OPINIÃO
12/01/2015 17:18 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

O Brasil fica fora da História ao não homenagear Charlie Hebdo

Não consigo entender porque a Presidente Dilma não pegou o primeiro avião para Paris e fez questão de participar da marcha organizada em homenagem às vítimas dos atendados ocorridos semana passada.

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Não consigo entender porque a Presidente Dilma não pegou o primeiro avião para Paris e fez questão de participar da marcha organizada em homenagem às vítimas dos atendados ocorridos semana passada. Eu mesma, que não represento nem o meu quarteirão, fiquei com a maior vontade do mundo de parcelar uma passagem em doze vezes para vivenciar o momento histórico e respirar os ares da nova era de pensamento sobre as relações do ocidente com o mundo islâmico que se inaugurou no ato.

Acredito que os que puderam erguer suas plaquinhas de Je Suis Charlie na Praça da República parisiense foram testemunhas da grande virada. Até semana passada, havia uma divisão entre os "reacionários", que são contra a imigração de muçulmanos na Europa, e os "liberais", que os acusavam de Islamofobia. Depois de Charlie Hebdo essa divisão foi transcendida. Ficou claro para o mundo que há os muçulmanos e os radicais do Islã. E que ninguém quer um radical do Islã vivendo no seu território. Até mesmo o Hamas condenou o atentado e o Presidente da Autoridade Palestina Mahmoud Abbas esteve presente na marcha, mas Dilma não. Escreveu uma nota de três linhas ao Governo Francês e enviou o embaixador para a marcha.

Será que tudo isso é muito distante da realidade brasileira? Que temos problemas mais importantes e iminentes para tratar? Absolutamente não. Podemos apostar que dentro de alguns meses, o Brasil se tornará o último refúgio do pensamento que os radicais do Islã precisam ser melhor compreendidos. Que o Ocidente não sabe lidar com alteridade e persiste esmagando qualquer tipo de diversidade ideológica. Que eles foram oprimidos durante séculos e treinados pelos americanos durante a Guerra Fria. Que os radicais do Islã precisam de ajuda humanitária e não de polícia (talvez, daremos asilo político para alguns deles?). Sim, essas ideias pertinentes foram debatidas em todo o mundo nas últimas décadas, mas se tornaram obsoletas na semana passada, após Charlie Hebdo.

Os irmãos jihadistas que cometeram o atendado em nome do Estado Islâmico mataram um policial francês que era muçulmano quando ele estava ferido e rendido de mãos para o alto. Aquele policial era também alteridade e ele foi assassinado sem necessidade, lógica ou clemência. Então, como disse muito bem o irmão deste policial, "O meu irmão era muçulmano. Aqueles homens são apenas terroristas." O povo francês ecoou agradecimentos aos policiais durante a marcha. Esse episódio mudou o mundo de um dia para o outro. Vivemos num lugar enorme onde as mudanças em gera ocorrem de forma lenta, mas de vez em quando o sol não se põe no mesmo mundo em que nasceu pela manhã. Poeticamente, ainda que brutalmente, tudo se esclarece e reconfigura.

É essa mudança conceitual que eu gostaria de ter celebrado. Mais do que isso, é dessa mudança que eu gostaria de fazer parte, como ser político. Assim, como cidadã, gostaria de ter sido representada pela Presidente do meu país neste momento. Sua presença em Paris seria o gesto apropriado para chamar a atenção da população para essa grande mudança, como quem diz, "Brasileiros e brasileiras, o mundo mudou. O mundo do qual nós fazemos parte. Repensem suas idéias e teses acadêmicas. O Estado brasileiro o fará." Não foi assim. Permaneceremos pairando na nevoa do ontem, enquanto a História avança.

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