OPINIÃO
05/05/2014 10:56 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

Quando assistir <em>RuPaul's Drag Race</em> se torna um ato político

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Me lembro de estar na oitava série, durante uma daquelas sempre excelentes aulas de educação física em que o objetivo era bater uma bola de basquete por um circuito determinado e tentar sua sorte na cesta. Na minha frente, um colega suava frio enquanto outros alunos faziam as piores insinuações possíveis sobre a "fragilidade" dele no campo. De "viado" e "bichinha" para baixo, o menino que devia ter uns 13 ou 14 anos fazia seu circuito calado, aguentando os risinhos e as provocações até o caminho da cesta. Seu arremesso sempre errava o alvo.

Atrás dele na fila, eu não interferia. Apesar de entender perfeitamente a situação, eu não queria ser identificado como "o amigo do viado", e logo, "viado" também. No alto da minha covardia e esperando pela minha vez de arremessar, vi a mesma cena se repetindo semana após semana até que durante uma das muitas provocações, meu colega foi forçado a lidar com uma pergunta: "Por que você joga que nem menina?".

O que aconteceu a seguir foi algo que eu nunca poderia ter previsto. Um outro aluno interrompeu a brincadeira de mau gosto dizendo: "E qual é o problema dele jogar que nem menina? Ele pode jogar do jeito que ele quiser, o objetivo é marcar o ponto."

Uns bons 15 anos se passaram desde esse dia e apesar do meu contato com essas duas pessoas ser inexistente hoje, foi assistindo a uma maratona RuPaul's Drag Race que relembrei esse momento e passei a entender exatamente a importância dele.

Em RuPaul's Drag Race, reality-show do canal a cabo Logo, dedicado à produções com foco no público gay, participantes competem numa série de desafios envolvendo vestidos esculturais, quilos de maquiagem e muitas, muitas perucas coloridas. As drag queens - homens que se vestem como mulheres para a realização de uma infinidade de performances - são lideradas por uma daquelas que começou a popularização dessa arte, RuPaul, ícone que atingiu o sucesso global na primeira metade dos anos 1990 com, entre outros feitos, o lançamento do disco Supermodel of the World. Com uma série de participações em filmes, programas televisivos e comerciais, RuPaul se transformou durante as últimas duas décadas em uma entidade midiática que continua a construir pontes entre públicos gays e não-gays.

O programa em si, que começou a ser exibido em fevereiro de 2009, já tem seis temporadas (além de uma edição All Star) e continua a ser a maior audiência do Logo, o que não significa tanta coisa assim. Com boas doses de comédia, o reality pode parecer entretenimento despretensioso para o espectador desatento. Mas assim como o meu colega de educação física que fazia seu circuito calado tentando atingir a cesta, RPDR persiste de temporada em temporada na busca por pontos preciosos.

Durante cada uma das temporadas, o público é introduzido a um time de drags multicoloridas com diferentes talentos. Com vocabulário próprio, atitude de sobra e "amigáveis" trocas de farpas (shades!), as drags são apresentadas ao público apenas pelo nome que adotaram para si. Não demora muito para percebermos que combinações curiosas como BeBe Zahara, Pandora Boxx, Manila Luzon e Jinkx Monsoon não são apenas apelidos artísticos de atores habilidosos, mas sim os legítimos nomes que eternizarão aquelas pessoas no nosso imaginário.

Em drag ou "desmontadas", as participantes de RPDR são referidas sempre por meio de pronomes femininos. O gesto, que parece apenas divertido quando se começa a assistir, nada mais é do que uma verdadeira afirmação política: em RPDR as barreiras de gênero como você conhecia serão quebradas não apenas visualmente (com homens andando em saltos plataforma e usando batom), mas também semanticamente. Eles aqui são elas, e sem aspas.

Entre desafios fotográficos que mesclam diversão com constrangimento e musicais que testam a paciência das competidoras, Ru não hesita em inserir pequenas doses de sua própria agenda política, resultado de anos de militância não somente a frente de um movimento por direitos dos homossexuais, mas pelo próprio reconhecimento enquanto artista cuja orientação sexual permeia todo o seu trabalho.

É pensando nisso que Ru reforça, na reta final de cada temporada, o fato de que visões dissonantes de gênero podem ser ilustradas de forma lúdica. Posando como desafio para as drags competidoras, Ru já trouxe ao programa grupos de mulheres soldados com dificuldade para abraçar a própria feminilidade, gays mais velhos militantes de São Francisco, atletas conhecidos por seu visual másculo, veteranos do exército homossexuais assumidos e pais de família que se permitiram uma drástica makeover em prol da diversão e do esclarecimento.

A cada novo contato, as drags serviram (e ainda servem!) de instrumento para a conscientização e foram, ao mesmo tempo, estripadas de seus próprios preconceitos ao serem "forçadas" a conviverem com pessoas de diferentes realidades, com inúmeros problemas pessoais e diferentes visões de mundo.

Paradoxalmente unidas por uma competição que as coloca umas contras as outras, as queens de RPDR despertam em seus espectadores níveis de identificação com o próximo que independem de orientação sexual, ao mesmo tempo em que deixam claro que é por meio da coincidência de uma mesma orientação que muitos de nós podemos nos considerar parte de um grupo, cheio de ramificações, mas integrado.

Num mundo em que mulheres ainda sofrem preconceitos ignorantes, assistir homens adultos distribuírem lições de humanidade e tirarem força do fato de se vestirem como mulheres representa uma excelente alegoria de empoderamento. Sem ser óbvio, RuPaul's Drag Race prova todos os anos que existe para extrapolar as barreiras que o classificam apenas como um reality-show divertido num canal segmentado.

Foi assistindo a essa corrida insana de drags que aprendi a valorizar tardiamente meu colega da escola que, gay como eu, mas muito mais corajoso, "jogava como menina" tentando não ceder à pressão do julgamento alheio. E por fim, passei a reconhecer a atitude do garoto que, aos 14 anos, já entendia que jogamos todos juntos com o objetivo individual e coletivo de marcar o maior número de pontos possível.

Texto originalmente publicado no blog Spoilers.tv.br