OPINIÃO
26/10/2014 11:04 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

O voto poético (na eleição sem bom-senso ou senso-comum)

A polarização entre Dilma e Aécio, entre o Brasil dos pobres e dos ricos, se acentuou como há tempos eu não via e esse não é o Brasil que eu conheço e nem o com o qual eu sonho.

Beraldo Leal/Flickr
World Cup 2010 - Brasil is out!

Aproveitando que sou escritora e, como dizem, a poesia não serve para nada, após muito ponderar sobre em quem votar nas eleições mais acirradas da História do Brasil resolvi votar nulo. Isso é irônico, porque meu post no Facebook logo após o primeiro turno foi contra esse posicionamento de abstenção que, de toda forma, vai beneficiar algum dos lados. Mas, eu não vou nem fazer os cálculos sobre quem irá se beneficiar. Muito menos espero que isso marque posicionamento ou inspire alguém. Só vou torcer para o meu voto nulo não valha para nada mesmo. Resolvi votar em alinhamento com o que sinto...

Me desculpem os beneficiários do bolsa família, os empresários, os indígenas, os agricultores familiares, os estudantes, os médicos (inclusive os Cubanos), os imigrantes bolivianos, os presidiários, os professores, os faxineiros, os analistas de sistemas, os taxistas, os músicos, as empregadas domésticas, os quilombolas, as vítimas de abuso doméstico, as modelos, os traficantes, os micro-empresários, os comerciantes da 25, os ambulantes, os farmacêuticos, os moradores da cracolândia, os evangélicos, os jardineiros, os bibliotecários, os imigrantes japoneses, os feirantes, etc. Eu não consegui formar opinião sobre quem governaria o Brasil melhor para vocês e para mim - para nós. Por isso, vou me abster.

O debate dos candidatos após o primeiro turno tomou um rumo inesperado. A polarização entre Dilma e Aécio, entre o Brasil dos pobres e dos ricos, se acentuou como há tempos eu não via e esse não é o Brasil que eu conheço e nem o com o qual eu sonho. Eu tentei ouvir argumentos, conversei com muitos amigos e li atentamente alguns artigos na tentativa de fazer um voto racional, mas está difícil saber o que de fato mudará com a vitória de um ou de outro em termos concertos. O PT argumenta que corrigirá seus erros e o PSDB que não abandonará os ganhos do atual governo, então, todos se propõem a tudo! O que restou aos eleitores foi escolher com base na personalidade e simbologia dos candidatos.

Eu sempre admirei Dilma. Considero sua trajetória incrível e ela ter se tornado a primeira presidente da república, apesar disso ter acontecido mais por apadrinhamento do que mérito, importante. Quando descobri que teria uma filha, foi esse fato que me acalentou em relação às perspectivas da mulher na sociedade atual. O Aécio eu sabia que era um político mineiro e neto do Tancredo. Não acho que ele deva ser julgado porque aos 17 anos era alienado ou porque pego por uma blitz. Ele vem de uma família de classe média (alta ,talvez?) e se comportou exatamente como são os jovens de classe média, isso não significa nada. Marx era um burguês! Engels era um aristocrata!!! Me parece que se Aécio podia ter ficado esquiando nos Alpes e optou por ser político (uma área repleta de contradições) ele tem algum mérito. Por isso, não votaria ou deixaria de votar em um ou em outro por esses fatores.

Da forma como está posto o debate: Dilma, a representante dos pobres e defensora do Bolsa Família; VS; Aécio, o tucano, representante das elites, que vai enxugar o Estado e é pro PM - não dá para votar. O Brasil que eu conheço não é esse. Esta dicotomia está superada. Estamos lado a lado em muitas esferas, os pobres e os ricos, buscando soluções criativas para as crises que enfrentamos, tanto econômicas quanto sociais e ambientais. Poderia contar inúmeros casos de jovens de classe média (alta e média e baixa) que dedicam suas vidas ao bem comum, assim como de jovens pobres que o fazem (e não). Nosso país é inteiramente recortado por vieses étnicos, de gênero, de cor, trajetórias pessoais específicas. Não somos mais o país da dicotomia e mesmo os resquícios do que ainda há desta etapa da nossa História precisam ser superados e não reiterados. Esse é o meu sentimento.

Desisti de continuar sofrendo sobre em quem votar em meio a este cenário, de tentar ler mais um artigo para ver se me ajuda a decidir. Talvez eu seja órfã da Marina Silva (do que ela representa), sonhadora de uma terceira via para o qual o nosso país ainda não está pronto. Vou esperar o meu tempo histórico chegar e, enquanto isso, continuar na luta da micropolítica, ao lado de centenas de milhares de brasileiros, senão milhões, que todos os dias se levantam com a intenção de fazer algo que possa tornar o nosso país um lugar bacana para se viver, seja reciclando ou só fazendo o seu trabalho bem feito. Em comemoração a isso, hoje, vou preparar uma bela aula de poesia para que minha nova aluna possa se expressar melhor e conseguir compartilhar sua emoção, talvez escrever um belo livro.

É será o meu voto diário, não nas urnas.

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