brasil declaravam o seguinte: na hora de escalar elencos para seus filmes, preferiam até os 'não-atores' do que atores vindos do teatro, pois esses seriam muito densos e tensos para o minimalismo exigido para a sétima arte. Na tela grande, o 'derramamento interpretativo intenso' dos atores de teatro ganharia uma dimensão impensável, uma extensão exagerada. Foi nesse cenário e por causa desse tipo de pensamento que a figura dos chamados 'preparadores de elenco' ganhou espaço cada vez maior na ficha técnica dos filmes brasileiros, tendo como exemplo mais conhecido a já folclórica, principalmente para o povo de teatro, Fátima Toledo.

Fico hoje imaginando como anda essa delicada relação entre cinema e teatro, no que diz respeito especificamente aos elencos. Escrevo isso porque estou há três dias nessa encantadora cidade mineira chamada Tiradentes, prestigiando alguns filmes desta que já é a 17ª Mostra de Cinema da cidade, e nunca vi tanto ator de teatro nas telas como nesta programação de um festival que é tido e havido, internacionalmente, como o mais alternativo, o mais contemporâneo, o mais independente dos festivais de cinema de todo o Brasil.

Sobretudo atores do teatro paulistano estão frequentando as câmeras do novo cinema nacional autoral. Nesses três dias, passearam por meus olhos, por exemplo, na tela da tenda principal da mostra de Tiradentes, os seguintes nomes dos palcos de São Paulo: Rodrigo Fregnan, Roberto Audio, Tuna Dwek, Mário Bortolotto, Carlos Morelli, Lilian Blanc, Lee Taylor, Sabrina Greve, Simone Iliescu, Rejane Arruda, Fernanda Viacava, Maria Manoella, Gero Camilo, Paula Cohen e, sobretudo, Marat Descartes. Claro, não que muitos deles já não sejam figuras frequentes no cinema e atores de grandes filmes. Não é isso. O fato é que, vendo todos eles na tela grande em tão prestigioso e ousado festival, não consigo deixar de achar que os cineastas do Brasil tenham voltado a valorizar os atores que nasceram e desenvolveram suas carreiras em cima dos palcos sagrados. E aquele papo de que ator de teatro não serve para cinema? Onde foi parar?

No caso de Marat Descartes, há até uma explicação para o fato de ele estar quase diariamente nas telas aqui de Tiradentes: ele foi escolhido pela curadoria da mostra para ser o grande homenageado do ano. Na noite de abertura, sexta, foi lindo o tributo feito a ele, sobretudo por seus colegas de Escola de Arte Dramática, a EAD, da USP, Gero Camilo e Paula Cohen. E isso foi o que me chamou a atenção, assim como de toda a plateia de críticos de cinema: era uma homenagem feita a Marat pelo cinema, mas quase só se falou em teatro no palco da abertura. Marat, inclusive, em seu agradecimento emocionado, citou várias vezes a EAD e o apoio que teve da mãe para virar ator de teatro. O fato é que Marat Descartes já tem carreira sólida também no cinema e é o exemplo ideal de grande ator de teatro, de cinema e de televisão, ou seja, 'ator pra toda obra'.

Tudo isso me faz pensar também nos atuais maiores estouros de bilheteria do cinema nacional. Quem diria. Os humoristas de teatro, os reis das stand up comedies, sim, foram eles que, indo parar no cinema, arrebanharam de novo uma avalanche de público para as produções nacionais. Leandro Hassum, Ingrid Guimarães e Paulo Gustavo, por exemplo, são fenômenos de bilheteria no cinema, como foram, na época das pornochanchadas, nos anos 70, Davi Cardoso, Helena Ramos, Sônia Braga e Nuno Leal Maia. A força do teatro brasileiro de comédia está fazendo história no cinema comercial nacional, criando uma nova onda nas telas. Pelo fim dos preconceitos e dos rótulos cerceadores, viva o teatro, viva o cinema, viva o talento dos atores brasileiros.