OPINIÃO
20/01/2015 11:46 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:44 -02

O calor insuportável e a nossa ignorância

Landahlauts/creative commons

Uma das piores coisas de vivermos num país jovem e que acha que sabe de tudo, como o Brasil das capitais, é que penamos incessantemente com a nossa ignorância. Eu não preciso nem falar do calor que fez hoje. Certamente, 99% dos posts das redes sociais o farão por mim e, claro, você que está lendo isso é um herói desta situação, porque conseguiu reunir forças para esticar o dedo até o teclado do seu computador ou smartphone em busca de algum conhecimento ou divertimento ao invés de simplesmente render-se ao sofá.

Quem esteve nas infernais praças de alimentação dos shoppings na hora do almoço, deve ter ouvido todo mundo falar mal dos governantes de todos os níveis e, também, dos Estados Unidos (principal culpado pelo o aquecimento global, "Bem que aquele Gore estava certo!"), das falhas da matriz energética brasileira, de como os ares condicionados chineses não estão dando conta do serviço, enfim. Culpamos os governos e as tecnologias que deveriam ter combatido as manifestações sazonais da natureza. Estamos no topo da cadeia evolutiva da Terra - como é possível isso acontecer conosco!

Isso me fez pensar nas férias em que viajei de mochila pela Europa como meu ex-namorado. Fomos para uma ilha chamada Malta, no Mediterrâneo, um lugar milenar e tranquilo, que consideramos pitoresco e provinciano nos guias de viagens. Pois bem, chegamos de noite, dormimos e acordamos tarde, como fazem os jovens casais, tomamos café da manhã sem pressa, e quando finalmente saímos do hotel para conhecermos a vila, adivinha? Encontramos as portas fechadas. Todas as portas! Não havia um restaurante ou loja aberta. Nem uma residência com sinal de vida interior e muito menos as esperadas crianças pulando amarelinha na calçada - era uma cidade fantasma.

Nos arrastamos pelas ruas vazias sob o sol do meio-dia, num calor insano como o de hoje, sem conseguirmos encontrar um lugar para tomarmos um sorvete ou descansarmos sob a sombra de um guarda-chuva? Teríamos chegado no dia errado? Algum feriado importante ou luto nacional? Como não havia nem uma pessoa para perguntar na rua, voltamos resignados para o nosso hotel. Lá, nem mesmo a recepcionista sorridente nos aguardava e na porta da lanchonete havia uma placa dizendo "Hora de Almoço" (não deveria ser a hora do restaurante estar aberto?). Voltamos para o quarto, driblamos a fome com nozes e chocolates, e nos refugiamos numa soneca.

Lá pelas 16hs, começamos a ouvir vozes. Gente falando, cantando, as crianças correndo! Estavam de volta? Onde estiveram? Nos vestimos rapidamente e corremos para a recepção do hotel, onde encontramos a recepcionista e o garçon de volta. "Onde estavam todos?", perguntamos. "Na siesta", ela apontou para um cartaz na parede. Como assim? Isso mesmo. Na ilha de Malta, e em outros lugares do mundo que aprenderam a conviver com o calor, as pessoas acordam cedo, trabalham entre 6 e 10hs da manhã, voltam para suas casas para almoçar e descansar, e apenas retornam as atividades as 16hs (até as 20hs). Negócios, escolas, bares, supermercados, hotéis, todos seguem esse ritmo ajustado ao clima. Nada que demande a energia de super-hidroelétricas ou mega ares condicionados.

Na verdade, não precisamos ir longe para entender que é possível conviver muito bem com qualquer condição climática. Os índios brasileiros dominam essas técnicas há milhares de anos, são os criadores da invenção mais genial para se dormir no calor, que são as redes de palha, mas claro que nós brasileiros das capitais não perdemos tempo com esses "primitivos" que não trabalham tanto quanto nós. Para nos provarmos superiores, seguimos na vida absurda de irmos para os escritórios entre 8-17hs (quem de fato consegue trabalhar no calor é ponto duvidoso), ficar no trânsito uma hora antes e outra depois fritando no trânsito, para chegarmos exaustos em casa e dormirmos (ao menos tentarmos) num colchão quente na mira de ventiladores supersônicos ou ar condicionados congelantes.

Aos 500 anos de idade, ainda teremos que penar muito para entender o que nossos ancestrais indígenas e os povos do mediterrâneo (e outras regiões do mundo) já sacaram há milhares de anos - que a natureza nem sempre pode ser domada, mas que podemos nos adaptar melhor a ela com um pouco de maleabilidade e humildade. Que nada! Não faz sentido aprender com eles. Afinal, somos jovens e sabemos de tudo!

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