OPINIÃO
05/04/2015 10:54 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

O piloto, a depressão e o suicídio

As ações atribuídas a Andreas Lubitz não são explicadas pela depressão. Pode ser que ele tenha sofrido com essa doença em silêncio, afinal, as pessoas que o conheciam têm declarado que jamais suspeitaram que ele enfrentasse problemas psíquicos. E pode ser que, de alguma forma, mesmo sofrendo com um transtorno mental grave, como é a depressão com fortes ideias suicidas, ele tenha conseguido se levantar da cama, e ido trabalhar como em qualquer outro dia, sem sequer se atrasar.

Ti.mo/Flickr

A queda do voo 9525 da Germanwings, nos Alpes Franceses, vem mobilizando a atenção planetária. O que mais se ouve por aí são variações do seguinte tema: "se ele queria se matar, tudo bem, que se matasse, mas precisava ter matado outras 149 pessoas com ele?"

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Muitos especialistas estão tentando entender o que se passava na mente do copiloto Andreas Lubitz, 27, entendido como o culpado por ter, deliberadamente, acionado os comandos que levaram a aeronave à descida e à colisão fatal. Eu, de minha parte, tenho, invariavelmente, pensado no que se passava na cabeça de todos os outros passageiros. É bem mórbido e sofrido, e tem me feito levar mais tempo para dormir, mas não consigo evitá-lo. Segundo a caixa-preta do avião, no último minuto de registro do voo ouve-se os gritos dos passageiros. Quando será que eles se deram conta que o avião estava em rota descendente antes do tempo? Teria sido ao avistarem, pela janelinha, os picos nevados dos Alpes a apenas alguns metros de si? Ou terão eles percebido o desespero do comandante da aeronave, digitando códigos de acesso à cabine, batendo à porte e implorando ao companheiro de voo que lhe abrisse a porta, debalde? O comandante foi o primeiro a saber que as coisas não estavam indo bem. Além da morte que ele sabia que estava chegando depressa demais, restou-lhe, seguramente, algum tempo para lamentar o destino daquelas tantas pessoas que, ao entrar no avião da Germanwings, em Barcelona, se sentiram seguras ao ver o sorriso com que recebia os passageiros. Entre tantas famílias presentes no avião, entre crianças e jovens de uma mesma escola alemã, havia um bebê de 7 meses. Talvez tenha sido ele a única pessoa que não vivenciou o pavor absoluto da aniquilação iminente.

Como a depressão leva ao suicídio?

Eu não sei o que se passava na cabeça de Andreas Lubitz. O que ele fez é algo tão sem paralelo que não me arrisco a uma interpretação. A sua morte levou consigo a chance de qualquer esclarecimento e, até onde sei, não se encontrou nenhum vídeo, nenhuma na qual se dedique a explicar os motivos daquilo que planejava fazer.

Segundo fontes da imprensa, ele teria sido diagnosticado com depressão. Faz sentido. Afinal de contas, segundo estatísticas da Organização Mundial de Saúde, 3 mil pessoas com depressão cometem suicídio por dia, no mundo todo, e para cada um que completa um suicídio, 20 ou mais tentam acabar com a sua própria vida. Das pessoas que cometem suicídio, até 90% tem algum problema psiquiátrico, em especial, a depressão. Bom, a depressão, é óbvio, explicaria muito bem o seu suicídio. Mas não explica que ele tenha levado à morte outras dezenas de pessoas.

A depressão é uma doença mental bastante comum (afeta 11 milhões de brasileiros) que se caracteriza por um estado de humor depressivo, constantemente triste, perda de interesse e prazer, redução da energia, sentimentos de culpa e baixa autoestima. Frequentemente, a depressão vem acompanhada de fortes sintomas ansiosos. Esses sintomas podem tornar-se crônicos e recorrentes e levar a um enorme prejuízo na vida do indivíduo, na sua capacidade de lidar com as tarefas do dia a dia. No pior dos cenários, a depressão leva ao suicídio: o momento em que a dor na alma, a falta de esperanças, a angústia, fossem infinitas e já não houvesse mais razão para se estar vivo. A opção pelo suicídio não é uma escolha consciente, é justamente o contrário. É a total falta de liberdade para pensar com clareza, reflexo de um grave distúrbio cerebral. Em geral, o indivíduo reluta contra esta ideia de morte, ele se angustia, se desespera, e quem está próximo a ele não deixa de notar esse sofrimento. Todo psiquiatra está instruído a questionar a intenção suicida dos pacientes que avalia com depressão. É claro que o tratamento só vai chegar àqueles que procuram ajuda, que buscam o tratamento. Infelizmente, para alguns, nem o tratamento impede o desfecho fatal.

Sobretudo, na depressão não há pensamentos de morte dirigidos a outras pessoas, não há risco de homicídio.

Você voaria num avião cujo piloto se trata ou se tratou para a depressão?

As ações atribuídas a Andreas Lubitz não são explicadas pela depressão. Pode ser que ele tenha sofrido com essa doença em silêncio, afinal, as pessoas que o conheciam têm declarado que jamais suspeitaram que ele enfrentasse problemas psíquicos. E pode ser que, de alguma forma, mesmo sofrendo com um transtorno mental grave, como é a depressão com fortes ideias suicidas, ele tenha conseguido se levantar da cama, e ido trabalhar como em qualquer outro dia, sem sequer se atrasar. Não há registros de passagens do copiloto por emergências médicas após tentativas de suicídio, tampouco, há relatos de que ele tenha cometido agressões ou tivesse qualquer histórico criminal, segundo as autoridades alemãs.

Andreas Lubitz, no entanto, já esteve sob tratamento psiquiátrico, e as últimas informações sobre o caso apontam que ele teria um risco de suicídio por um longo período de tempo antes mesmo de receber a sua licença de piloto. Além disso, ele teria escondido o seu histórico psiquiátrico dos seus empregadores, e escondido dos seus psiquiatras que mantinha o seu trabalho, quando deveria estar em licença médica.

Estaria esse risco, essa tendência ao suicídio, separado dos sintomas de depressão? Seria Lubitz acometido por pensamentos incontroláveis de auto-extermínio? Ainda assim, ter pensamentos de morte não significa passar a ação. No transtorno obsessivo-compulsivo, o indivíduo é acometido por ideias incessantes de que agrediu ou atropelou alguma pessoas inadvertidamente, mas é o pensamento que causa o sofrimento e o indivíduo não se sente compelido a agredir as pessoas.

Até que se conheça por completo o histórico clínico de Lubitz, pairará a dúvida sobre as suas ações.

Poucas dúvidas existem sobre o que, de fato, esse tenebroso episódio nos diz: a dificuldade em entender o comportamento suicida e, principalmente, em prevê-lo.

Uma certeza é que aumentarão os estigmas associados aos transtornos psiquiátricos, podendo mesmo levar à demonização daqueles indivíduos que enfrentam certas condições psicológicas. Como a depressão foi, desde o início, tacitamente declarada a culpada pela queda proposital do avião nos Alpes, penso que muitas pessoas que, atualmente, têm sintomas de depressão,vão procrastinar ainda mais a busca de tratamento porque devem pensar que "eu acho que eu não tenho depressão, pois eu não quero me matar, nem quero matar ninguém". A classe dos pilotos deve estar mais preocupada ainda, pois também eles estão sujeitos a sofrer com a depressão. Será que se passará a exigir o histórico médico dos pilotos e copilotos das aeronaves? Os pacientes se sentirão tranquilos se souberem que o seu comandante andou frequentando um consultório psiquiátrico? "Por favor, gostaria de cancelar a minha viagem; aqui diz que o comandante do avião do meu voo toma antidepressivo, portanto, ele está deprimido e é suicida". Os pilotos que estão passando por problemas psicológicos vão preferir manter-se distantes do tratamento, optando por guardar os seus empregos. Podemos chegar ao ponto em que o psiquiatra ou o psicólogo deverão, por lei, quebrar o sigilo que envolve a sua relação com o paciente, se este lidar com alguma situação que afete a segurança pública.

Muito precisa ser feito no que concerne ao suicídio. Ele ocupa a décima posição como causa de morte nos EUA. Ao contrário das outras causas que lideram o ranking de mortes, o suicídio não apresentou diminuição da sua incidência ao longo dos últimos 50 aos e, entre aqueles com idade entre 15 e 34 anos, o suicídio não é a décima causa de morte, senão a segunda. Se, dentro de mais alguns dias, não haverá mais notícias sobre o avião da Germanwings, espero que a questão do suicídio permaneça e ganhe mais relevância, afinal de contas, trata-se de um problema de saúde pública. O câncer, o abuso de substâncias e a dengue são algumas das condições clínicas que ganham destaque na mídia e investimento público e privado que, no final das contas vai contribuir para salvar mitas vidas. É isso o que se quer quando se solicita que haja o aumento do alerta sobre o suicídio: salvar vidas.

Ainda que muitos caso de suicídio estejam ligados a doenças mentais, como a depressão, a esquizofrenia e o transtorno bipolar, elas não explicam todos os casos. Certamente, não explicam o que aconteceu neste voo fatal. Espera-se que as pesquisas científicas possam se aprofundar sobre o fatores determinantes do comportamento suicida, sobre a meios mais confiáveis de se medir o risco e predizer, com maior segurança, quem está mais próximo de cometer o suicídio.

Dito isso, espero conseguir dormir melhor essa noite. Boa Páscoa a todos. Paz e bem.