OPINIÃO
19/05/2015 18:49 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Quanto 'tempo de tela' é tempo demais? Por que essa é a pergunta errada

flickingerbrad/Flickr
<a href="http://www.schooltechnology.org" rel="nofollow">www.schooltechnology.org</a> Photos of elementary students using iPads at school to do amazing projects. Photo taken by Lexie Flickinger.

Os pais contam com a Academia Americana de Pediatria para saber quanto consumo de mídia, ou "tempo de tela", é seguro para seus filhos. Há muito tempo a AAP recomenda que as crianças não passem mais de uma ou duas horas por dia diante de telas. Para crianças com menos de dois anos, a recomendação é que eles não assistam TV. Mas, em um mundo em que estamos cercados por telas - em restaurantes, filas de supermercados, em casa (e até mesmo nas salas de espera dos pediatras) -, está ficando praticamente impossível seguir essa recomendação. E isso não leva em conta as telas minúsculas dos aparelhos móveis ao alcance de qualquer criança que não tenha um saco de papel na cabeça. Uma nova pesquisa apresentada na reunião das Sociedades de Pediatria Acadêmica afirma:

"Bebês de apenas seis meses já contabilizavam meia hora por dia com aparelhos móveis. E eles não estavam só assistindo desenhos animados. Um terço estava tocando a tela; um quarto dos bebês estavam fazendo ligações - provavelmente por acidente. Aos dois anos, quase todas as crianças estavam usando tablets e smartphones - às vezes ao mesmo tempo em que assistiam TV."

É compreensível que os pais queiram, e precisem, de direcionamento para criar filhos felizes e saudáveis. Mas os estudos científicos rigorosos sobre o efeito da tecnologia no desenvolvimento de crianças pequenas em geral levam muitos anos. Com a tecnologia ainda na infância (o iPad tem apenas cinco anos), não existe resposta simples para responder quanto tempo de tela é seguro. Então talvez os pais devam perguntar duas outras coisas: "o que" e "quando".

O que

Uma coisa é muito clara - as crianças aprendem com a mídia, e o fato de que elas tenham acesso 24/7 a telas, em todos os lugares, significa que elas estejam aprendendo mais que nunca. Portanto, "o que" elas estão assistindo - o conteúdo - é muito importante. O especialista em estilo de vida digital David Ryan Polgar fala do fenômeno Kafka x Kardashian, dizendo:

"Nossa aspiração é sentar para ler Kafka, mas a realidade é que consumimos Kardashian. Não há nada errado em assistir um programa sobre o clã das Kardashian, assim como não há nada errado em comer um cookie - mas, no fim das contas, você é o que come. Para ter uma dieta de mídia rica em informações de qualidade, precisamos estar cientes do que nós (junto com nossos filhos) estamos assistindo."

É claro que as crianças não vão ler Kafka, mas a questão é que, se somo os que comemos, considerar uma dieta de mídia significa prestar atenção no conteúdo, mais que nos minutos.

"Conteúdo de qualidade é importante", diz Chip Donohue, diretor do TEC Center do Erikson Institute (http://www.erikson.edu/about/). "O que as crianças assistem é mais importante do que quanto", e as crianças aprendem o que assistir observando seus pais. Segundo Donohue, "o uso que os adultos fazem da mídia na frente das crianças é importante".

Em vez de assistir mais um episódio de Keeping Up With The Kardashians, uma dieta de mídia saudável pode incluir jogar um jogo online estimulante (como o Minecraft) com um pré-adolescente, ou falar com a avó via Skype com o bebê no colo, ou então pedir para o filho adolescente ensinar a usar o Snapchat ou o Instagram.

Quando

Decidir quando um conteúdo é apropriado para uma criança, de acordo com a idade e o estágio de desenvolvimento, também é importante. Para uma criança muito pequena, as pesquisas ainda defendem interações pessoais, brincadeiras criativas e atividades manuais. Os movimentos físicos são peças essenciais para um desenvolvimento saudável do cérebro. Segundo Donohue, "as experiências essenciais da primeira infância e os relacionamentos são importantes para o desenvolvimento da criança".

Os relacionamentos importam muito além da primeira infância. Em um recente estudo conduzido por pesquisadores da Universidade da Califórnia, crianças da sexta série que passaram cinco dias sem olhar para um smartphone, TV ou outro tipo de tela e em vez disso olharam umas para as outras apresentaram resultados substancialmente melhores na leitura de emoções humanas, comparadas com crianças da mesma escola que continuaram passando horas olhando para aparelhos eletrônicos.

Mas encontrar uma criança da sexta série que esteja disposta a abrir mão de uma tela por cinco dias é como procurar uma agulha num palheiro. A questão é decidir quando certos tipos de mídia são adequados... e não há muitas opções de ajuda (metade de todos os videogames são violentos, incluindo mais de 90% dos jogos considerados adequados para crianças de 10 anos ou mais). É por isso que é importante estar junto da criança quando ela está de olho na tela.

Uma pílula mágica?

"Dá muito trabalho."

Muitos pais dizem isso, e eles têm razão. Acompanhar o que, quando, quanto... mais o fato de estar junto na hora da tela... dá muito trabalho. Era muito mais fácil na época em que bastava gritar da cozinha "Desliga a TV!" na hora de mandar o filho brincar na rua.

Acho que os pediatras poderiam facilitar nossa vida prescrevendo uma pílula mágica para as crianças. Um remédio que fortaleça os sistemas imunológicos delas de todos os males da mídia - cyberbullying, comportamentos obsessivos, predadores etc - ao mesmo tempo oferecendo vitaminas que os empoderem para usar todas as mídias (TV, aparelhos móveis, computadores etc.) de forma positiva e produtiva.

Temos essa pílula. Ela se chama alfabetização digital, ou habilidades digitais, e ela pode ser ministrada para as crianças "na hora em que colocamos um aparelho conectado nas mãos delas", diz a especialista em segurança online Ann Collier. Tornar isso uma prioridade nas escolas é uma recomendação que gostaria que a AAP fizesse.

Porque, se o doutor mandou, talvez os adultos prestem atenção.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.