OPINIÃO
06/01/2018 10:54 -02 | Atualizado 06/01/2018 11:07 -02

Como contribuir significativamente para o movimento de mulheres, sendo homem

As mulheres não precisam que você lhes diga que é feminista – são os outros homens que precisam.

As Horas é meu filme favorito há anos. É a história de três mulheres ligadas ao longo do tempo por um mesmo texto – o livro Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf– que costura irreversivelmente a vida de cada uma delas. Uma cena que sempre se destacou na minha mente mostra Julianne Moore e Toni Collette se beijando numa cozinha na década de 1950. O beijo não é romântico, mas é intenso. Ele revela um anseio por vínculos, por intimidade, uma fuga do domínio do homem. Enquanto Kitty (a personagem de Toni Collette) se acalma rapidamente e faz de conta que o beijo nunca aconteceu, o filme chega a seu ápice com Laura Brown (Julianne Moore) deixando seu marido e filho em busca de uma vida menos sufocante.

Na faculdade, eu li textos feministas que citavam o fato de as mulheres serem a única maioria, tecnicamente falando, a ter status de minoria (há mais mulheres que homens no mundo). Nesses textos, a condição feminina geralmente é associada à opressão contínua e ritualizada, citando a dificuldade que elas enfrentam para mobilizar e criar um coletivo, em comparação com outros grupos minoritários. Mas por que a dificuldade? O que os textos diziam era que, na arquitetura da casa e da família, a identidade da mulher é constantemente negociada (e apagada) em relação a homens (pai, marido, filho). Foi nesse contexto que enxerguei Kitty e Laura Brown com mais clareza.

Eu explicava o que definia o feminismo a mulheres que conviviam com a luta feminista diariamente. Eu era ingênuo e profundamente problemático.

Foi também estudando gênero que aprendi a importância dos espaços exclusivamente de mulheres: onde mulheres, livres do olhar de homens, possam compartilhar experiências e conscientizar a si mesmas e a outras sobre questões ligadas à sua luta. São espaços de discussão, de entendimento e para traçar estratégias. Podem ser institucionais (escolas, grupos), ou, cada vez mais hoje, digitais (fóruns).

Dinamizado pelo feminismo e o movimento de mulheres, meu eu mais jovem nem sempre respeitava esses espaços, e eu frequentemente citava minha paixão pelo movimento (e a lista de textos feministas que já tinha lido) para justificar meu ingresso neles. Eu explicava o que definia o feminismo a mulheres que conviviam com a luta feminista diariamente. Eu era ingênuo e profundamente problemático.

Mas aprendi a canalizar meus interesses de maneiras que beneficiassem não apenas a meu ego intelectualizado.

Com o passar do tempo, meu entusiasmo pelo feminismo nunca arrefeceu, mas aprendi a canalizar meus interesses de maneiras que beneficiassem não apenas a meu ego intelectualizado. Refleti criticamente sobre como os homens podem se envolver mais sem perpetuar as relações de poder vigentes que mantêm as mulheres subordinadas. Porque eu argumentaria que é vital que os homens se envolvam. Não porque eu acredite na ideia de que o movimento feminista é baseado na luta pela igualdade, mas porque muitos dos problemas de nossa sociedade frequentemente rotulados como problemas de mulheres (como agressão e violência sexual) na realidade têm sua origem em comportamentos aprendidos associados à masculinidade e à condição masculina. Os homens precisam fazer parte da discussão em um esforço para mudar e, nesse processo, desmontar a desigualdade de gênero. Mas como podemos nos ensinar a falar sem gritar? A ouvir sem dominar? Veja meu manual pessoal de como contribuir para o movimento feminista, sendo um homem:

1. Sente-se

Isso tem importância fundamental. Sente-se para abrir mão do poder e passar o microfone para outra pessoa. Nossa capacidade cognitiva de ouvir e transmitir mensagens é finita (há um limite a quanta informação podemos manter no cérebro em um momento dado), e, por isso, quem fala tem importância. Você precisa descer de seu pódio para dar lugar a uma voz que merece mais ser ouvida. É uma questão de eu não me meter em espaços que são para mulheres apenas.

Você precisa descer de seu pódio para dar lugar a uma voz que merece mais ser ouvida. É uma questão de eu não me meter em espaços que são para mulheres apenas.

Foi decepcionante saber que Bernie Sanders aceitou inicialmente um convite para abrir a Convenção de Mulheres, em outubro. O comentário de Jennifer Wright na Harper's Bazaar resumiu a tensão perfeitamente:

"Ser um bom aliado nem sempre quer dizer atrair os holofotes para você mesmo, para que todo o mundo possa ver que você é uma pessoa ótima. Às vezes significa assegurar que outras pessoas fiquem debaixo dos holofotes."

Foi perturbador, também, descobrir que os organizadores da cerimônia de entrega do Globo de Ouro estão pensando em Seth Meyers como seu "apresentador feminista".

(Uma decepção que todas as mulheres recusaram esse convite)

Vamos lembrar, não é uma questão de mérito. O problema é reabilitar vieses subconscientes que afastam as mulheres dessas plataformas, em primeiro lugar.

2. Consuma de modo consciente

Já escrevi antes sobre a necessidade de os homens gays rejeitarem a misoginia: abandonar uma apreciação fetichizada das mulheres e defender a diversidade do trabalho de mulheres seria um bom ponto de partida. É fantástico assistir séries de TV e filmes que focam narrativas de mulheres (e possivelmente até passem no teste de Bechdel), mas o próximo passo é olhar para as produtoras, roteiristas e diretoras. Precisamos discernir melhor onde o capital é produzido: quem comanda o negócio? Quem controla tudo? Quem faz o dinheiro circular?

Mas também é importante compreender. Ler mais escritoras mulheres. Assistir a mais peças dirigidas por mulheres. Pesquisar para saber quais empresas locais são administradas por mulheres.

Precisamos discernir melhor onde o capital é produzido: quem comanda o negócio? Quem controla tudo? Quem faz o dinheiro circular?

3. Doe de modo consciente

Em 2017 Nicole Kidman falou da dificuldade em atuar em projetos dirigidos por mulheres, devido à escassez de opções. "Quando você disseca o problema, percebe que não há mulheres lhe oferecendo trabalho porque elas não têm as oportunidades." Kidman prometeu ajudar a mudar as estatísticas, tomando a decisão de atuar em filmes dirigidos por mulheres a cada 18 meses. Ela assume um papel ativo no fortalecimento da representação de mulheres. Não faz sentido que nossa contribuição, como homens, seja tão ativa.

Podemos usar esse mesmo raciocínio para coordenar nossas contribuições pessoais para o movimento de mulheres.

Peter Singer defende o altruísmo efetivo, a ideia de que devemos utilizar nossas habilidades próprias para gerar capital que, então, devemos doar a pessoas habilitadas em suas próprias áreas humanitárias (não vá construir uma escola na África – doe seu dinheiro a pessoas na África habilitadas a construir suas próprias escolas). Podemos usar esse mesmo raciocínio para coordenar nossas contribuições pessoais para o movimento de mulheres. ONGs e entidades beneficentes organizadas por mulheres combatem vários tipos de disparidades sociais (habitacional, de saúde, educação, desenvolvimento), então suas contribuições financeiras podem corresponder às suas prioridades.

4. Recrute outros

Sinto muito decepcionar você, mas colocar "feminista" em seu perfil no Tinder não basta para converter você em um homem feminista. Primeiro, porque isso não existe. Para falar francamente, é mais provável que isso indique que você está explorando um movimento de justiça social para acumular mais capital social para você mesmo. A maneira mais difícil de contribuir para o movimento feminista, mas a que mais vale a pena, é discutir essas questões com outros homens. Transmitir a teoria e os insights feministas a eles. Falar francamente sobre os símbolos convencionais da masculinidade e sobre a misoginia internalizada. Fomentar uma discussão aberta sobre o comportamento que você quer modificar, sobre os valores ou expectativas entranhados que quer combater.

A maneira mais difícil de contribuir para o movimento feminista, mas a que mais vale a pena, é discutir essas questões com outros homens.

Porque, lembre-se disto: as mulheres não precisam que você lhes diga que é feminista, são os outros homens que precisam.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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